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Minerva anuncia payout suculento após ganhos com China e hedge cambial

Foto: Divulgação Minerva

Os Vilela de Queiroz devem estar sorrindo de orelha a orelha. Quando a holding familiar correu ao Bradesco para tirar a Minerva Foods do atoleiro, tomando um empréstimo de R$ 350 milhões há pouco mais de dois anos, o frigorífico tropeçava em dívidas. Sem o dinheiro dos sócios, certamente teria dificuldades para parar em pé. 

A aposta em um negócio de commodity conhecido por remunerar somente os credores era arriscada – afinal, a família de Barretos não possui muitos outros ativos além do frigorífico -, mas o socorro financeiro está finalmente se pagando. De modo surpreendente, a Minerva pode ser uma cash cow para os acionistas, enchendo de dividendos a VDQ, holding dos fundadores.

A família do interior paulista não esteve sozinha na aposta. A Salic, gestora ligada ao governo saudita, acompanhou o aumento de capital, e no ano passado injetou mais R$ 400 milhões, o que a colocou na condição de maior acionista, com 33% do capital – um acordo mantém o controle com a família fundadora. 

São mais de R$ 500 milhões em dividendos – o anúncio, na sexta-feira, fez a BEEF3 liderar o Ibovespa. Do total, a holding familiar ficará com R$ 99 milhões, montante proporcional a sua participação de 17,6%. Ainda está longe do volume de crédito que precisaram tomar no banco, mas dá uma sinalização relevante. Parte dos recursos foi distribuída antecipadamente. À Salic, coube R$ 191 milhões em dividendos. Os demais investidores, pulverizados, ficarão com R$ 252 milhões. 

O resultado da Minerva melhorou graças à demanda chinesa e à política de hedge cambial, que não só evitou o impacto da depreciação do real como rendeu caixa. Nesse embalo, o frigorífico distribuirá 78% do lucro de 2020. 

Para virar o jogo, a Minerva também levantou muita grana no mercado. Há um ano, a companhia fez um follow-on de R$ 1 bilhão – nessa operação, os Vilela de Queiroz receberam R$ 200 milhões na tranche secundária, dinheiro usado para renegociar as dívidas com o Bradesco e alongar o prazo de vencimento. 

A engenhosidade do CFO Edison Ticle também teve peso decisivo na história. Além da política de hedge cambial desenhada pelo executivo, o aumento de capital capitaneado por Salic e VDQ no fim de 2018 trouxe um bônus aos investidores e à própria Minerva Foods. 

Para estimular os investidores a participarem da operação, a Minerva deu um bônus de subscrição de novas ações, a um preço definido de R$ 6,42. O papel poderia ser exercido a qualquer momento e vence no fim deste ano. A lógica da operação é simples: com o tempo, a Minerva se recuperaria, reduzindo o endividamento – em consequência, as ações se valorizariam, o que de fato ocorreu. BEEF3 vale R$ 9,70. Portanto, quem tem bônus está no lucro.

Desde então, a maior parte dos bônus foi exercida. A Salic, aliás, indiretamente deu uma mãozinha para a VDQ ao exercer os papéis no ano passado, colocando mais R$ 400 milhões no caixa da Minerva. O montante acelerou a trajetória de desalavancagem. Quando a relação entre dívida líquida e Ebitda está abaixo 2,5 vezes, o que ocorreu após o aporte saudita, mais de 50% do lucro pode ser pago aos acionistas. Não fosse isso, a Minerva só poderia distribuir o mínimo de 25%. 

Os Vilela de Queiroz ainda não exerceram os bônus – a holding detém 46 milhões de papéis, o que injetará mais R$ 300 milhões na Minerva até dezembro e fará a participação da família atingir 22%. Com os dividendos gordos, a liquidez da família para exercer os papéis inegavelmente melhora. 

“Quem não fica feliz em receber dinheiro?”, brincou uma fonte próxima à família. O mercado gostou do que viu, mas teve investidor com a pulga atrás da orelha. Em tempos de boi galopante e margens pressionadas, o dividendo mais singelo seria uma forma de precaução, argumenta uma fonte. 

Em entrevista ao Pipeline, Ticle tranquilizou os ressabiados com o payout. Do caixa da companhia, sairão R$ 384 milhões para pagar os dividendos. Na outra ponta, a Minerva deve receber R$ 313,5 milhões em bônus até o fim do ano, equilibrando a alavancagem. Como a operação é financeiramente vantajosa para o investidor, a entrada de caixa deve se efetivar. 

No frigir dos ovos, a Minerva trabalha com a recuperação das exportações de carne a partir de março. As margens dificilmente repetirão os dois dígitos do ano passado, mas a companhia não queimará caixa. O investidor pode até não voltar a ver um payout tão suculento, mas a promessa é que os dividendos vieram pra ficar- para satisfação dos acionistas, sejam eles árabes ou do interior paulista. 

Fonte: Valor Econômico.

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