
O governo dos Estados Unidos acaba de colocar em prática uma nova tentativa de enfrentar um dos maiores desafios atuais da pecuária americana: reconstruir um rebanho bovino que chegou ao menor nível das últimas sete décadas e meia.
No dia 31 de agosto, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) lançou oficialmente a Ranchers First Initiative, um pacote de políticas voltado aos pecuaristas americanos.
Ao apresentar o programa durante a Nebraska State Fair, a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, classificou o momento como “um novo dia” para os produtores rurais americanos.
Mas a reação do mercado não foi de entusiasmo unânime.
Analistas alertam que, por mais ambicioso que seja o pacote, existe uma variável que nenhuma política pública consegue acelerar: o ciclo biológico do gado.
O ponto de partida é uma oferta de bovinos extremamente apertada.
Segundo o USDA, o rebanho americano chegou ao menor nível em 75 anos. O governo também afirma que, nos últimos 45 anos, os Estados Unidos perderam cerca de 660 mil ranchers e 86 mil produtores ligados à terminação de bovinos.
A nova política pretende justamente criar condições para interromper esse processo e estimular a recomposição do rebanho.
Uma das principais apostas está nas novilhas.
O governo anunciou um novo instrumento chamado Beef Retention and National Development, ou BRAND, associado ao programa de proteção de risco pecuário LRP.
A ideia é criar uma ferramenta de seguro que proteja economicamente o produtor que decide reter uma novilha para reprodução em vez de vendê-la.
Essa decisão é particularmente importante em momentos de preços elevados.
Quando uma novilha possui alto valor para venda imediata, o produtor enfrenta um dilema: aproveitar o preço atual ou abrir mão dessa receita para transformar o animal em matriz e apostar na produção futura.
O BRAND pretende reduzir parte desse risco. Segundo Rollins, a ferramenta permitiria ao pecuarista proteger economicamente a decisão de retenção, ajudando a reconstruir o rebanho sem obrigá-lo a escolher simplesmente entre “o preço do gado de hoje e a oferta de carne de amanhã”.
É justamente nesse ponto que aparecem as principais dúvidas dos analistas.
Don Close, analista sênior de proteína animal da Terrain Ag, chamou atenção para um aspecto aparentemente óbvio, mas fundamental para entender o mercado americano: a pecuária trabalha com biologia.
Mesmo que os incentivos econômicos façam milhares de produtores decidirem hoje pela retenção de mais novilhas, esses animais precisam crescer, atingir idade reprodutiva, emprenhar, passar pela gestação e finalmente produzir seus primeiros bezerros.
Ou seja: não existe uma política capaz de transformar retenção de fêmeas em aumento imediato da oferta de carne.
Derrell Peel, especialista em mercado pecuário da Oklahoma State University Extension, fez observação semelhante. Para ele, ainda existem poucos detalhes sobre o funcionamento do programa para avaliar seu impacto real.
E há uma certeza: o tempo necessário para desenvolver uma novilha e colocá-la em produção continua sendo longo — e um seguro não muda isso.
Existe, porém, um sinal importante.
Segundo Brooke Rollins, a taxa de retenção de novilhas nos Estados Unidos aumentou cerca de 3%, registrando crescimento pela primeira vez em dez anos.
Esse movimento merece atenção porque a retenção de fêmeas é uma das primeiras etapas de um ciclo de expansão.
Mas também produz um efeito contraditório no curto prazo.
Quando o pecuarista decide manter uma novilha como futura matriz, esse animal deixa de seguir para engorda e abate. Portanto, antes de aumentar a oferta futura, a reconstrução do rebanho pode reduzir ainda mais a disponibilidade de animais no presente.
É um dos motivos pelos quais ciclos pecuários costumam ser lentos e por que a recuperação da oferta americana não deve acontecer simplesmente de um ano para outro.
A estratégia americana ganha outra camada de complexidade quando se observa a política de importações.
Enquanto incentiva seus pecuaristas a reconstruírem o rebanho, o governo decidiu permitir a entrada de 300 mil toneladas métricas de carne bovina fora das cotas tarifárias tradicionais durante um período de 90 dias.
Segundo Rollins, a medida busca aliviar a pressão sobre os consumidores diante dos preços elevados dos alimentos.
A secretária argumentou que esse volume equivaleria a pouco menos de duas libras de carne moída por americano durante os três meses.
Paralelamente, o governo anunciou acordos para que órgãos federais — incluindo escolas, bases militares e hospitais de veteranos — priorizem a compra de carne americana processada no país.
É justamente essa combinação que tem provocado desconforto entre produtores.
De um lado, Washington pede que o pecuarista retenha fêmeas e invista na expansão futura do rebanho.
Do outro, aumenta temporariamente o acesso da carne estrangeira ao mercado americano para tentar aliviar os preços pagos pelos consumidores.
Para Don Close, talvez o principal problema das importações nem esteja no volume físico.
O anúncio inicial das 300 mil toneladas teria atingido a confiança dos produtores e do mercado.
Segundo o analista, cada nova declaração sobre o assunto acaba aumentando a incerteza em um setor que precisa justamente de previsibilidade para tomar decisões de longo prazo.
Close também questiona até que ponto a importação conseguirá efetivamente baratear a carne para o consumidor.
Na avaliação dele, boa parte do produto importado deve seguir para restaurantes de serviço rápido e para a indústria de hambúrgueres. Além disso, existem diferentes agentes e margens entre a importação da matéria-prima e o preço final encontrado pelo consumidor.
O pacote também prevê maior flexibilidade para utilização de áreas do Conservation Reserve Program (CRP) para pastejo depois de desastres naturais, como os grandes incêndios registrados em regiões pecuárias.
A medida foi apresentada como mais uma ferramenta para auxiliar na reconstrução do rebanho.
Close, entretanto, observa que mecanismos semelhantes já existem e questiona quanto das medidas anunciadas representa efetivamente uma mudança estrutural.
Além disso, em regiões atingidas por grandes incêndios, as próprias áreas do CRP próximas às fazendas podem ter sido afetadas pelo fogo, reduzindo sua utilidade como alternativa emergencial de alimentação.
O desafio americano ilustra bem a dificuldade de administrar um ciclo pecuário.
Preços elevados estimulam o produtor a vender animais. Mas reconstruir o rebanho exige justamente o contrário: reter parte das fêmeas que poderiam gerar receita imediatamente.
Quando essa retenção finalmente começa, a oferta disponível para abate pode ficar ainda menor antes que os novos bezerros apareçam.
O governo americano tenta diminuir esse conflito econômico por meio de seguros, flexibilização de regras e outros incentivos.
Mas ainda existem dúvidas sobre como esses programas funcionarão na prática, quanto tempo levarão para chegar efetivamente às fazendas e se serão suficientemente fortes para alterar as decisões dos pecuaristas.
No fim, o sucesso da Ranchers First Initiative provavelmente não será medido pela quantidade de anúncios feitos em Washington.
Será medido pelo que acontecer dentro das fazendas americanas: quantas novilhas serão realmente retidas, quantas chegarão à reprodução e quando os bezerros dessa nova geração começarão a aumentar novamente a oferta de bovinos nos Estados Unidos.
Porque, nesse processo, política econômica pode mudar incentivos.
Mas não consegue encurtar o ciclo de uma vaca.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.