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Suplementação Líquida I: composição do suplemento e efeitos no consumo de matéria seca e digestibilidade

A variação da produção de gramíneas tropicais obedece a uma estacionalidade. Tal característica leva à menor qualidade e disponibilidade de forragem para ruminantes submetidos a regime de pastejo, principalmente no período seco.

Nestas condições, quando a pastagem apresenta deficiências que impedem a produção e a reprodução animal, indica-se a utilização da suplementação.

Alguns autores advertem que, embora os grãos sejam excelente fonte suplementar para bovinos, a dificuldade em regular seu consumo restringe sua utilização na prática. O melaço de cana utilizado em pequenas quantidades tem sido amplamente usado como um veículo para a inclusão da uréia. Tal associação tende a melhorar o consumo de forragens de baixa qualidade por bovinos.

Este artigo tem por objetivo caracterizar o suplemento líquido, que é uma das formas de suplementação para bovinos em pastejo.

1. Histórico

Não existe nenhum relato de quando foi iniciada a utilização de suplementos líquidos para bovinos de corte. Os primeiros trabalhos publicados são da década de 50, dando uma noção de quando essa prática teve seu início.

A suplementação líquida deve fornecer os nutrientes necessários ao desenvolvimento dos bovinos, garantindo no mínimo os nutrientes para mantença dos animais.

No Brasil, a principal utilização desses suplementos é para a diminuição das perdas, ou até mesmo para ganho de peso durante épocas de baixa qualidade das forragens (seca).

A utilização de suplementos líquidos apresenta resultados contraditórios na literatura. Essas diferenças parecem estar relacionadas à qualidade das forragens e ao tipo de suplemento utilizado.

2. Composição dos suplementos líquidos

Um suplemento líquido comercial é formulado com vitaminas, sais minerais, fósforo de alto valor biológico, energia, proteína natural e uréia (ANIPRO).

2.1 Fonte de energia

Os suplementos líquidos têm como base de formulação o melaço, que pode ser de cana, amido, beterraba ou outros. O melaço, além de ter baixo custo e alta palatabilidade, permite a inclusão de outros ingredientes menos palatáveis. Seu elevado teor de carboidratos prontamente fermentecíveis possibilita a utilização de fontes de nitrogênio não protéico (NNP) a baixo custo.

2.2 Fonte de nitrogênio

Pode-se utilizar várias fontes de nitrogênio (proteínas naturais, proteínas bypass ou ainda nitrogênio não protéico) quando da formulação dos suplementos líquidos.

Dentre as fontes de nitrogênio não protéico passíveis de serem utilizadas na nutrição animal, a uréia merece destaque por fornecer nitrogênio (N) prontamente disponível no rúmen. Seu baixo custo poderá levar ao sucesso econômico do manejo de suplementação.

O biureto também pode ser utilizado como fonte de NNP, visto que alguns trabalhos que o utilizaram apontaram para resultados semelhantes aos obtidos com uréia.

Fonnesbeck et al. (1975), Rush et al. (1976), Claton (1978), demonstraram que o biureto é uma fonte de nitrogênio não protéico mais palatável e menos tóxica que a uréia. Essa menor toxicidade acontece devido à sua baixa taxa de degradação ruminal e, portanto, liberação mais lenta da amônia.

Rush et al. (1976) compararam a utilização de uréia ou biureto em vacas durante o inverno, em pastagem nativa, e encontraram menor perda de peso e de condição corporal com suplementação com biureto. Porém, Rush & Totusek (1976), em um experimento semelhante, encontraram melhores resultados para a suplementação com uréia que com biureto.

As fontes de proteína verdadeira como o farelo de soja, podem ser utilizadas melhorando a resposta animal principalmente quanto ao ganho de peso, porém com custos mais altos. Os melhores resultados em ganho de peso com a utilização do farelo de soja ocorrem, provavelmente, devido ao impacto positivo sobre o consumo da matéria seca.

2.3 Outros ingredientes

Além das fontes energética e protéica, os suplementos podem conter vitaminas, minerais, antibióticos e aditivos. Níveis de fósforo, enxofre, minerais e outros ingredientes, como o ácido fosfórico, podem interferir no desempenho animal.

O ácido fosfórico é utilizado como fonte de fósforo nos suplementos líquidos comerciais. Davidovich et al. (1977) reportou que adicionando 3% de ácido fosfórico a um suplemento líquido com 10% de uréia, preveniu a intoxicação por amônia. Isto ocorreu provavelmente devido ao decréscimo do pH ruminal, reduzindo a absorção de amônia livre.

TABELA 1: Composição de ingredientes utilizados na formulação de suplementos líquidos

Tabela 1

3. Utilização do suplemento líquido

A utilização do suplemento líquido aponta para resultados contraditórios na literatura. Essas diferenças parecem estar relacionadas à qualidade das forragens e ao tipo de suplemento utilizado. Deve ser ressaltado que parte dos trabalhos não apresenta a formulação dos suplementos utilizados.

3.1 Efeito no consumo de matéria seca

Minson (1990) ressaltou que o consumo de matéria seca pode ser estimulado com o acréscimo de suplementos protéicos quando a dieta possui teores de PB inferiores a 6-7% na matéria seca.

Dentre os suplementos protéicos, Hunter & Sierbert (1987) acreditam que a uréia pode aumentar a ingestão de forragem desde que fornecida com uma fonte de energia de alta degradabilidade.

Beames (1959), Bond & Rumsey (1973), Butterworth et al. (1973) demonstraram que a suplementação de bovinos em pastagens de baixa qualidade, utilizando apenas o melaço, diminui o consumo de matéria seca em 17,9%, porém com a introdução de uréia no suplemento, a diminuição no consumo caiu para 4%. Baixos níveis de nitrogênio no suplemento irão resultar em um desequilíbrio na disponibilidade de N e carboidratos no rúmen, resultando na diminuição da ingestão de forragens (Smith, 1979, Sterrn e Hoover, 1979).

Bowman et al. (1998) afirmam que a porcentagem de animais que não consomem o suplemento líquido aumenta com o aumento na disponibilidade de forragem, devido provavelmente a menor competição por nutrientes. Ainda nesse trabalho, os autores observaram que vacas consumindo suplemento líquido, sob regime de pastejo durante o outono, demonstraram maior consumo (9,7 Kg X 14,4 Kg/vaca/dia) e digestibilidade da matéria seca que vacas não suplementadas.

3.2 Efeito na digestibilidade

Em um estudo realizado por Kalmbacher et al. (1995) com novilhos Brahman mantidos em pastagem tropical de baixa qualidade (4,5% PB na matéria seca e 37% de digestibilidade da matéria orgânica in vitro) e suplementados com melaço de cana (0 ou 20% da matéria seca da dieta) e/ou adicionado de uma fonte de proteína bruta (sem adição, uréia ou farelo de soja), os autores observaram que os animais suplementados com melaço tiveram maior digestibilidade aparente da matéria orgânica (56,9% X 53,6%) que os animais não suplementados com melaço. Porém, a digestibilidade do FDN (fibra em detergente neutro), FDA (fibra em detergente ácido) e da hemicelulose foi menor para os animais suplementados com melaço. Dentre as fontes de proteína bruta, a que mostrou melhor digestibilidade da matéria orgânica foi o farelo de soja, sendo que os animais suplementados com uréia e os não suplementados não diferiram entre si.

A redução da digestibilidade da fibra em dietas baseadas em forragens e suplementadas com melaço ou outros carboidratos prontamente fermentecíveis tem sido relatada e relacionada ao efeito negativo da inclusão de fonte energética na digestibilidade da forragem (Mould et al., 1983; Beck et al., 1992; Brown, 1993).

O aumento na digestibilidade das forragens devido à suplementação com PB tem sido atribuído à fonte de proteína bruta e/ou peptídeos e aminoácidos que estimulam a produção microbiana e então a digestão da forragem (Minson & Milford, 1967; Redman et al., 1980; Munoz et al., 1985).

Referência bibliográfica

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1 Comment

  1. walter castellucci disse:

    Preciso desse produto, minha fazenda é no vale do ribeira, farei uma expereiencia, quero saber onde compro e o menor preço, grato

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