

A indústria de carne bovina dos Estados Unidos está passando por um processo de redução de sua capacidade de processamento. Em meio à menor disponibilidade de gado e a fortes perdas financeiras, grandes frigoríficos fecharam unidades, reduziram turnos e concentraram suas operações em regiões próximas aos principais confinamentos do país.
Ao longo de 2026, os frigoríficos americanos vêm registrando prejuízos em praticamente cada animal abatido, segundo informações publicadas pela Farm Progress. Esse cenário tem provocado uma série de fechamentos e cortes de capacidade.
De acordo com Rich Nelson, estrategista-chefe da Allendale, as mudanças já retiraram quase 10 mil cabeças por dia da capacidade de abate da indústria americana.
A Tyson Foods aparece como uma das principais empresas nesse movimento.
Em janeiro, a companhia fechou sua unidade de Lexington, Nebraska, resultando na eliminação de 3.200 empregos e na retirada de uma capacidade de processamento de aproximadamente 4.500 bovinos por dia.
A empresa também encerrou o segundo turno de sua planta de Amarillo, no Texas. Com a mudança, a capacidade diária de abate da unidade caiu de aproximadamente 5.500 para 2.800 cabeças, uma redução de quase 50%.
Além disso, a Tyson anunciou novos fechamentos em Joslyn, Illinois, e Eagle Mountain, Utah, enquanto busca um comprador para sua unidade de Pasco, Washington.
As decisões mostram que o ajuste não está limitado a uma única planta, mas faz parte de uma reorganização mais ampla das operações da companhia diante do atual cenário da pecuária americana.
A JBS USA também diminuiu sua capacidade de processamento de carne bovina.
A companhia encerrou o abate de bovinos em sua unidade de Souderton, Pensilvânia, retirando outras 2 mil cabeças por dia da capacidade do mercado americano.
A planta empregava aproximadamente 1.700 trabalhadores. Apesar do fim do abate, a unidade não será completamente desativada.
A JBS pretende investir US$ 30 milhões para converter a instalação em uma operação de processamento e embalagem de carne pronta para o varejo. A expectativa é manter aproximadamente 400 empregos no local.
O principal problema está na combinação entre baixa oferta de bovinos e alto custo para aquisição dos animais.
Os Estados Unidos atravessam um período de rebanho bovino reduzido, o que diminui o número de animais disponíveis para os frigoríficos e aumenta a disputa pela matéria-prima.
Para uma indústria que depende de grandes volumes para diluir os custos fixos de suas plantas, operar com menos animais e pagar mais caro por eles pressiona diretamente as margens.
O resultado tem sido um cenário no qual a capacidade instalada da indústria é maior do que a quantidade de gado economicamente disponível para abastecê-la.
Segundo a reportagem, as empresas apontam justamente o pequeno rebanho bovino americano e o elevado custo de compra do gado como os principais desafios por trás do atual processo de consolidação.
Os números da Tyson ajudam a dimensionar a pressão enfrentada pelo setor.
Somente no último trimestre informado, a companhia registrou prejuízo de US$ 138 milhões em seu segmento de carne bovina.
Para o ano, a expectativa da empresa é de perdas entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões nessa divisão.
O tamanho do prejuízo ajuda a explicar por que grandes empresas estão optando por fechar unidades ou reduzir operações mesmo em um cenário de preços elevados da carne bovina.
O problema, para os frigoríficos, não é apenas quanto a carne vale depois do processamento, mas principalmente quanto precisam pagar pelo boi e quantos animais conseguem colocar diariamente dentro das plantas.
Além da redução do número total de animais que podem ser abatidos diariamente, outra mudança importante está ocorrendo na localização dessa capacidade.
As operações restantes estão se concentrando cada vez mais próximas das principais regiões de confinamento, em uma faixa que vai de Nebraska, passa pelo Kansas e chega ao Panhandle do Texas.
No caso da Tyson, a empresa deverá concentrar sua operação de carne bovina em torno das unidades de Dakota City, Nebraska; Holcomb, Kansas; e Amarillo, Texas.
Essa concentração aproxima a capacidade industrial das regiões onde há grandes volumes de bovinos terminados em confinamento, algo especialmente relevante em um período de menor oferta nacional de animais.
Somadas, as mudanças representam uma redução significativa da estrutura disponível para o abate de bovinos nos Estados Unidos.
Segundo Rich Nelson, da Allendale, a indústria perdeu quase 10 mil cabeças por dia de capacidade de abate.
Em uma semana de cinco dias de operação, isso equivaleria, em termos de capacidade, a aproximadamente 50 mil bovinos a menos. Ao longo do tempo, a redução altera o equilíbrio entre a quantidade de animais disponíveis e a capacidade dos frigoríficos para processá-los.
O movimento mostra uma indústria tentando adequar sua estrutura a uma realidade de menor oferta de gado.
O cenário atual coloca produtores e frigoríficos em lados diferentes de uma equação particularmente difícil.
Para os frigoríficos, a escassez de bovinos aumenta o custo da matéria-prima e dificulta a utilização plena das plantas, pressionando as margens.
Ao mesmo tempo, essa mesma escassez torna o gado disponível mais disputado.
A resposta da indústria tem sido reduzir a estrutura e concentrar a capacidade nas regiões onde existe maior oferta de animais terminados.
A dimensão desse ajuste aparece tanto nos quase 10 mil bovinos por dia retirados da capacidade de abate quanto na previsão de centenas de milhões de dólares em prejuízos para o segmento de carne bovina da Tyson.
O movimento indica que a indústria americana está buscando se adaptar a uma realidade na qual há menos gado disponível para uma estrutura de processamento construída para volumes maiores.
Enquanto o rebanho dos Estados Unidos permanecer reduzido e o custo de aquisição dos bovinos continuar elevado, a pressão sobre os frigoríficos tende a permanecer como um dos pontos centrais da cadeia de carne bovina americana.
Fonte: Farm Progress, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.