
O manejo nutricional nos primeiros meses de vida pode fazer uma diferença significativa no desenvolvimento de bezerros provenientes do cruzamento de vacas leiteiras com touros de raças de corte. Avaliações conduzidas pela Purina Animal Nutrition, nos Estados Unidos, apontaram que animais submetidos a programas nutricionais adequados alcançaram quase 136 kg aos três meses de idade, enquanto aqueles criados em programas tradicionais apresentaram peso médio de aproximadamente 103 kg.
A diferença, de cerca de 33 kg por animal, foi destacada em reportagem publicada pela Drovers, em 29 de outubro de 2026, que reuniu informações de especialistas da Land O’Lakes Animal Milk Solutions e de profissionais ligados à terminação de bovinos.
O tema ganha importância diante da expansão do sistema conhecido como beef-on-dairy, no qual vacas leiteiras são inseminadas com sêmen de touros de corte para produzir bezerros destinados à produção de carne.
Nos Estados Unidos, esses animais têm alcançado elevada valorização comercial, com bezerros cruzados chegando a ser comercializados por US$ 1.300 ou mais, conforme os exemplos apresentados na reportagem.
Entretanto, os especialistas alertam que o potencial genético desses animais pode ser comprometido quando recebem manejo semelhante ao tradicionalmente utilizado para machos de origem leiteira destinados à venda precoce.
Segundo Tom Earleywine, diretor de serviços nutricionais da Land O’Lakes Animal Milk Solutions, os bezerros provenientes do cruzamento de raças leiteiras com raças de corte apresentam características que exigem atenção especial durante a criação.
O especialista explica que esses animais podem se beneficiar do vigor híbrido resultante do cruzamento, mas precisam receber alimentação adequada para expressar seu potencial de crescimento.
Uma das preocupações é que sistemas tradicionais de criação de bezerros leiteiros nem sempre foram desenvolvidos considerando o valor comercial e os objetivos produtivos desses animais cruzados.
De acordo com Earleywine, muitos produtores investem em genética de corte para obter animais de maior valor, mas continuam utilizando práticas de alimentação que podem limitar seu desenvolvimento.
As avaliações realizadas pela Purina envolveram aproximadamente 6 mil bezerros provenientes de cruzamentos entre raças leiteiras e de corte, distribuídos em diferentes experimentos.
Os resultados mostraram que programas nutricionais adequados permitiram maior desenvolvimento corporal, sem necessariamente produzir animais com estruturas excessivamente grandes ou características indesejáveis para a produção de carne.
Para o especialista, o fornecimento adequado de proteína, energia e aminoácidos desde os primeiros dias de vida é fundamental para permitir que os animais expressem as características genéticas herdadas das raças de corte.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a importância de respeitar o desenvolvimento fisiológico dos bezerros.
Segundo Earleywine, algumas práticas tradicionais buscavam estimular a transição para alimentos sólidos o mais rapidamente possível, restringindo a alimentação líquida.
Entretanto, o especialista alerta que tentar acelerar excessivamente esse processo pode comprometer o desenvolvimento dos animais.
O rúmen precisa de tempo para se tornar funcional, e a transição alimentar deve considerar as necessidades nutricionais e fisiológicas dos bezerros.
Nas avaliações citadas, os animais submetidos aos programas tradicionais alcançaram aproximadamente 103 kg aos três meses, enquanto aqueles que receberam alimentação adequada chegaram perto de 136 kg.
Além do maior ganho de peso, Earleywine destaca que bezerros bem nutridos podem apresentar melhores condições para enfrentar desafios sanitários e de manejo nas fases seguintes da produção.
O transporte também foi apontado como um fator importante para o desempenho dos animais provenientes do cruzamento leiteiro com raças de corte.
Diferentemente de muitos bezerros de rebanhos de corte, que permanecem com suas mães por vários meses, animais produzidos em sistemas leiteiros americanos frequentemente deixam a propriedade nos primeiros cinco dias de vida.
Em alguns casos, passam por diferentes instalações e viagens antes de chegar aos sistemas de recria ou terminação.
Segundo Earleywine, essas movimentações podem aumentar o estresse e favorecer problemas relacionados à desidratação, à saúde intestinal e às doenças respiratórias.
O especialista destaca que a desidratação associada ao transporte pode apresentar características diferentes daquela provocada por diarreias.
Por isso, as estratégias de reidratação precisam considerar a causa do problema e as alterações no equilíbrio de água e eletrólitos dos animais.
Laurence Williams, diretor da cadeia de valor da carne bovina da Land O’Lakes, reforça que os produtores devem preparar os bezerros adequadamente para o transporte, garantindo boas condições de hidratação e comunicação com os responsáveis pelo recebimento dos animais.
Segundo ele, a falta de integração entre as diferentes etapas da cadeia pode resultar em perdas econômicas que poderiam ser evitadas.
Além do crescimento e da saúde, a reportagem destaca a relação entre o desenvolvimento inicial dos bezerros e seu potencial de produção de carne.
Williams chama atenção para a importância da nutrição durante as primeiras fases de vida, período em que ocorrem processos relacionados à formação e ao desenvolvimento dos tecidos corporais.
Entre os aspectos mencionados está a formação de adipócitos, células responsáveis pelo armazenamento de gordura, incluindo aquela que poderá contribuir para o marmoreio da carne.
O marmoreio, caracterizado pela presença de gordura intramuscular, é uma das características consideradas nos sistemas americanos de classificação de qualidade de carcaças.
Entretanto, o potencial de qualidade da carne depende de diferentes fatores, incluindo genética, nutrição e manejo ao longo de toda a vida do animal.
Trista Brown-Priest, profissional responsável pela avaliação de milhares de bovinos cruzados que chegam ao confinamento Cattle Empire, no Kansas, afirma que esses animais podem apresentar resultados semelhantes aos bovinos tradicionais de corte quando recebem manejo adequado.
Segundo ela, os animais cruzados têm apresentado resultados competitivos em ganho de peso, rendimento de carcaça e premiações por qualidade.
Em alguns casos, a genética Holandesa também pode contribuir para pesos finais de abate mais elevados.
A profissional destaca ainda a uniformidade dos lotes de animais cruzados, característica valorizada pela indústria por facilitar o planejamento da terminação e da comercialização.
Outro desafio identificado pelos especialistas é a falta de comunicação entre os produtores responsáveis pelas diferentes etapas da criação.
Segundo Williams, informações sobre colostragem, alimentação, vacinação e tratamentos sanitários deveriam acompanhar os bezerros durante sua transferência para outras propriedades.
Esses registros permitem que os responsáveis pela recria e terminação conheçam o histórico dos animais e ajustem os protocolos de manejo.
Brown-Priest destaca que a vacinação adequada é especialmente importante para os bovinos que chegam aos confinamentos, mas ressalta que os registros sanitários precisam acompanhar os animais para que tenham utilidade.
A profissional também recomenda maior integração entre veterinários e nutricionistas das propriedades leiteiras e dos sistemas de terminação.
O objetivo é reduzir problemas durante as transições, preservar a saúde dos bezerros e permitir que os animais mantenham bom desempenho ao longo da cadeia produtiva.
A expansão do cruzamento entre vacas leiteiras e touros de corte representa uma oportunidade de geração de receita adicional para propriedades leiteiras, especialmente quando os bezerros apresentam características valorizadas pelos compradores.
Entretanto, os especialistas destacam que o aproveitamento desse potencial depende de decisões tomadas desde o nascimento.
Além da genética, fatores como alimentação, desenvolvimento ruminal, saúde, transporte e integração entre produtores e confinadores influenciam os resultados.
A possibilidade de manter a propriedade dos animais durante parte ou toda a fase de terminação também é mencionada como alternativa que pode permitir maior participação dos produtores leiteiros no valor gerado pela produção de carne, dependendo dos custos e das condições comerciais.
Para Williams, o principal desafio é reconhecer que esses bezerros fazem parte da cadeia de produção de carne bovina e precisam ser manejados considerando seu destino produtivo.
Os resultados apresentados nos Estados Unidos reforçam que investir em genética de corte em rebanhos leiteiros é apenas uma parte do processo. Para aproveitar o potencial desses cruzamentos, é necessário garantir condições adequadas de desenvolvimento e saúde desde os primeiros dias de vida.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.