
O mercado pecuário dos Estados Unidos segue enviando sinais mistos aos produtores. Enquanto a oferta de animais para reposição continua apertada e as entradas de bovinos nos confinamentos recuaram quase 10% em maio, o número total de animais confinados permanece historicamente elevado.
Os dados do relatório Cattle on Feed (COF), divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), mostram que havia 11,7 milhões de cabeças em confinamento em estabelecimentos com capacidade para mais de mil animais em 1º de junho de 2026. O volume representa um aumento de 2,1% em relação ao mesmo período do ano passado e configura o segundo maior estoque já registrado para a data.
Segundo Patrick Linnell, analista da CattleFax, esse resultado não indica aumento da produção, mas sim uma mudança na estratégia dos confinadores diante da escassez de animais disponíveis.
“O número de animais confinados está acima do registrado há um ano e também acima da média dos últimos cinco anos. Isso reflete o quanto os confinadores reduziram a velocidade de giro dos animais para manter a ocupação dos currais durante este período de oferta apertada”, explicou.
Na prática, os confinamentos estão mantendo os animais por mais tempo, aumentando os dias de cocho e produzindo bovinos mais pesados. O objetivo é preservar a ocupação das estruturas e manter poder de negociação em um mercado com menor disponibilidade de gado.
O relatório mostrou que as colocações de animais nos confinamentos totalizaram 1,7 milhão de cabeças em maio, queda de 9,7% em comparação com o mesmo mês de 2025.
Para Linnell, a redução era esperada diante da escassez estrutural de animais de reposição nos Estados Unidos.
“Foi um pouco abaixo das expectativas, mas não chega a ser surpreendente. Em algum momento as entradas teriam de ficar abaixo do esperado, considerando o quanto a oferta de animais para reposição está apertada”, afirmou.
O analista lembra que, no início do ano, problemas relacionados à seca e decisões de manejo em pastagens anteciparam o envio de muitos animais para os confinamentos. Agora, o movimento passa por uma correção natural.
A expectativa da CattleFax é que as entradas permaneçam abaixo dos níveis observados em 2025 durante a maior parte do restante do ano.
Esse cenário reforça uma das principais características do atual ciclo pecuário norte-americano: a escassez de animais disponíveis para reposição deve continuar sustentando o mercado.
Outro fator importante para explicar o elevado número de animais confinados é a redução do ritmo de comercialização.
Em maio, os confinamentos comercializaram 1,55 milhão de cabeças, volume 11,8% inferior ao registrado no mesmo mês do ano passado. Foi o segundo menor número de saídas para maio desde o início da série histórica, em 1996.
Para Derrell Peel, especialista em comercialização de gado da Universidade Estadual de Oklahoma, o aumento dos estoques não deve ser interpretado como crescimento da produção.
“O número de animais confinados aumentou porque as comercializações caíram mais do que as entradas. Mas tanto as entradas quanto as saídas estão menores. Os confinamentos estão produzindo menos bovinos, apenas mantendo-os por mais tempo”, explicou.
Segundo ele, essa situação não altera os fundamentos do mercado nem as perspectivas para os próximos meses.
Apesar dos estoques elevados, o mercado continua favorecendo os confinadores.
Linnell destaca que a escassez de animais prontos para abate continua pressionando as margens dos frigoríficos, que seguem operando com rentabilidade negativa.
“Esse poder de negociação dos confinadores continua se traduzindo em margens profundamente negativas para os frigoríficos”, afirmou.
Mesmo com números aparentemente elevados de animais confinados, a realidade continua sendo de oferta insuficiente para a capacidade instalada de abate construída pela indústria ao longo dos últimos anos.
Embora o cenário atual favoreça preços firmes e boa remuneração para os pecuaristas, Linnell alerta que a permanência excessiva dos animais nos confinamentos pode gerar desafios nos próximos meses.
Animais mais pesados significam carcaças maiores, e o acúmulo desse volume durante o outono e o inverno norte-americanos pode pressionar o mercado.
“Acredito que existe o risco de enfrentarmos problemas de atualidade dos lotes mais para frente, especialmente durante o outono e o inverno. Os pesos elevados das carcaças podem se tornar um fator adicional de pressão negativa sobre os preços”, explicou.
Ainda assim, o mercado físico segue resiliente. Segundo o analista, o preço médio ponderado do boi gordo na semana anterior girou em torno de US$ 256 por unidade de comercialização utilizada pelo mercado norte-americano, mantendo firmeza também nesta semana.
Na avaliação de Linnell, o relatório traz sinais contraditórios que podem acabar neutralizando o impacto sobre os mercados futuros.
Por um lado, o elevado número de animais confinados pode ser interpretado como baixista. Por outro, a forte queda nas entradas é claramente um fator de sustentação para os preços.
“É possível construir tanto um argumento baixista quanto altista a partir deste relatório. No final, ele pode acabar sendo um não evento para o mercado, à medida que os participantes digerem as informações”, resumiu.
O principal recado do relatório é que os Estados Unidos continuam convivendo com uma oferta historicamente apertada de animais para reposição.
Para manter seus currais ocupados e preservar poder de negociação, os confinadores estão aumentando os dias de permanência dos bovinos no sistema. Essa estratégia mantém os estoques em níveis historicamente elevados, mesmo com a redução nas entradas.
Se esse movimento continuar, o restante de 2026 deverá ser marcado por três fatores centrais: oferta limitada de gado, preços físicos sustentados e atenção crescente aos impactos do aumento dos pesos de carcaça sobre o equilíbrio do mercado.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.