
O Brasil, uma das maiores potências agrícolas do mundo, ainda engatinha na implementação de projetos de carbono nas lavouras e na produção animal. A agropecuária brasileira havia emitido, até abril, apenas 2% do total global de créditos de carbono em projetos de mitigação climática do setor, segundo o Berkeley Carbon Trading Project, da Universidade da Califórnia (Estados Unidos).
“O principal gargalo atual não é identificar práticas com potencial climático, mas medir seus resultados com precisão e baixo custo”, afirma Laura Antoniazzi, sócia e pesquisadora sênior da Agroicone. Segundo ela, até a década passada, as metodologias para mensurar estoques de carbono no solo eram predominantemente desenvolvidas para as regiões temperadas.
A adaptação de novas tecnologias para os trópicos (envolvendo sensoriamento remoto, espectroscopia, inteligência artificial e modelos biogeoquímicos) nos últimos cinco a dez anos tornou as medições mais precisas e baratas. “Integrar as medições com modelagem e monitoramento remoto é fundamental para viabilizar projetos em milhões de hectares”, diz a especialista.
Novas oportunidades para a venda de créditos gerados na agropecuária poderão surgir com o funcionamento do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024, e o mercado regulado global, que será administrado pela Organização das Nações Unidas (ONU) com base na regulamentação do artigo 6.4 do Acordo de Paris. A regulamentação do SBCE também pode abrir espaço para o uso de créditos do mercado voluntário no mercado regulado. Assim, ganhariam escala diferentes modelos de negócio.
A climatech anglo-brasileira NaturAll Carbon tornou-se em maio de 2025 a primeira empresa das Américas e a segunda no mundo a emitir créditos referentes à remoção de CO2 da atmosfera em uma área de agricultura regenerativa. A climatech assinou contratos com cinco fazendas, incluindo a Carolinas, propriedade da Amaggi em Corumbiara (RO). O objetivo da startup é emitir nova leva de créditos até dezembro, numa área de pelo menos 50 mil hectares, e chegar a 1 milhão de créditos até 2030, em 500 mil hectares. O crédito tem alcançado preços de US$ 10 a US$ 100 por tonelada de CO2 equivalente no mercado voluntário e consegue um prêmio quando gerado em projetos de agricultura regenerativa, afirma Alexandre Leite, CEO e cofundador da NaturAll Carbon e ex-executivo da Cargill, Copersucar e Petrobras.
A aposta no mercado voluntário impulsiona também a MyCarbon, criada pela Minerva Foods em 2021 para desenvolver projetos de carbono com produtores rurais e apoiar a descarbonização da cadeia da companhia-mãe. Possui três projetos em processo de validação na certificadora Verra. O principal, o BRA-3C, reúne iniciativas de agricultura regenerativa em dez Estados e no Distrito Federal, no bioma Cerrado. As práticas incluem rotação de culturas, plantas de cobertura, bioinsumos e sistemas integrados voltados a ampliar o estoque de carbono no solo.
Na pecuária, a MyCarbon desenvolve o projeto RLB, que visa à recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), manejo rotacionado do pasto e melhoria da nutrição animal. O terceiro projeto é o MyCattle3, dedicado à redução das emissões de metano por meio da inclusão de ingredientes naturais na dieta de cinco mil bovinos confinados. A startup espera certificar os primeiros créditos do conjunto de projetos em 2027. As iniciativas somam atualmente mais de 29 mil hectares contratados e a meta é chegar a cerca de 650 mil hectares nos próximos dez anos. “Nos últimos anos, avançamos na construção de um portfólio diversificado, com foco na geração de créditos de alta integridade ambiental e na criação de oportunidades de renda para produtores rurais”, afirma Marta Giannichi, diretora global de sustentabilidade da Minerva Foods e CEO da MyCarbon.
Já a startup germano-brasileira InPlanet emitiu 389 créditos até agora pelo projeto Serra da Mantiqueira, implantado em uma área de mil hectares da fazenda São José, em Rio Claro (SP). Os créditos foram certificados pela Isometric após verificação independente e receberam nota máxima da agência de classificação BeZero Carbon. A empresa é pioneira mundial na emissão de créditos de carbono removido por meio da tecnologia de intemperismo aprimorado de rochas (ERW, na sigla em inglês). A técnica acelera um processo geológico natural de remoção de carbono da atmosfera, por meio da aplicação no solo de remineralizadores, em forma de pó ultrafino de rochas ricas em silício. Esses minerais armazenam o CO2 que chega ao solo dissolvido na água da chuva e elevam a fertilidade do solo.

Atualmente, a empresa desenvolve projetos em cerca de 20 mil hectares distribuídos por seis Estados, abrangendo pastagens e culturas como cana-de-açúcar, soja e laranja. A climatech afirma que seu método já elevou a produtividade da cana em mais de 6%. A empresa planeja atuar em parceria com produtores, fornecendo o remineralizador, financiando as análises de solo necessárias à certificação e compartilhando receita com a venda dos créditos. Microsoft, Salesforce, Boeing e a equipe Mercedes-AMG Petronas de Fórmula 1 estão entre os atuais compradores de créditos da InPlanet. Renato Magni, diretor de operações da startup, afirma que os créditos de ERW são negociados atualmente em torno de US$ 200 por tonelada de CO2 removida. “Os projetos com remineralizadores permitem ao produtor agregar valor dentro da porteira”, diz o executivo.
Outra pioneira na geração de créditos de carbono com pecuária de corte é a CarbonPec. A startup foi criada em 2022 pela Caaporã Agrosilvipastoril, que tem quatro fazendas sob gestão no extremo norte do Tocantins e funcionam como laboratório. O objetivo é produzir mais carne com menor emissão de carbono e transformar ganhos de eficiência em receita com a venda de créditos no mercado voluntário.
O projeto-piloto ocorre numa área de 18 mil hectares. O principal indicador do piloto é a intensidade de emissões, medida em quilos de dióxido de CO2 e por quilo de carcaça. A fazenda gera créditos ao comprovar a redução das emissões em relação a um cenário de referência (fazenda com operação tradicional). As fontes emissoras são a fermentação no sistema digestivo dos ruminantes, os dejetos dos animais, o manejo de pastagens e o uso de combustíveis. Para reduzir as emissões, a CarbonPec recupera pastagens degradadas e adota melhoramento genético, manejo rotacionado, aditivos na alimentação e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).
Identificada provisoriamente como CN0114, a metodologia foi submetida à Verra em 2023 pelo Imaflora, em parceria com a Caaporã e a consultoria Unique. A consulta pública é esperada para este ano, com validação esperada para 2027, segundo o cofundador e CEO da CarbonPec, Laurent Micol. A metodologia contabiliza apenas as emissões da produção, sem incluir o carbono do solo. “O grande gargalo da pecuária é a falta de investimentos na recuperação e no manejo de pastagens. A receita dos créditos ajudará a viabilizar esses investimentos”, afirma Micol.
O projeto prevê investimentos de R$ 85 milhões. Um quarto dos recursos veio do Fundo Vale, que atua como investidor catalítico em modelo de financiamento híbrido e pretende adquirir parte dos créditos gerados, se confirmada a validação da CN0114 pela Verra. O restante vem do crédito rural e de investidores diversos, incluindo fundos de impacto, com captação em andamento. Micol avalia que os créditos ocuparão faixa intermediária de preços no mercado voluntário, entre US$ 15 e US$ 40.
Fonte: Valor Econômico.