
Nem o preço mais alto do gado nem simplesmente cortar despesas parecem ser suficientes para explicar por que algumas fazendas de pecuária de corte apresentam resultados financeiros consistentemente melhores na Austrália.
A edição de 2026 do Australian Beef Report mostra que a diferença de desempenho entre a média do setor e os 25% de produtores com melhores resultados financeiros permaneceu consistente nos últimos três anos, mesmo em um período marcado por preços recordes e maior volatilidade.
Elaborado pela Bush Agribusiness e publicado a cada três anos, o relatório analisa propriedades de pecuária de corte em diferentes regiões da Austrália. A edição atual, a quarta desde 2017, utiliza dados das pesquisas nacionais anuais da ABARES com pecuaristas especializados com mais de 200 cabeças e informações da base de clientes da própria Bush Agribusiness. Em alguns casos, há até 15 anos de histórico financeiro disponível.
A conclusão central é relativamente simples: os melhores resultados estão ligados principalmente à capacidade de produzir mais carne por animal, mantendo uma estrutura de custos competitiva.
O relatório afirma que manter um rebanho produtivo e uma base de custos competitiva costuma ser o caminho mais eficiente para melhorar os resultados.
Um dos pontos destacados é que uma receita maior explica mais as diferenças de lucro entre as propriedades do que custos menores.
“Os custos não deixam de ser importantes, mas a receita é mais importante”, afirma o relatório.
Isso não significa que os melhores produtores simplesmente vendam seus animais por preços maiores. Segundo a análise, eles conseguem receitas superiores principalmente porque possuem rebanhos mais produtivos e, portanto, produzem mais quilos de carne para vender por unidade animal.
O relatório também chama atenção para uma interpretação comum sobre custo de produção. Como a própria expressão começa pela palavra “custo”, pode existir a percepção de que a melhor maneira de reduzi-lo seja simplesmente gastar menos.
Na maioria das propriedades analisadas, porém, esse não é o caminho apontado pelos dados.
“Aumentar a produção para que haja mais quilos sobre os quais distribuir os custos da propriedade geralmente é a melhor maneira de reduzir o custo de produção”, afirma o documento.
A diferença aparece claramente quando são comparados os custos de produção.
No norte da Austrália, os 25% de produtores com melhor desempenho financeiro apresentaram custo médio de A$ 1,79 por quilo de peso vivo, diante de A$ 2,49/kg na média da região.
No sul, o grupo dos 25% melhores registrou A$ 2,35/kg, enquanto a média chegou a A$ 3,40/kg.
O relatório sugere que as empresas de pecuária de corte busquem um custo de produção inferior a A$ 2,00/kg de peso vivo. Para sistemas de cria de alto desempenho, a referência indicada é A$ 1,50/kg.
Não é, segundo os autores, uma meta fácil. Para alcançá-la, são necessários escala, disciplina e foco constante na produtividade do rebanho, além de gastos direcionados e eficiência no uso da mão de obra.
O tamanho da operação também aparece como um componente importante do desempenho.
De maneira geral, o lucro do rebanho aumenta à medida que cresce a escala da propriedade, refletindo economias de escala e a redução dos custos fixos por unidade animal.
Os produtores menores chegam a obter receita maior por unidade animal, em parte porque tendem a estar localizados em regiões mais produtivas. O problema é que essa receita adicional é consumida por custos também mais elevados, levando, na média, a prejuízos.
Conforme o tamanho do rebanho aumenta, a receita por unidade animal diminui, mas os custos caem em proporção ainda maior, aumentando o lucro.
A escala é uma limitação relevante para grande parte da pecuária australiana. Mais de 50% dos produtores do norte e 75% dos produtores do sul trabalham com menos de 800 cabeças. Na média, propriedades desse tamanho apresentaram prejuízo nas duas regiões.
Mas o próprio relatório faz uma ressalva importante: escala, sozinha, não garante rentabilidade.
Produtores pertencentes ao grupo dos 25% melhores, mesmo quando possuem rebanhos menores, conseguem superar de forma consistente a média de propriedades pertencentes à categoria imediatamente superior de tamanho.
Na prática, aumentar o rebanho precisa vir acompanhado de eficiência operacional e custos competitivos.
O relatório também compara sistemas de cria com operações voltadas ao crescimento dos animais.
Nos últimos 12 anos, as operações de recria e engorda apresentaram, em geral, maior resultado antes de juros e impostos por unidade animal do que os sistemas de cria.
Parte da diferença está relacionada às próprias características dos sistemas e das terras onde são desenvolvidos.
Na média, as operações de recria e engorda produziram 126 kg de carne por unidade animal, diante de 93 kg nos sistemas de cria. O giro médio foi de 111%, contra 45%, respectivamente.
Animais em crescimento conseguem converter a alimentação disponível em peso comercializável de maneira mais direta do que animais mantidos para reprodução.
Além da maior produtividade e do giro mais rápido, essas operações receberam preços ligeiramente maiores e obtiveram mais receita por quilo produzido. A produção adicional foi suficiente, em média, para compensar sua estrutura de custos mais elevada.
Isso, entretanto, não significa automaticamente maior retorno sobre os ativos. As operações de recria e engorda normalmente são realizadas em terras mais produtivas e, consequentemente, mais valorizadas. Assim, um resultado operacional maior por unidade animal não necessariamente se transforma em maior rentabilidade sobre o patrimônio.
Outro resultado importante do relatório vai além da produtividade do gado.
Os dados mostram uma tendência de longo prazo na qual a valorização da terra tem gerado mais riqueza para os pecuaristas australianos do que a própria produção de carne bovina.
No sul da Austrália, o retorno operacional médio dos últimos 12 anos ficou praticamente no ponto de equilíbrio. Ainda assim, o retorno total médio dos negócios chegou a 5,8%, resultado atribuído integralmente à valorização das terras.
No norte, o retorno total médio foi semelhante, de 5,9%. Desse resultado, apenas 1 ponto percentual veio do retorno operacional, enquanto 4,9 pontos percentuais tiveram origem na valorização da terra.
“Isso significa que, na média, todo ou quase todo o retorno de longo prazo do setor vem do aumento do valor das terras”, afirma o relatório.
O fenômeno também ajuda a explicar uma aparente contradição dos últimos anos. Os lucros recentes permanecem superiores aos observados na média dos 12 anos anteriores, mas a rentabilidade caiu porque o valor das terras aumentou.
Quanto maior o patrimônio necessário para gerar determinado lucro, menor tende a ser o retorno percentual sobre os ativos.
Essa dependência da valorização da terra levanta outra questão: a capacidade das propriedades de gerar caixa suficiente para financiar o próprio negócio.
No norte, uma propriedade pecuária média, com A$ 18 milhões em ativos, gerou lucro médio após juros de apenas A$ 73 mil nos três anos até 2025.
No sul, o cenário foi ainda mais desafiador: propriedades com média de A$ 11 milhões em ativos registraram prejuízo médio de A$ 40 mil.
Com pouca geração de caixa depois das despesas operacionais e dos juros, sobram poucos recursos para investimentos de maior prazo, como redução de dívidas, melhorias na propriedade, expansão, aposentadoria e planejamento sucessório.
Até mesmo os 25% melhores, que apresentam retorno operacional médio de longo prazo entre 2% e 3%, precisam ter cautela com o endividamento. Segundo o relatório, dívidas elevadas podem consumir todo o capital disponível para esses investimentos.
Os autores alertam ainda que aproximadamente metade do setor possui pouco capital de giro disponível depois de pagar despesas correntes e juros. Se os valores das terras pararem de subir ou sofrerem uma correção, o patrimônio financeiro dessas propriedades também poderá ficar sob pressão.
Depois de comparar regiões, escalas e sistemas produtivos, o Australian Beef Report 2026 identifica quatro características recorrentes entre os produtores de melhor desempenho.
Eles possuem rebanhos mais produtivos, gerando mais quilos de carne e mais receita por unidade animal; direcionam melhor os gastos com o rebanho, normalmente gastando menos diretamente e ainda assim alcançando maior produtividade; utilizam a mão de obra com maior eficiência, administrando mais unidades animais por trabalhador; e operam em maior escala.
A mensagem final do relatório é que os melhores produtores não estão protegidos das oscilações do mercado. Eles enfrentam os mesmos ciclos de preços que os demais.
A diferença é que produtividade elevada e custos competitivos criam margens maiores e tornam essas empresas mais preparadas para atravessar tanto os períodos favoráveis quanto os momentos de baixa.
“Apesar da exposição igual aos altos e baixos do ciclo, os melhores produtores superam consistentemente a média”, conclui o relatório.
Fonte: Beef Central, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.