
A pecuária de corte dos Estados Unidos vive um momento de transição. Depois de anos de redução do rebanho, seca e elevado abate de vacas, começam a surgir condições para uma nova fase de expansão. Mas a expectativa entre especialistas ouvidos pela Drovers é de que essa reconstrução aconteça lentamente.
O cenário reúne fatores aparentemente contraditórios: de um lado, forte demanda por carne bovina e elevada rentabilidade; de outro, seca persistente, falta de mão de obra e crescentes desafios de biossegurança.
Nesse ambiente, a reconstrução do rebanho tende a ser menos uma corrida para recuperar rapidamente o número de animais e mais um processo de decisões planejadas para os próximos anos.
Patrick Linnell, diretor de pesquisa de mercado da CattleFax, considera que a indústria americana está em um ponto de transição dentro do ciclo pecuário.
Depois do período de liquidação, ele vê espaço para expansão, mas não espera uma recuperação rápida.
A projeção apresentada por Linnell é de uma reconstrução gradual do rebanho nacional de vacas, podendo chegar a aproximadamente 30 milhões de cabeças até 2030, caso as condições climáticas e econômicas permitam.
A intenção de crescer já aparece entre os produtores. Na pesquisa de 2026 citada pela Drovers, 55% dos entrevistados afirmaram que pretendem aumentar o número de vacas nos próximos cinco anos.
O otimismo, porém, é limitado por fatores como seca, custo da terra e as lembranças das quedas enfrentadas em ciclos anteriores.
David Anderson, da Texas A&M University, também aponta a seca, a expansão urbana e a disponibilidade de terras como obstáculos de longo prazo.
Períodos severos de seca continuam provocando reduções importantes nos rebanhos. Ao mesmo tempo, a expansão das cidades e os elevados valores das terras dificultam uma recomposição rápida mesmo quando as chuvas retornam.
Por isso, segundo a análise apresentada pela Drovers, a expansão passa menos por uma corrida para retornar aos números anteriores e mais pela formação de rebanhos capazes de permanecer rentáveis diante de condições climáticas e de mercado mais voláteis.
Genética, planejamento de pastagens e investimentos de capital entram nesse processo com um horizonte de planejamento mais longo.
Derrell Peel, da Oklahoma State University, avalia que a indústria está se estabilizando, mas destaca que o processo de reconstrução do rebanho ainda não começou efetivamente. E isso tem implicações para os preços.
Segundo Peel, o pico deverá acontecer depois que os produtores começarem a reter novilhas em quantidade suficiente para realmente reconstruir o rebanho. Para ele, isso ainda não ocorreu.
Peel afirma que o pico dos preços não deverá acontecer em 2026 e provavelmente também não em 2027. Caso uma retenção significativa de novilhas não comece em breve, o rebanho pode não crescer em 2027 e apresentar pouco crescimento até mesmo em 2028.
Enquanto essa mudança não acontece, a expectativa apresentada é de manutenção de uma combinação de oferta restrita, rebanho de vacas envelhecido e sustentação dos preços, mesmo diante de eventuais correções de curto prazo.
A reconstrução também traz outra questão importante: a genética dos animais que formarão o novo rebanho.
Jamie Courter, especialista em genética de bovinos de corte da University of Missouri e também produtora de cria, descreve a situação atual como um “gargalo” genético.
Durante o processo de redução dos rebanhos, segundo ela, os produtores não descartaram suas melhores vacas.
Foram eliminadas principalmente fêmeas que desmamavam bezerros mais leves, não emprenhavam ou apresentavam outros motivos para descarte.
Com isso, Courter avalia que, de maneira geral, permaneceram animais geneticamente superiores.
Esse cenário torna os próximos anos particularmente importantes para as decisões de seleção e adoção de tecnologias.
À medida que a expansão começar, Courter defende que produtores comerciais estabeleçam objetivos claros de melhoramento, sejam intencionais na escolha dos touros e mantenham consistência na seleção das novilhas que serão retidas ou compradas.
A oportunidade, segundo ela, é aproveitar as melhores genéticas que permaneceram no rebanho e garantir sua propagação durante a reconstrução.
A importância dessas escolhas vai muito além do ciclo atual de preços.
Courter destaca que bovinos apresentam intervalos de geração longos.
Segundo ela, são necessários pelo menos cinco anos para começar a observar mudanças genéticas decorrentes das decisões tomadas hoje.
E essas mesmas escolhas podem influenciar o rebanho por pelo menos 15 anos.
Para explicar a importância da consistência, a especialista compara o processo a uma maratona.
O que determina a rentabilidade, afirma, é a tomada consistente de decisões na mesma direção. Assim como ninguém se prepara para uma maratona treinando apenas na semana anterior, o melhoramento do rebanho depende de decisões contínuas ao longo do tempo.
Se o objetivo muda todos os anos, diz Courter, o produtor nunca chega à linha de chegada.
A perspectiva apresentada pela Drovers indica, portanto, que a próxima fase do ciclo pecuário americano não deverá ser marcada simplesmente por uma rápida recuperação no número de vacas.
A combinação de seca, disponibilidade e custo da terra, condições de mercado e decisões genéticas favorece uma reconstrução mais lenta e intencional.
O próprio título do artigo resume essa mudança de enfoque: “Precision Over Expansion” — precisão acima da expansão. A matéria, publicada em 17 de setembro de 2026, descreve um setor com demanda e preços elevados, mas obrigado a adotar uma abordagem mais direcionada para reconstruir seu rebanho diante dos desafios existentes.
Nesse processo, as decisões tomadas nos próximos anos poderão ter efeitos que vão muito além do atual ciclo de preços. Como destaca Courter, algumas das escolhas genéticas feitas agora continuarão influenciando os rebanhos americanos por pelo menos 15 anos.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.