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4 de novembro de 2026

Cruzamentos entre raças leiteiras e de corte já representam 26% dos bovinos que entram em confinamentos nos EUA

Os bovinos provenientes do cruzamento de vacas leiteiras com touros de raças de corte estão ganhando espaço na produção de carne bovina dos Estados Unidos. Em 2025, esses animais representaram aproximadamente 26% dos bovinos que ingressaram nos confinamentos americanos, praticamente o dobro da participação estimada em 2016, quando respondiam por 13%.

Os números foram apresentados pelo economista Charlie Martinez, diretor do King Ranch Institute for Ranch Management, durante um seminário da Universidade do Tennessee.

Segundo o levantamento, realizado por Martinez em parceria com o pesquisador Parker Wyatt, o número estimado de animais provenientes desses cruzamentos, conhecidos como beef-on-dairy, passou de 2,8 milhões de cabeças em 2016 para 5,4 milhões em 2025.

O crescimento reflete a maior utilização de genética de corte em rebanhos leiteiros, impulsionada pela valorização dos bezerros, pela demanda dos confinamentos e pelos investimentos em sistemas especializados de recria e terminação.

De alternativa para períodos de escassez a mercado consolidado

O cruzamento de vacas leiteiras com touros de corte não é uma prática recente nos Estados Unidos. Entretanto, sua participação na cadeia de carne bovina aumentou significativamente na última década.

Segundo Martinez, durante o período de valorização do gado entre 2013 e 2015, o aumento dos preços dos bezerros estimulou produtores de leite a utilizar mais sêmen de raças de corte.

O interesse diminuiu quando as cotações recuaram, mas voltou a ganhar força a partir de 2022, diante da menor oferta de bovinos e da valorização dos animais destinados à recria e terminação.

O economista explica que, anteriormente, os bezerros de origem leiteira eram utilizados principalmente para complementar a oferta de animais quando o mercado de carne bovina enfrentava restrições.

Agora, o segmento está se tornando uma atividade comercial mais estruturada, com empresas especializadas e investimentos direcionados a diferentes etapas da produção.

“Deixou de ser apenas um mercado de substituição, de nicho, para se tornar um mercado mais desenvolvido, com elementos de sustentabilidade no longo prazo”, afirmou Martinez.

Investidores ampliam participação na cadeia

O crescimento dos cruzamentos também está atraindo investimentos privados para a produção de carne bovina a partir de rebanhos leiteiros.

Segundo Martinez, algumas empresas passaram a atuar em diferentes etapas da cadeia, desde a seleção de touros e comercialização de sêmen até a compra dos bezerros, recria, terminação e processamento dos animais.

Esse modelo permite maior integração entre propriedades leiteiras, empresas especializadas na criação de bezerros e confinamentos.

O economista destaca que os investidores estão dispostos a assumir os custos iniciais e manter a propriedade dos animais por períodos que podem chegar a 18 ou 20 meses até a comercialização.

A expansão também contribuiu para o desenvolvimento de estruturas especializadas na criação e recria desses bezerros após sua saída das fazendas leiteiras.

Preços dos bezerros ultrapassaram US$ 1.400 por cabeça

A valorização comercial dos animais é outro indicador da expansão desse mercado.

Segundo Martinez, os bezerros provenientes de cruzamentos entre raças leiteiras e de corte eram comercializados por aproximadamente US$ 50 a US$ 75 por cabeça em 2021 e 2022, antes de algumas categorias alcançarem valores de US$ 600 a US$ 700.

A análise de dados de leilões nos estados da Pensilvânia, Maryland e Nova York mostrou aumentos ainda mais expressivos nos últimos anos.

Na Pensilvânia, bezerros cruzados pesando entre 36 e 41 kg eram comercializados por aproximadamente US$ 200 por cabeça em 2019.

Em janeiro de 2026, o preço médio desses animais ultrapassou US$ 1.400, chegando a aproximadamente US$ 1.500 em fevereiro.

Em Nova York, houve registros de bezerros cruzados com apenas um dia de vida comercializados por mais de US$ 1.850 por cabeça no início de 2026.

Embora os preços tenham recuado nos meses seguintes, Martinez destaca que a valorização ao longo dos últimos anos aumentou a importância econômica desses animais para as propriedades leiteiras.

O levantamento também identificou uma mudança no comportamento dos preços: desde 2024, as fêmeas cruzadas passaram a alcançar valores superiores aos dos machos em alguns mercados de leilões analisados.

Segundo o economista, as razões para essa diferença ainda não estão completamente esclarecidas.

Uma das possibilidades é que os compradores estejam considerando os custos e os riscos associados à castração e ao desenvolvimento dos machos, mas essa hipótese ainda precisa ser investigada.

Participação pode se estabilizar nos próximos anos

Apesar do crescimento expressivo, Martinez considera que o segmento pode estar se aproximando de um período de estabilização.

O economista ressalta que os 26% representam uma estimativa, e não uma contagem exata dos animais que ingressaram nos confinamentos.

Mesmo que essa participação recue para 22% ou 23%, os cruzamentos entre raças leiteiras e de corte continuarão representando aproximadamente um quarto dos bovinos destinados à terminação intensiva nos Estados Unidos.

Segundo Martinez, é pouco provável que o segmento registre outra expansão de 10 ou 20 pontos percentuais no curto prazo.

Entretanto, ele também não espera uma redução significativa da participação desses animais nos próximos cinco a dez anos.

A manutenção da demanda dos confinamentos, os investimentos realizados e a disponibilidade de bezerros provenientes de rebanhos leiteiros sustentam essa perspectiva.

Falta de dados dificulta avaliar o impacto na indústria da carne

Apesar da expansão, os pesquisadores identificaram dificuldades para acompanhar com precisão a participação dos animais cruzados no mercado americano.

Atualmente, os sistemas de informação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) distinguem bovinos de raças leiteiras puras dos animais de corte, mas não apresentam uma categoria específica para os cruzamentos entre raças leiteiras e de corte.

Na prática, os animais beef-on-dairy são contabilizados juntamente com os bovinos tradicionais de corte.

Essa ausência de identificação dificulta o acompanhamento dos volumes comercializados, pesos, preços e características das carcaças ao longo da cadeia produtiva.

Para estimar o tamanho do segmento, Martinez e Wyatt utilizaram dados de inventário bovino, movimentação de animais nos confinamentos e comercialização de bovinos terminados, publicados pelo USDA.

O método considera o número de vacas leiteiras, a necessidade de novilhas para reposição e a quantidade de animais de raças leiteiras puras comercializados durante o ano.

Os pesquisadores também identificaram correlações entre o crescimento estimado dos cruzamentos e alguns indicadores de qualidade de carcaça.

O aumento da participação desses animais apresentou correlação positiva com o número de carcaças classificadas na categoria Prime, a mais elevada do sistema americano de classificação de qualidade, e relação negativa com a categoria Select.

Entretanto, os autores ressaltam que essas associações não comprovam uma relação direta de causa e efeito.

A necessidade de melhorar as informações sobre o segmento também foi identificada em uma pesquisa realizada durante um evento da National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), em 2026.

Entre 153 participantes consultados, 62% apoiaram a criação de uma categoria específica para esses animais nos relatórios de comercialização do USDA, enquanto 65% defenderam sua inclusão nos relatórios de movimentação dos confinamentos.

Segundo Martinez, dados mais detalhados permitiriam compreender melhor a participação dos cruzamentos na oferta de carne bovina e ajudariam os produtores leiteiros a tomar decisões sobre o uso de genética de corte ou leiteira em seus rebanhos.

Com aproximadamente 5,4 milhões de animais estimados em 2025, o sistema beef-on-dairy deixou de representar apenas uma alternativa de valorização dos bezerros leiteiros e passou a ocupar uma parcela expressiva da cadeia americana de produção de carne bovina.

Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

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