

A National Cattlemen’s Beef Association, principal entidade do setor pecuário dos Estados Unidos, tentou, mas não foi desta vez. O governo de Donald Trump deixou de fora a carne bovina da lista de novas tarifas de 25%, anunciada em julho.
A medida aliviou o setor pecuário brasileiro, pelo menos por ora, mas o movimento da entidade americana contra a proteína do Brasil não é isolado. A ofensiva contra a proteína nacional vai além dos EUA e envolve também China (principal importador) e União Europeia, em um movimento que já começa a alterar o fluxo das exportações e a cadeia da pecuária.
Segundo o Itaú BBA, os embarques brasileiros de carne bovina devem cair 20% em 2026, depois de atingirem recorde em 2025. A projeção é de exportações de 3,927 milhões de toneladas, enquanto a produção deve crescer 7%; e o consumo doméstico, apenas 6,5%.
“O Brasil se tornou grande demais para ser ignorado e competitivo demais para não incomodar. Ao mesmo tempo que esses países precisam importar carne, eles também precisam proteger seus produtores locais. No fim, o mercado não é livre”, diz César de Castro Alves, chefe da consultoria Agro do Itaú.
Os números ajudam a explicar esse incômodo. Nos últimos dez anos, as exportações brasileiras de carne bovina cresceram 150%, passando de 1,4 milhão para 3,5 milhões de toneladas. Em receita, os embarques avançaram de 6 bilhões para 18 bilhões de dólares, consolidando o Brasil como maior exportador mundial da proteína, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
“A carne brasileira é muito competitiva e relativamente barata. Alguns mercados tendem a criar barreiras protecionistas”, diz Leandro Gilio, professor e pesquisador do Insper Agro Global.
Nos EUA, a carne bovina brasileira escapou das novas tarifas por causa da escassez de oferta no mercado local. Na China, as restrições incluem cotas e tarifas adicionais de 55% para embarques acima do limite fixado para 2026.
Já a União Europeia adotou novas exigências sanitárias para a produção animal, que entram em vigor em 3 de setembro, em meio à resistência ao avanço da carne brasileira após o acordo com o Mercosul.

Os reflexos desse cenário já aparecem na indústria. Com a perspectiva de queda das exportações, puxada principalmente pela China, além da possibilidade de o mercado interno brasileiro não conseguir absorver a produção brasileira, alguns frigoríficos concederam férias coletivas e estudam adotar -lay-offs para ajustar a produção. “Estamos analisando todas as possibilidades”, diz Roberto Perosa, presidente da Abiec.
Os efeitos também devem chegar ao consumidor. No curto prazo, a queda das exportações deve aumentar a oferta de carne no mercado interno e aliviar a pressão sobre os preços. “O preço da carne deve recuar com um fluxo mais restrito de exportação previsto para o terceiro trimestre”, diz Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado. No médio prazo, porém, a tendência se inverte.
“A menor oferta de gado no Brasil e em grandes produtores, como EUA, Argentina e Austrália, somada à demanda internacional aquecida, deve voltar a pressionar os preços”, avalia Castro Alves, do Itaú. Em um mundo com menos carne bovina disponível e mais protecionismo, a disputa pela proteína brasileira deixou de ser apenas comercial e está cada vez mais geopolítica.
Fonte: Exame.