

A primeira frente fria de 2026, somada às quedas bruscas de temperatura, trouxe prejuízos para produtores rurais de Mato Grosso do Sul neste mês. Cinco propriedades notificaram mortes de bovinos por hipotermia, totalizando 83 animais mortos, segundo a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro).
De acordo com Daniel Ingold, diretor-presidente da instituição, o cenário ocorre por causa de uma inversão térmica acompanhada de chuva, garoa e ventos fortes em um curto intervalo de tempo. “Em poucas horas, a temperatura pode cair de 32 °C para 5 °C. Nessas condições, os animais mais vulneráveis são aqueles que já estão debilitados, magros ou estressados, como bois que passaram por transporte recentemente”, afirma.
Segundo Ingold, esses animais se tornam mais suscetíveis à hipotermia.
“Hoje vemos extremos cada vez maiores: calor extremo, frio extremo e chuvas extremas. É inegável que a natureza está mais severa, e isso aumenta a vulnerabilidade do rebanho.”
Outro fator que contribui para esse cenário são as características das áreas de pastagem, especialmente no Pantanal, bioma que ocupa cerca de 65% do território sul-mato-grossense. “Nessa região existem grandes áreas abertas, sem mata ou vegetação para servir de abrigo. Com isso, o animal fica totalmente exposto ao vento gelado, e a sensação térmica acaba sendo muito menor do que a temperatura registrada, o que pode levar à morte”, explica.
Segundo o diretor-presidente, o episódio não é isolado. Relatos de mortes de bovinos provocadas pelo frio existem desde a década de 1960.
Em 2010, a Iagro registrou cerca de 5 mil mortes. Já em 2023, aproximadamente 3 mil animais morreram. Neste ano, até o momento, foram registradas apenas as 83 mortes.
“Não dá para dizer que isso é normal, mas também não é algo inédito. O cenário de 2023, por exemplo, foi muito mais grave e chegou a configurar uma emergência sanitária”, afirma Ingold.
De acordo com registros da instituição, um produtor da região de Corumbá perdeu 386 cabeças de gado em 2023. “É uma perda econômica muito grande e também uma situação muito triste”, diz Ingold.
Ingold afirma que, em situações como essa, o manejo do rebanho se torna essencial. Monitorar a saúde dos animais e buscar áreas mais protegidas, evitando locais abertos ou próximos de rios e córregos, em que a sensação térmica costuma ser ainda mais baixa, pode reduzir perdas no rebanho.
Esses cuidados se tornam importantes porque a hipotermia costuma agir rapidamente e nem sempre apresenta sinais clínicos evidentes. “Muitas vezes o animal simplesmente deita e morre”, explica.
“Por isso, recomendamos que o produtor mantenha os animais mais frágeis em áreas protegidas e faça suplementação alimentar quando necessário. Hoje a tecnologia também permite prever a chegada dessas frentes frias com antecedência”, complementa.
Além disso, ele destaca que a região já apresenta um padrão climático conhecido pelos produtores. “Nessa época, a frente fria entra pelo Paraguai, chove por alguns dias, a temperatura despenca e depois o tempo abre novamente”, afirma. Segundo Ingold, compreender esse comportamento climático ajuda o produtor a planejar estratégias e definir cuidados para proteger o rebanho.
Além das mortes, o frio também afeta a produção das pastagens. O capim perde qualidade, seca e reduz a oferta de alimento, o que deixa os animais em déficit nutricional. “Por isso, muitos produtores recorrem à suplementação alimentar, ao semiconfinamento e até ao confinamento em boitéis, sistema em que pecuaristas pagam para outra empresa engordar os animais. Esse modelo cresceu bastante nos últimos anos”, explica Ingold.
O diretor-presidente afirma que, sempre que ocorre uma mortalidade elevada, equipes da Iagro vão até a propriedade para verificar se a causa realmente foi hipotermia ou se existe alguma doença envolvida. “Hoje Mato Grosso do Sul possui status sanitário de livre de febre aftosa sem vacinação. Por isso, qualquer mortalidade em grande escala precisa ser investigada com muito cuidado”.
Ele também reforça a importância de comunicar os casos à Iagro. “Assim, conseguimos monitorar a situação da região, acompanhar clinicamente os casos e orientar os produtores.”
Ingold também aponta que preocupação não é apenas sanitária, mas também comercial. “O mercado internacional exige rastreabilidade e segurança sanitária, então precisamos ter certeza da causa das mortes.”
Quando a equipe recebe a notificação, ela vai até a fazenda e verifica se os animais apresentam sinais clínicos compatíveis com doenças.
“Na hipotermia, a morte costuma ser muito rápida, diferente de enfermidades como raiva ou clostridioses, que apresentam outros sintomas antes do óbito”, explica.
O diretor-presidente afirma que as mortes geralmente acontecem quando um período de calor intenso é seguido por uma queda brusca de temperatura. “Esse choque térmico é o que mais impacta os animais.”
Apesar das mortes registradas neste ano não representarem um número tão expressivo quanto o de 2023, Ingold afirma que os produtores estão mais atentos aos riscos. “Isso acontece porque o problema afeta diretamente a atividade econômica deles”, conclui.
Fonte: Globo Rural.