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LCAs avançam no custeio da produção

O fim dos recursos equalizados do crédito rural e a escassez de recursos no caixa do governo federal para subvenção extra reforçaram a participação dos financiamentos a juros livres no campo, alimentados principalmente com as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). E esse deverá ser o tom até o fim desta safra, em 30 de junho.

Com desempenho abaixo do apurado na temporada anterior até dezembro, a fonte melhorou a performance e ultrapassou o ritmo de desembolsos do ciclo passado nos dois primeiros meses de 2021. Foram emprestados R$ 20,8 bilhões de julho a fevereiro, aumento de 15% em relação ao mesmo período da safra 2019/20.

Até janeiro, o volume total de crédito das LCAs havia sido apenas 2% maior que na safra anterior. Somente as contratações de investimentos mantiveram alta desde julho. Essas fecharam fevereiro com alta de 160% e R$ 1,8 bilhão contratados. Na B3, o estoque de títulos depositados chegou a R$ 109,7 bilhões.

Com isso, as contratações em geral continuaram aquecidas. Nos oito meses da safra 2020/21, os produtores acessaram R$ 147,5 bilhões, 18% a mais que os R$ 124,7 bilhões no mesmo período da temporada anterior. Nos investimentos, o ritmo é ainda mais acelerado – o aumento foi de 40%, com R$ 47,3 bilhões emprestados. No custeio, o desembolso saltou para R$ 78,8 bilhões, alta de 14%. Os financiamentos com comercialização (R$ 13,3 bilhões) e industrialização (R$ 8,2 bilhões) mantiveram o patamar do ano passado.

Segundo o subsecretário de Política Agrícola e Negócios Agroambientais do Ministério da Economia, Rogério Boueri, não haverá suplementação nos recursos de equalização, aumentando a demanda pelo crédito privado no restante desta safra.

“Os produtores vão ter que se voltar cada vez mais para mecanismos privados de crédito que estão bastante acessíveis também”, afirmou ao Valor. “As LCAs são a principal fonte dos recursos livres nos bancos, mas o mercado de Cédulas de Produto Rural (CPRs) está se avolumando também e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) estão ficando mais fortes no mercado”.

Esse já é o cenário em Mato Grosso, principal produtor de soja do país. No Estado, os recursos livres acessados no sistema financeiro são o segundo principal meio de custear as lavouras do grão. Dos R$ 25 bilhões demandados na safra 2020/21, 24% saíram dessa fonte, atrás apenas das operações de barter com multinacionais (35%). Movimento bem diferente do ciclo 2014/15, quando esse dinheiro representava apenas 10% do funding total.

O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), Daniel Latorraca, disse que o aumento do limite de crédito por produtor melhorou o enquadramento dos mato-grossenses. “É natural esse movimento dos recursos livres. Os bancos conseguem ofertar mais e não têm as amarras do crédito oficial. Isso atrai produtores que não estavam bancarizados, com quase a mesma taxa acessada fora do sistema financeiro” afirma.

Segundo o Imea, com o aumento do PIB agropecuário, a oferta de crédito tornou-se mais atrativa para as instituições financeiras, tendência que vai se manter na safra 2021/22.

Na opinião de José Carlos Vaz, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e ex-diretor de Agronegócios do Banco do Brasil, os investimentos com recursos subsidiados beneficiaram mais os grandes produtores. Para ele, a diminuição da exigibilidade dos depósitos à vista, que têm juros controlados sem equalização, que recuou de 30% para 27,5% nesta safra, e a manutenção da fatia financiável de máquinas e equipamentos – que deveria ser menor para exigir mais recursos próprios -, foram erros que poderiam ter evitado a falta de equalização para pequenos e médios agricultores.

“Volumes importantes de recursos deixaram de ter encaminhamentos mais prioritários. O Plano Safra foi bom para o produtor, mas poderia ter sido menos oneroso para o Tesouro Nacional”, opinou.

Fonte: Valor Econômico.

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