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Avaliação Genética da Raça Pardo Suíça Corte1

José Bento Sterman Ferraz2, Joanir Pereira Eler2 e Argeu Carlos Lima Silveira3

Introdução

O Núcleo Brasileiro de Criadores de Pardo-Suíço Corte tem desenvolvido nos últimos dois anos, sob orientação do Grupo de Melhoramento Animal da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo, a colheita de dados de genealogia e desempenho dos animais da raça Pardo-Suíça, variedade específica para produção de carne, que resultou, em caráter experimental, no seu Sumário Brasileiro de Touros Pardo-Suiço Corte 2000, o primeiro sumário da raça produzido a partir de dados colhidos em nossas condições ambientais e analisado no Brasil.

O uso das Diferenças Esperadas de Progênie (DEP´s), de maneira adequada, constitui-se em poderosa ferramenta auxiliar dos pecuaristas na definição de seus critérios de escolha e utilização de touros na reprodução. A utilização das DEP´s vem se tornando regra geral dentre os pecuaristas e um importante fator de aumento de produtividade, competitividade e lucratividade. Essa poderosa e moderna ferramenta auxiliar dos processos seletivos é da maior importância, tanto para os criadores de Pardo-Suíço Corte

Esse Sumário de Touros Pardo-Suiço Corte 2000 deverá se constituir em poderosa ferramenta auxiliar na decisão dos processos seletivos dos criadores, não só de Pardo-Suíço Corte, mas também dos que se utilizam desse material genético para cruzamentos industriais. Um dos principais efeitos da elaboração deste nosso Sumário é o retorno, aos criadores participantes do programa de avaliação genética, das avaliações de todos os animais de suas propriedades, incluindo vacas e tourinhos. Isso tem sido de grande valia para as decisões de venda, preços e descarte, devendo acelerar de maneira bastante intensa o progresso genético nas criações.

Material

Nesse primeiro trabalho foram incluídos 2.450 animais na matriz de parentesco, dos quais 1.350 tinham registros de produção. Uma avaliação genética ainda de pequeno porte, mas que deverá crescer de maneira muito acentuada.

As características avaliadas nessa primeira avaliação foram:

Peso ao nascer = peso real ao nascimento, em kg. Este peso deve ser monitorado para evitar-se um aumento significativo no peso ao nascimento dos bezerros, com conseqüentes problemas de dificuldade de parto. Este peso é o melhor indicador da facilidade de parto.

Peso à desmama = peso, em kg, medido na desmama do bezerro. A DEP para este peso reflete o potencial que o animal tem para desmamar, independente da produção de leite de sua mãe, ou seja, a ação direta dos genes do próprio animal. Este peso é muito importante para os produtores de bezerros.

Peso aos 12 meses = peso, em kg, medido aos 12 meses do animal. A DEP para este peso reflete o potencial que o animal tem para crescer em ambiente independente dos cuidados maternos e, em raças precoces como o Pardo-Suíço Corte, refletem seu potencial de ganhar peso precocemente.

Peso aos 18 meses = peso do animal, em kg, medido a uma idade próxima dos 18 meses. A DEP para este peso reflete o potencial de ganho de peso até o abate.

Perímetro Escrotal (PE12 e PE18) = esta medida, expressa em cm, é tomada nos machos na época das pesagens aos 12 e aos 18 meses e é correlacionada com idade à puberdade, qualidade e quantidade de sêmen, fertilidade, desenvolvimento ponderal e precocidade sexual das filhas e irmãs dos tourinhos. O uso desta característica para compor os critérios de seleção em bovinos de corte tem sido prática comum na maioria dos bons programas de melhoramento em todo o mundo. O perímetro escrotal aos 12 meses indica a precocidade sexual. Seleção para PE, no entanto, não é uma substituição para a seleção direta sobre o desempenho reprodutivo da fêmea.

Para se ter uma idéia do material genético utilizado nesta avaliação, a Tabela 1 apresenta os números de observações e média das diversas características analisadas.

Figura

Análises realizadas

Como significativa parcela dos animais da raça Pardo-Suíço Corte nasce de transferência de embriões, a estimação dos valores genéticos maternos dos reprodutores fica prejudicada e, apesar de ter sido realizada, não foi divulgada. Isso, na realidade, não se constitui um problema, pois habilidade materna e produção leiteira são pontos fortes dessa raça.

Os dados foram analisados segundo metodologia de modelos mistos, considerando-se um modelo animal completo, específico para cada variável, em análises bivariadas, sendo que a característica Peso à Desmama foi considerada a “característica âncora”, o que aumenta a acurácia das predições.

Os modelos de análises consideraram:

* os efeitos fixos de grupo de contemporâneos, que consideraram a fazenda, o sexo, o grupo de manejo do animal, a estação de nascimento e a safra e se o animal era, ou não, de transferência de embriões. Ainda foram consideradas as covariáveis idade da vaca ao parto e idade do animal quando da medição

* efeitos aleatórios dos genes do animal (efeitos genéticos diretos) e de suas mães (efeitos maternos, não divulgados por confundimentos com efeitos das receptoras)

* efeitos aleatórios permanentes que as vacas propiciam aos seus bezerros (também não divulgados por confundimentos com efeitos das receptoras)

Foram utilizados parâmetros genéticos obtidos através do uso do sistema MTDFREML (Boldman & Van Vleck, 1995), conforme apresentado na Tabela 2.

A solução das equações de modelos mistos foi obtida com utilização de softwares apropriados, tais como o ABTK (Golden et al., 1992) e TKBLUP (Golden et al., 1995). Estes programas são utilizados em todo o mundo em análise sob modelo animal, são bem conhecidos da equipe de geneticistas e contam com suporte permanente de seus autores, aos quais a equipe agradece.

Tabela 2

Base genética

É importante ressaltar que o objetivo do uso de Diferenças Esperadas de Progênie (DEP´s) é identificar os animais geneticamente superiores. Isso é válido não somente para os touros mas, principalmente, os animais jovens, reprodutores e matrizes, auxiliando não só nas definições de acasalamento, mas também no descarte de animais. O uso das DEP´s da maneira adequada aumenta muito o ganho genético por ano. Em um bom programa de avaliação genética, tanto os machos quanto as fêmeas devem ser avaliados, devendo ser incluídos todos os animais nascidos.

A base genética refere-se a um grupo de animais ou determinado animal em que a média das DEP´s é assumida como zero. A escolha de determinada base genética não altera a classificação dos animais, uma vez que as diferenças entre as DEP´s permanecem as mesmas. O grupo de animais, ou o animal escolhido, serve apenas como referência.

A base genética utilizada neste ano é a média das DEP´s de todos os animais da população avaliada pois, no momento, a melhor forma de comparação seria com a média geral dos animais da raça avaliados.

O resultado das avaliações genéticas é apresentado como estimativas do valor ou mérito genético dos animais.

Utilização do sumário

A expressão do mérito genético dos animais, nos sumários de bovinos de corte, se faz na forma de DEP´s – diferenças esperadas de progênie, que refletem as diferenças em desempenho, expressas em unidades da característica, que a descendência de um determinado reprodutor, macho ou fêmea, terá, devido ao efeito dos genes desse reprodutor em relação a outros reprodutores dentro da mesma avaliação.

Nossos clientes devem considerar esse Sumário como um catálogo de especificações técnicas e utilizar as informações aqui contidas com o objetivo de escolher animais mais adequados às suas necessidades de melhoramento do rebanho, decisão que deve ser tomada em conjunto com as necessidades do seu mercado.

As informações contidas num Sumário de Touros são, sem dúvida, a melhor ferramenta de seleção disponível para os criadores produzirem mudanças genéticas, na direção desejada, em seu rebanho.

Um sumário de touros não pretende definir quais são os animais “bons ou ruins”, mas, pelo contrário, auxiliar nas decisões dos produtores, com base nas informações a respeito do material genético disponível para eles. O melhor animal para o rebanho de determinado criador, em nosso caso expresso em DEP´s, dependerá do seu mercado, das condições de ambiente existentes onde seus animais serão criados, do seu objetivo atual e do real nível genético de seu rebanho de matrizes.

No processo de decisão, os criadores podem seguir essa seqüência de passos:

1. As características mais importantes na pecuária de corte estão, sem dúvida nenhuma, ligadas à fertilidade. Um rebanho fértil garantirá um baixo custo de produção. Escolha sempre suas fêmeas com base na facilidade de parto, precocidade sexual, que garantirá partos ao redor dos 24 meses de idade, na regularidade dos partos e mostram harmonia com o ambiente, em termos de tamanho na idade adulta e adaptabilidade.

2. A escolha dos de touros que cobrirão suas fêmeas deverá ser feita com base em critérios de produção, o que garante maior aporte de capital no futuro. Um exemplo é utilizar touros que produzam filhos que proporcionem mais quilogramas de bezerros desmamados/fêmea exposta, mas sempre tenham pesos ao nascer moderador. Adicionalmente, o criador deve estar atento para o crescimento pós-desmama.

É importante lembrar que em determinados ambientes, com pastagens de qualidade inferior ou períodos prolongados de seca, não é muito interessante selecionar-se para altos pesos à desmama, pois as vacas não terão condições ambientais para expressar seu potencial.

Um lembrete muito importante: um reprodutor deve ter seu patrimônio genético o mais balanceado possível para o criador. Alguns touros apresentam DEP´s extraordinárias para peso à desmama, por exemplo, mas um ganho de peso ao sobreano médio ou abaixo da média. O uso destes animais reforçará muito o desempenho dos animais em determinada característica, em detrimento de outras. Cada criador, levando em consideração seu meio ambiente, as condições de manejo e pastagens, deverá definir seu limite ótimo para cada característica. Nem sempre o máximo é o melhor.

Um balanceamento adequado para a escolha de um reprodutor seria:

Peso ao nascer: DEP´s negativas ou baixas
Peso à desmama: DEP´s de moderadas a elevadas
Pesos aos 12 e 18 meses: DEP´s elevadas
Perímetro escrotal: DEP´s elevadas

O mais importante no momento da escolha dos reprodutores é definir adequadamente os objetivos na produção de gado de corte, através do correto diagnóstico de seu rebanho e da definição de quais características devem ser melhoradas.

Uma conta muito útil é a seguinte: imagine que um touro A tem DEP de +10,0 kg para Ganho de Peso ao Sobreano e outro touro B tem DEP de -5,0 kg para a mesma característica. Os filhos do touro A serão 15 kg mais pesados que os do touro B, se ambos forem acasalados com vacas semelhantes. Multiplique esta arroba extra de peso vivo por filho por 40 filhos/ano e por 6 anos (vida útil do touro) e por 52% de rendimento de carcaça. O resultado é de 240 arrobas, equivalente a cerca de R$4.200,00, que é o valor da diferença entre os valores de abate dos filhos dos touros A e B.

Tendências genéticas

Os gráficos apresentados a seguir representam a tendência genética, em unidades de cada uma das características, que foram verificadas na população analisada.

Gráfico

Gráfico

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Conclusão

O trabalho desenvolvido pelo Núcleo Brasileiro de Criadores de Pardo-Suíço Corte, apesar de ainda constituir-se em um trabalho de pequeno porte, teve, na avaliação dos criadores, grande impacto no meio dos usuários da genética dessa raça, pois as avaliações genéticas confirmaram a superioridade de vários dos touros hoje considerados superiores por critérios menos objetivos que os valores genéticos dos mesmos.

A organização do trabalho de colheita de informações, que continua sendo feita, bem como a adesão de novos criadores e a confirmação da parceria com o Grupo de Melhoramento Animal da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo, deverá resultar em avaliações genéticas cada vez melhores e mais confiáveis, colocando à disposição dos pecuaristas brasileiros informações de grande valia para suas decisões de aquisição de material genético. A parceria da iniciativa privada com as universidades e centros de pesquisa é, sem dúvida, o melhor caminho para a evolução de nossa pecuária.

1Pesquisa apoiada pela FAPESP e CNPq
2Grupo de Melhoramento Animal
Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP
Cx. Postal 23 – 13630-970 – Pirassununga, SP
e.mail: jbferraz@usp.br ou joapeler@usp.br
3Núcleo Brasileiro de Criadores de Pardo Suíço Corte, Associação Brasileira de Criadores de Pardo Suíço, Superintendente Técnico

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