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26 de agosto de 2026

O Que os Frigoríficos Argentinos Esperam da Nova Jogada de Trump com a Carne

O mercado mundial de carne bovina recebeu nesta sexta-feira (21) um sinal que pode abrir uma nova oportunidade para os exportadores. Donald Trump anunciou que os Estados Unidos permitirão, durante 90 dias, a entrada de até 300.000 toneladas de carne destinada à produção de carne moída, sem tarifas e fora das cotas habituais. O objetivo é aumentar rapidamente a oferta e reduzir um dos preços que mais pesam sobre o consumidor norte americano.

O anúncio tem uma particularidade que exige cautela em sua interpretação: ainda não se sabe quais países poderão utilizar esse volume, como ele será distribuído, quais produtos serão abrangidos nem como a medida será implementada. Na Argentina, um parceiro da hora dos norte-americanos, o próprio setor frigorífico evita falar em um novo negócio até que seja publicada a regulamentação correspondente.

Mario Ravettino, presidente do Consórcio de Exportadores de Carnes Argentinas (ABC), foi categórico ao responder à consulta da Forbes: lembrou que Trump já havia feito um anúncio semelhante em maio, que acabou não sendo implementado, e pediu que se espere antes de tirar conclusões.

“É uma declaração do presidente dos Estados Unidos. Houve uma semelhante no mês de maio deste ano que depois não foi implementada. Não podemos fazer nenhuma avaliação neste momento porque não há nada estabelecido, é apenas um tweet do presidente dos Estados Unidos”, afirmou.

E acrescentou: “Se isso vier a se concretizar, faremos a avaliação correspondente, mas, neste momento, é apenas um anúncio, razão pela qual não se deve criar nenhum tipo de expectativa enquanto isso não se concretizar”.

A cautela faz sentido. Para a indústria argentina, o verdadeiro negócio não está apenas nessas 300.000 toneladas extraordinárias, mas em conseguir que o mercado norte americano se transforme em um destino cada vez mais relevante e permanente para a carne do país.

Por que Trump precisa de carne importada

Por trás do anúncio da Casa Branca está um problema de oferta que os Estados Unidos enfrentam há anos: há menos vacas, menor produção e uma demanda que continua enorme.

O rebanho norte americano caiu para 86,3 milhões de cabeças em 2025, o nível mais baixo da série histórica, enquanto, entre 2019 e aquele ano, foram perdidos cerca de 7,5 milhões de animais. A produção também recuou em relação ao recorde de 2022, quando havia alcançado cerca de 12,9 milhões de toneladas.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos consomem aproximadamente 13,2 milhões de toneladas de carne bovina por ano, o que torna necessário recorrer ao mercado internacional para completar o abastecimento.

Nesse cenário, a pressão chegou ao consumidor. O preço da carne bovina vem acumulando fortes aumentos, e a carne moída, um dos produtos centrais da alimentação dos norte americanos, chegou a quase US$ 7 por libra (R$ 36,00 na cotação atual) em julho. Na comparação anual, o preço da carne moída aumentou cerca de 10%.

É nesse ponto que aparece a lógica da decisão de Trump: importar mais agora para reduzir os preços enquanto o rebanho se recompõe, algo que não pode ocorrer em questão de meses.

O presidente norte americano afirmou que a carne que entrar por meio desse mecanismo será comercializada 25% abaixo dos preços atuais de mercado. No entanto, o anúncio ainda não explicou quem assumirá esse compromisso nem como ele será implementado comercialmente.

A decisão também não é pequena em termos de comércio internacional. As 300.000 toneladas representam cerca de 3% do consumo anual de carne bovina dos Estados Unidos, um volume relevante para um mercado que já depende das importações para completar seu abastecimento.

Se a medida for efetivamente implementada, os Estados Unidos buscarão esse volume adicional em um mercado no qual os grandes exportadores mundiais já competem. A disputa será para saber quem conseguirá capturar essa demanda extraordinária e em quais condições.

Brasil, Austrália, Canadá, México, Nova Zelândia e Uruguai aparecem entre os principais fornecedores dos Estados Unidos. E a Argentina quer ocupar uma parcela maior desse negócio.

A Argentina já tem uma porta aberta e quer mantê-la

A oportunidade surge justamente quando a indústria frigorífica argentina tenta consolidar o avanço obtido neste ano nos Estados Unidos. Em fevereiro, o governo Trump multiplicou por cinco a cota argentina de acesso preferencial: ela passou de 20.000 para 100.000 toneladas, com a incorporação de 80.000 toneladas adicionais para 2026.

O dado é relevante porque essas 80.000 toneladas adicionais são destinadas, em boa medida, a aparas magras utilizadas na produção de carne moída e hambúrgueres, justamente o segmento para o qual Trump volta agora a direcionar sua atenção.

Por isso, a indústria argentina observa o anúncio com interesse, embora sem considerar como certo que essas 300.000 toneladas estarão disponíveis para o país.

O objetivo imediato é outro: demonstrar que a Argentina consegue cumprir a cota que recebeu e negociar sua continuidade em 2027. Até 31 de julho, a utilização da cota estava em torno de 61%, e as empresas esperam completar as 100.000 toneladas antes do fim do ano. Paralelamente, governo e empresários já trabalham na negociação para repetir esse volume no próximo ano.

Ravettino confirmou que essa discussão está em andamento e destacou que o setor privado está fazendo esforços para demonstrar o cumprimento da cota adicional. “Deram nos 80.000 toneladas adicionais e a Argentina vai cumpri las. Nós, do setor privado, estamos fazendo esforços comerciais para nos posicionarmos no mercado norte americano. Esperamos que tudo isso tenha um resultado positivo”, explicou.

O movimento comercial também será intensificado em setembro, quando 16 empresas frigoríficas argentinas viajarão para Miami, Houston e Atlanta para realizar reuniões com compradores, brokers e clientes norte americanos. A aposta é conquistar compradores, construir relações comerciais e transformar uma ampliação extraordinária da cota em uma presença estável no mercado norte americano.

Daniel Urcía, presidente da Federação das Indústrias Frigoríficas Regionais Argentinas (FIFRA), já havia apresentado justamente essa interpretação ao analisar a ampliação do acesso argentino: a medida poderia se transformar em uma oportunidade para renovar o acordo e, eventualmente, conseguir um volume maior para 2027.

Agora, com Trump voltando a abrir a porta para as importações, o cenário ganha outra dimensão. Para Urcía, a decisão dos Estados Unidos é um sinal que pode favorecer os exportadores argentinos, embora tenha um limite claro: são apenas 90 dias.

“É uma decisão limitada a 90 dias. Caso se concretize, isso nos incentiva a pensar que podemos renovar o acordo atual e talvez aumentar o volume da cota para 2027”, afirmou.

A importância dos Estados Unidos para a indústria frigorífica argentina deixou de ser apenas uma expectativa e passou a aparecer em números concretos. Durante o primeiro semestre de 2026, a Argentina exportou 411.705 toneladas equivalentes de carcaça com osso de carne bovina, 10% a mais do que no mesmo período do ano passado.

Desse total, os Estados Unidos concentraram 19,5% dos embarques, ficando atrás apenas da China, que respondeu por 53%. Israel representou 10%, a União Europeia 9,1% e o Chile cerca de 2%. Mas o dado mais atraente para a indústria está nas receitas: as exportações argentinas de carne bovina geraram US$ 2,202 bilhões (R$ 11,32 bilhões) entre janeiro e junho, um aumento de 44,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Os Estados Unidos tornaram se, assim, o segundo principal destino da carne argentina, ultrapassando mercados tradicionais e ganhando importância rapidamente.

A razão não está apenas no volume. O mercado norte americano permite vender determinados produtos por valores superiores aos obtidos em outros destinos e, além disso, possui uma demanda estrutural por carne magra que se encaixa em parte da oferta argentina.

Por isso, o anúncio de Trump tem uma interpretação que vai além das 300.000 toneladas. Caso a medida seja finalmente implementada, os Estados Unidos poderão se transformar, durante os próximos 90 dias, em um comprador ainda mais agressivo em um mercado internacional no qual a Argentina já conquistou uma posição preferencial. O desafio será aproveitar essa oportunidade sem confundir uma abertura extraordinária com uma mudança permanente das regras.

Fonte: Forbes.

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