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17 de julho de 2026

Redução de embarques de carne à China pode ter impacto de até US$ 4,5 bilhões

O setor frigorífico brasileiro deverá exportar cerca de 900 mil toneladas de carne bovina para a China em 2026, uma redução de 748 mil toneladas em relação ao recorde de 2025. A estimativa é do presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa.

O volume projetado para embarques neste ano representa quase a metade das 1,68 milhão de toneladas de carne bovina in natura vendidas aos chineses em 2025. Essa retração nas vendas pode gerar um impacto de até US$ 4,5 bilhões no faturamento dos frigoríficos nacionais, que já adotaram medidas para reduzir custos e diminuir a produção temporariamente.

A redução é resultado da salvaguarda chinesa, que aplicou uma cota de importação ao Brasil de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina para 2026. Como a China considera cargas enviadas em 2025 mas que entraram lá neste ano, a exportação total do Brasil em 2026 não chegará ao limite do volume autorizado. Até junho, foram embarcadas 794,6 mil toneladas para os portos chineses.

Com isso, o impacto projetado de redução no faturamento dos frigoríficos brasileiros que vendem à China é de até US$ 4,5 bilhões. O cálculo considera o volume potencial que deixará de ser exportado, de 748 mil toneladas, e o preço médio dos embarques ao mercado chinês entre janeiro e junho, que chegou a US$ 6,1 mil por tonelada.

No início de 2026, a estimativa era exportar 600 mil toneladas a menos, com queda de US$ 3 bilhões na receita, considerando a média de faturamento por tonelada do ano passado, de US$ 5 mil. A projeção não levava em conta as cargas embarcadas em 2025 e computadas na cota pela China.

As indústrias nacionais já interromperam a produção de cortes específicos e os embarques para a China a partir de julho por considerarem que a cota já está esgotada. O governo chinês ainda não divulgou o balanço oficial.

A expectativa é que as linhas de abate de bovinos destinadas ao mercado chinês sejam retomadas no último trimestre para exportações a partir de meados de novembro. Como a viagem de navio ao país demora 40 dias, as cargas chegarão aos portos da China já em 2027, e vão ocupar assim a cota do ano que vem, sem a cobrança de sobretaxas.

“Todos sabem o nosso nível de exposição ao mercado chinês. Estamos aprendendo a viver com este novo momento”, disse Perosa em coletiva de imprensa ontem. “É um decréscimo grande [para 900 mil toneladas]. Vai ter um impacto na nossa contabilidade, um reflexo na balança comercial e no volume das exportações brasileiras. As vendas para alguns mercados devem crescer, mas não o suficiente para vencer todo esse volume tirado da China”, afirmou.

Exportações

As vendas para a China se aceleraram no primeiro semestre com o movimento para aproveitar a cota com tarifa de 12% e não pagar a sobretaxa de 55%. A disputa pela carne elevou os preços. Não há como afirmar que o ritmo e as cotações se manteriam elevados na segunda metade do ano.

Perosa disse que o setor precisará trabalhar para evitar quedas ainda maiores no volume de carne exportada. No geral, a perspectiva é encerrar o ano com 10% de recuo nos embarques em relação a 2025, quando foram vendidas 3,5 milhões de toneladas. “Estamos trabalhando para manter o número, que já é um decréscimo, mas as dificuldades estão colocadas”, disse.

O impacto da salvaguarda chinesa já é sentido na prática pela indústria. Segundo o executivo, todas as empresas associadas, responsáveis por 98% das exportações brasileiras, adotaram medidas para se adequar à interrupção nas vendas para o principal cliente, como férias coletivas, demissões, redução da jornada de trabalho, diminuição de abates, entre outros. Muitas operam “no vermelho”.
“Temos que adequar mais do lado da produção do que do escoamento da produção, mas isso depende de cada empresa. Todas estão vivenciando dificuldades, desde as grandes até as médias e pequenas”, acrescentou.

O cenário também pode gerar maior concentração do setor, com movimentos de aquisição de grupos menores por grupos maiores, disse o presidente da Abiec.

Negociações com a União Europeia

Além do esgotamento da cota da China, Perosa confirmou que há “grande possibilidade” de as vendas para a União Europeia serem interrompidas a partir de setembro devido à falta de comprovação técnica, pelo Brasil, de não uso de antimicrobianos na criação de bovinos cujos cortes são enviados ao mercado europeu. Isso também afetará o faturamento dos exportadores.

“É um mercado com alto valor agregado, que importa cortes que não têm destinação na Ásia e é importante nesse mix. As exportações para lá ajudam a tirar pressão para formação de preço aqui”, disse Perosa. Ele acrescentou que atender ao mercado europeu melhora a “reputação” do produto brasileiro. “Quando a UE decide por uma atitude, impacta o restante dos mercados”, admitiu.

Sem China e UE, a demanda global pela carne bovina brasileira vai cair. A “disputa” menor pela proteína afetará preços pagos para exportação, mas a Abiec ainda não tem um cálculo definitivo. Entre janeiro e junho, as vendas do setor chegaram a 1,7 milhão de toneladas, alta de 15,5%, e US$ 9,8 bilhões de faturamento, incremento de 36,2% em relação ao primeiro semestre de 2025. Os preços médios recebidos aumentaram quase 18%, para US$ 5,7 mil por tonelada.

Os efeitos dessa receita menor serão repassados para o mercado interno em um movimento que pode, a médio prazo, encarecer a carne ao consumidor brasileiro, segundo Perosa. “Em um primeiro momento, pode ter arrefecimento do preço no mercado interno, mas os custos não diminuíram. Deve haver diminuição da produção e, com isso, o preço volta a subir, pois tem menos oferta. É um efeito rebote que estamos vendo”, disse.

“Se continuássemos com a mesma quantidade de produção do ano passado, no mercado atual, o preço cairia, mas como não tem destinação, não existem razões para a indústria continuar produzindo para exportação”, argumentou.

Fonte: Globo Rural.

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