
A decisão da China de aprovar plantas frigoríficas dos EUA para exportação é o tipo de manchete que chama atenção em todo o setor pecuário. Mas o economista John Nalivka alerta os produtores para lerem além da primeira linha antes de começarem a contar com exportações maiores. Na visão dele, o anúncio é importante — mas é apenas o Passo 1, e ele ainda não está pronto para chamá-lo de divisor de águas.
A Administração Geral das Alfândegas da China (GACC) concedeu uma extensão de cinco anos para o registro de 425 estabelecimentos frigoríficos dos EUA que estavam pendentes no sistema CIFER (Food Import Food Establishment) da China, um passo crítico para restaurar o acesso da carne bovina americana ao mercado chinês. Além disso, 77 novos registros de estabelecimentos de carne bovina dos EUA foram adicionados ao sistema CIFER, com validade de cinco anos. Embora alguns estabelecimentos americanos ainda permaneçam suspensos para exportação à China, um comunicado oficial da Casa Branca publicado no domingo afirma que a China trabalhará com os reguladores dos EUA para suspender todas as restrições às plantas frigoríficas americanas.
“Eles aprovaram as plantas que estavam aguardando a certificação de exportação, então isso é um grande passo”, diz Nalivka. “Mas dizer que eles vão comprar X toneladas de carne bovina dos EUA, essa é a próxima questão.”
Dan Halstrom, presidente e CEO da U.S. Meat Export Federation (USMEF), afirma: “Essa é uma excelente notícia; é ainda melhor para nossos clientes na China, que estavam ansiosos para retomar o acesso à carne bovina americana. Esses clientes estão prontos, dispostos e preparados para avançar. Outro ponto encorajador no comunicado da Casa Branca foi que, além de conseguirmos o recredenciamento dessas plantas, também temos questões relacionadas às plantas suspensas, e o USTR está trabalhando nisso neste momento. Então isso também faz parte do anúncio: trabalhar para reativar essas outras plantas — portanto, tivemos resultados muito positivos na última sexta-feira.”
Halstrom participou do programa AgriTalk na segunda-feira. Ele resume que a reunião entre Trump e Xi na semana passada, na China, foi o tipo de “evento decisivo” necessário para destravar barreiras não tarifárias de longa data. Ele observa que, sob o acordo da Fase 1 de 2020, as plantas deveriam ser revisadas e automaticamente recredenciadas a cada cinco anos, como ocorreu com a carne suína, mas não com a carne bovina.
Nalivka destaca que a aprovação chinesa é um sinal da forte demanda global por carne bovina americana de alta qualidade. O movimento acontece em um momento em que os produtores de gado finalmente estão vendo os preços recordes se sustentarem. É por isso que Nalivka está ao mesmo tempo otimista e cauteloso. Com os preços da carne já em níveis históricos, ele afirma que o setor precisará equilibrar as ambições de exportação com a oferta doméstica apertada e um cenário complexo de importações.
“Por um lado, estamos falando de preços recordes da carne bovina e, ao mesmo tempo, estamos falando de exportações. Precisamos do mercado de exportação, não há dúvida disso”, explica. “Mas, você sabe, uma coisa sustenta a outra.”
Nalivka alerta contra analisar as exportações isoladamente.
“Se você vai exportar, também precisa importar. Os dois lados fazem parte disso”, afirma, apontando o papel da carne magra importada utilizada na produção de carne moída para manter a oferta e os preços dos hambúrgueres sob controle.
À medida que a China potencialmente compra mais produto americano, Nalivka afirma que o setor precisa explicar melhor por que as importações — especialmente aparas magras — fazem parte da mesma história de sucesso. Com o abate de vacas em queda, a oferta doméstica de carne magra está apertada. Nalivka alerta que, se os EUA tentarem expandir as exportações enquanto restringem as importações, os consumidores sentirão isso diretamente no açougue.
“Fazemos isso para garantir o fornecimento dessa carne magra usada para produzir hambúrguer”, afirma. “As pessoas acham que hambúrguer a US$ 6 por libra está caro. Bem, vamos tirar as importações e então veremos qual será o preço do hambúrguer.”
Nalivka resume que a aprovação dos registros das plantas abre a porta, mas não mostra até onde a China está disposta a avançar.
Segundo o Foreign Agricultural Service (FAS), as exportações de carne bovina para a China representam um “ganha-ganha” para pecuaristas e consumidores. Em relação ao mix de produtos, a demanda chinesa se concentra em miúdos e cortes menos valorizados, não nos cortes nobres.
“Os ‘miúdos’ enviados para a China adicionam US$ 165 ao valor de cada animal para os produtores, sem aumento de custos para os consumidores — impulsionando investimentos na expansão do nosso rebanho para alimentar os americanos nos próximos anos”, publicou o FAS no X.
Historicamente, a China tem sido um dos três maiores compradores de língua, dobradinha e tendões, além de ser o principal comprador de couros e peles. Esses produtos raramente são consumidos pelos americanos, que preferem hambúrgueres, brisket e steaks.
“Também existe um benefício indireto com a China”, diz Halstrom. “O simples fato de a China estar presente no mercado, porque o mix de produtos é bastante semelhante em toda a Ásia — Japão, Coreia, Taiwan e também China — cria um efeito positivo nos preços em todos esses mercados. Itens como short plate, por exemplo, têm potencial para aumentar entre US$ 2,2 e US$ 4,41 por quilo apenas com a China voltando ao cenário mundial.”
Ele explica que o foco principal da China não são os cortes nobres como ribeye ou striploin, então as exportações para a China complementam o mercado doméstico em vez de competir diretamente com ele.
Halstrom afirma que o momento é favorável, com uma grande feira de alimentos acontecendo em Xangai e forte entusiasmo de compradores como o Sam’s Club, que já estão prontos para iniciar embarques aéreos do produto.
Ele não compartilhou uma data específica ou um cronograma claro de curto prazo para o início dos embarques, mas acredita que terão mais informações “em breve”.
“O papel da China nos mercados globais de carne bovina mudou rapidamente nas últimas duas décadas”, afirma Derrell Peel, especialista em comercialização pecuária da Oklahoma State University Extension.
“A China, incluindo Hong Kong, não tinha praticamente nenhuma participação nos mercados globais de carne bovina até cerca de 15 anos atrás, mas cresceu rapidamente e se tornou o maior importador de carne bovina da última década.”
Peel afirma que, por muitos anos, a China foi um grande produtor e consumidor de carne bovina, mas praticamente não tinha presença no mercado global. A partir de 2013, o aumento do consumo começou a superar a produção doméstica, levando pela primeira vez a importações significativas.
Embora o consumo per capita de carne bovina na China continue relativamente baixo — cerca de 13 libras por pessoa, contra 59 libras nos EUA — a enorme população significa que pequenos aumentos no consumo representam grandes volumes totais de carne.
Peel afirma que, como resultado, China e Hong Kong rapidamente se tornaram o maior importador mundial de carne bovina, ultrapassando os EUA em 2017. Ainda em 2022, China e Hong Kong representavam mais de 35% das importações globais de carne bovina.
Parte desse crescimento incluiu o aumento das exportações de carne bovina dos EUA para a China. Peel explica que Hong Kong foi um importante mercado de exportação de carne bovina americana durante os anos 2010, representando até 16% das exportações totais dos EUA e ocupando a terceira posição entre os destinos de exportação.
“Era amplamente reconhecido que parte das exportações para Hong Kong acabava sendo reexportada para a China”, afirma Peel. “Depois que os EUA obtiveram acesso oficial à China, as exportações começaram a crescer, enquanto os embarques para Hong Kong diminuíram, como esperado. Por esse motivo, os dados da China e de Hong Kong são combinados, embora ainda sejam apresentados separadamente.”
Em 2025, com tarifas em vigor e o acesso dos EUA à China revogado, as exportações para China e Hong Kong caíram fortemente, embora as exportações para Hong Kong tenham aumentado ligeiramente para compensar parcialmente a queda total. Peel afirma que isso ocorreu devido às diferentes respostas políticas em Hong Kong.
A participação de China e Hong Kong nas exportações americanas de carne bovina caiu de 18,7% (terceiro maior mercado) para 10,4% das exportações totais, passando para a quarta posição entre os destinos da carne bovina americana.
“Embora China e Hong Kong tenham crescido rapidamente como grandes mercados para a carne bovina americana após 2020, a participação dos EUA no total das importações desses mercados ainda foi relativamente pequena”, afirma Peel. “A participação dos EUA nas importações totais de carne bovina da China e Hong Kong atingiu o pico de 8,8% em 2022 e caiu para 3,7% em 2025. Não há dúvida de que China e Hong Kong representam um enorme potencial para as exportações de carne bovina dos EUA na ausência de barreiras políticas.”
O relatório mostra a perda dramática das exportações de carne bovina para China e Hong Kong em 2025 em comparação com outros grandes mercados de exportação. A queda nas exportações para China e Hong Kong respondeu por 68% da redução total das exportações americanas de carne bovina em 2025.
“O impacto dessa perda de mercado para a carne bovina dos EUA passou praticamente despercebido simplesmente porque o mercado doméstico americano estava muito forte e em tendência de alta”, afirma Peel. “Em circunstâncias de mercado diferentes, o impacto seria muito mais evidente. Parte das perspectivas futuras para a reconstrução do rebanho e aumento da produção de carne bovina nos EUA dependerá da manutenção e expansão de mercados robustos de exportação, e China e Hong Kong certamente serão componentes fundamentais.”
Para os produtores, o acordo com a China é uma notícia bem-vinda — mas chega em um ambiente em que cada libra de carne bovina já está em alta demanda. A verdadeira história para os produtores será entender quanto produto a China realmente comprará e como os EUA administrarão o delicado equilíbrio entre preços domésticos elevados, crescimento das exportações e as importações que mantêm abastecida a seção de hambúrgueres.
Fonte: Drovers, traduzida e adaptada pela Equipe BeefPoint.