
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), da Argentina, identificou diferenças importantes na composição da gordura da carne bovina conforme o sistema de alimentação utilizado na terminação dos animais. O estudo mostrou que a carne de novilhos terminados com beterraba forrageira apresentou mais que o dobro da concentração de ácidos graxos ômega-3 em comparação à de animais alimentados com uma dieta à base de milho em confinamento.
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores de unidades do INTA na região da Norpatagônia, em colaboração com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITA), responsável pelas análises físicas e químicas das amostras.
Além das diferenças nutricionais, os pesquisadores avaliaram características como cor, maciez, capacidade de retenção de água e perdas durante o cozimento, buscando determinar se a utilização da beterraba forrageira comprometeria a qualidade da carne.
O principal resultado foi observado na composição dos ácidos graxos. A carne dos animais terminados com beterraba apresentou uma concentração de ômega-3 superior ao dobro daquela encontrada no grupo alimentado com milho.
A relação entre ômega-6 e ômega-3 também foi mais favorável no tratamento com beterraba, ficando abaixo de 3, enquanto no grupo com milho ultrapassou 5.
Essa relação é utilizada como um dos indicadores da composição nutricional das gorduras. Segundo os pesquisadores, valores mais baixos são considerados desejáveis dentro de uma alimentação equilibrada.
Apesar das diferenças no perfil de ácidos graxos, a quantidade total de gordura foi semelhante entre os tratamentos, com um percentual ligeiramente menor na carne dos animais alimentados com beterraba.
As análises também indicaram índices relacionados a um menor potencial trombogênico e uma tendência de redução do índice aterogênico na carne do grupo com beterraba. Esses indicadores descrevem características da composição lipídica, mas não demonstram, isoladamente, efeitos diretos sobre a saúde de quem consome a carne.
De acordo com os pesquisadores Gabriela Grigioni e Darío Pighin, do Instituto de Tecnologia de Alimentos do INTA, o perfil lipídico encontrado na carne dos animais alimentados com beterraba se aproxima daquele observado em sistemas de produção baseados em pastagens.
Além do perfil nutricional, a pesquisa avaliou características que influenciam a percepção do consumidor.
A carne dos animais terminados com beterraba apresentou coloração mais escura, classificada instrumentalmente como muito vermelha, enquanto a carne dos bovinos alimentados com milho foi classificada como vermelha.
Segundo a pesquisadora María Gabriela Garcilazo, do INTA Valle Inferior del Río Negro, essa diferença não representa necessariamente um defeito, mas é uma característica que pode ocorrer em animais mantidos em sistemas de pastejo.
Quanto à maciez, a carne do grupo alimentado com beterraba apresentou tendência a ser ligeiramente mais firme. Entretanto, ambos os tratamentos permaneceram dentro dos limites considerados aceitáveis para o consumidor.
A coloração da gordura de cobertura, por sua vez, foi semelhante nos dois grupos, apresentando tonalidade esbranquiçada.
Os resultados indicam que a terminação com beterraba forrageira pode produzir carne com características sensoriais aceitáveis, sem comprometer os principais parâmetros de qualidade avaliados.
Além das características da carne, o estudo destaca o potencial produtivo da beterraba forrageira nos vales irrigados das províncias argentinas de Río Negro e Neuquén.
Nessa região, a disponibilidade de forragem diminui durante o outono e o inverno, dificultando a terminação dos animais exclusivamente a pasto.
A beterraba forrageira surge como uma alternativa por apresentar elevado potencial de produção por hectare e permitir o consumo diretamente na lavoura, reduzindo a necessidade de fornecer dietas em confinamento ou transportar os animais para outras regiões.
Segundo Verónica Favere, pesquisadora do INTA, a cultura também apresenta boa aceitação pelos bovinos e pode proporcionar custos de terminação inferiores aos de uma dieta de confinamento baseada em milho, nas condições avaliadas na região.
A estratégia pode permitir que produtores mantenham os animais na propriedade e realizem a terminação durante um período de menor oferta de bovinos prontos para o abate.
Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam que o trabalho representa uma avaliação inicial e que novos estudos serão necessários para confirmar as observações.
Também é importante considerar que a comparação envolveu dois sistemas alimentares distintos: beterraba forrageira em pastejo direto e dieta com milho fornecida em confinamento. Dessa forma, os resultados não permitem atribuir exclusivamente à beterraba todas as diferenças observadas na composição da carne.
Ainda assim, a pesquisa apresenta uma possibilidade interessante para a pecuária: utilizar alternativas alimentares que conciliem desempenho produtivo, redução de custos e características nutricionais diferenciadas da carne bovina.
Para os pesquisadores argentinos, o próximo passo será aprofundar as avaliações e verificar o potencial da beterraba forrageira como ferramenta para produzir carne de qualidade durante os meses de menor disponibilidade de pastagens.
Embora o estudo argentino apresente resultados promissores, a utilização da beterraba forrageira na terminação de bovinos ainda precisa ser melhor avaliada nas condições de produção do Brasil.
A cultura, entretanto, não é desconhecida da pesquisa agropecuária brasileira. Um estudo conduzido pela Embrapa Trigo, em Passo Fundo (RS), demonstrou que diferentes cultivares de beterraba apresentaram boa adaptação às condições do Planalto Rio-grandense.
Publicado em 1986 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, o trabalho avaliou cultivares ao longo de quatro anos e registrou produtividade média de 34 toneladas de raízes por hectare. A pesquisa, porém, tinha como foco principal o potencial agronômico e a produção de álcool, não a alimentação de bovinos.
Os resultados indicam que o cultivo pode ser viável em determinadas condições do Sul do Brasil, especialmente em regiões de clima mais ameno. No entanto, a adaptação agronômica não significa, necessariamente, que sua utilização na terminação de bovinos seja economicamente vantajosa.
Na Argentina, um dos principais atrativos da beterraba forrageira é a possibilidade de fornecer alimento diretamente no campo durante o inverno, período de menor disponibilidade de pastagens. Segundo o INTA, o sistema pode reduzir os custos de terminação em comparação ao confinamento com dietas à base de milho nas condições estudadas na Norpatagônia.
Para a pecuária brasileira, seria necessário avaliar se a cultura conseguiria competir economicamente com alternativas já consolidadas, como pastagens de inverno, silagem de milho e sorgo e suplementação alimentar.
Outro ponto que merece atenção é o resultado relacionado ao ômega-3. Como o estudo argentino comparou animais terminados com beterraba em pastejo direto com bovinos alimentados com milho em confinamento, não é possível afirmar que o aumento desse ácido graxo tenha sido provocado exclusivamente pela beterraba.
Assim, embora existam evidências de que a cultura pode se adaptar a determinadas regiões brasileiras, ainda são necessárias pesquisas específicas sobre desempenho animal, custos de produção e qualidade da carne para determinar seu potencial de utilização comercial na pecuária de corte nacional.
Fontes: