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Tabela nutricional tropical (TNT)

Por Paulo Roberto Silva1

DEUS em sua infinita sabedoria criou uma variedade de seres vivos e os colocou em ambientes diversos e em seguida, escolheu o homem para do seu reino cuidar.

A Ciência tem como base a observação dos fatos, interpretação e defesa de teses.

O homem, com sua inteligência e criatividade, interfere no curso natural do meio em que vive, mudando as condições para melhorar, muitas vezes, até com sucesso.

Neste contexto, vale a pena dizer que os habitantes do meio tropical têm por hábito, copiarem soluções encontradas pelos habitantes das zonas temperadas, talvez pelas facilidades econômicas e sociais nas regiões mais desenvolvidas, que em geral estão naquele ambiente.

Assim tem sido feito com o tratamento nutricional dos nossos animais em produção, que sempre tiveram suas suplementações energéticas, protéicas e até em parte os minerais, baseados na Tabela NRC (National Research Council) dos Estados Unidos da América do Norte (EUA).

Nos últimos anos tivemos um grande avanço nos critérios estabelecidos no Melhoramento Genético, principalmente nos bovinos de corte no Brasil.

Hoje, existe uma maior conscientização deste processo em diversos setores da agropecuária, o que tem contribuído enormemente com o melhoramento dos nossos índices de produtividade, fazendo o Brasil conquistar seu devido lugar de destaque na agropecuária mundial.

Resta agora assumirmos esta responsabilidade e sermos referência no sistema de produção agropecuária na faixa tropical.

Desta forma, creio que o próximo passo a ser dado, com urgência, é desenvolvermos uma tabela nutricional adaptada às condições tropicais, que leve em conta, a exemplo do que aprendemos com a própria genética, as principais influências ambientais e raciais que possam interferir na eficiência do processo produtivo.

Durante minha vida profissional, tive a oportunidade de verificar alguns exemplos de interação ambiental como os tratamentos de bovinos em grande escala, em confinamentos, onde quando era adotado um sistema de arraçoamento baseado na tabela NRC, com 60% de concentrados e 40 % de volumosos em quantidades conforme estabelecidas pela exigência nutricional para ganhos de até 1,5 Kg/dia.

Os animais puros zebuínos não suportavam, apresentando em torno de 40% de laminites, enquanto os bovinos 3/4 zebuínos + 1/4 europeus apresentavam 20% de laminites e os F1 (1/2 zebuíno + 1/2 europeu) até 10%, significando em nosso ponto de vista uma diferença devida a sub-espécie em termos de suporte nutricional no meio, mostrando talvez uma maior adaptabilidade do europeu ao consumo de concentrados, comparados aos zebuínos.

Considerando que nosso sistema de produção é baseado em sua grande maioria em regime de pasto, diferente dos ambientes temperados onde tem por base maior o tratamento com rações, temos que considerar estes fatores na tomada de decisão na busca de uma maior eficiência nutricional no ambiente tropical.

Acreditamos que diferentemente dos taurinos, os zebuínos devem aproveitar melhor as pastagens mais grosseiras, de origem tropical, e necessitem menos calorias para sua manutenção devido serem mais aptos ao clima e a liberação de calor, tão necessária ao meio, diferente do ambiente temperado, onde os animais necessitam manter calor interno, precisando de mais calorias e alimentos mais concentrados.

Interessante notar que, no clima temperado o peso ao nascer dos bezerros é muito maior do que no clima tropical, independente da raça.

Segundo dados dos EUA, o bezerro nelore atinge média de 40 Kg naquele ambiente em comparação com os 29 Kg atingidos aqui no Brasil.

Está ai a principal razão do alto índice de assistência ao parto principalmente em novilhas no ambiente temperado, enquanto que em nosso ambiente praticamente não se exige assistência ao parto, sendo este fator pouco relevante nos sistemas extensivos de criação bovina no Brasil.

Este fato se deve ao maior fluxo de sangue no útero das fêmeas prenhes no ambiente temperado, comparativamente às fêmeas prenhes no ambiente tropical, onde o sangue vai em maior quantidade para a região periférica do corpo, devido a necessidade de liberar calor em detrimento da região temperada onde necessita mais calor interno.

Portanto, apontamos uma característica que envolve o sistema de engorda de bovinos e outra que envolve o sistema reprodutivo, evidenciando grandes diferenças provocadas pelo ambiente, que de fato devem interferir nas necessidades nutricionais.

Sabemos que não será possível atingirmos correções que nos darão controle total destas interferências, pois o sistema é muito dinâmico, mas podemos e temos que ajustar o principal, pois adianta em muito a nossa eficiência de produção.

Não podemos ficar aceitando receitas anti-econômicas de interesses que não atendam ao bem comum.

A EMBRAPA já tem apontado soluções mais econômicas nas mineralizações entre secas e águas, que ainda não estão sendo implementadas na grande maioria das fazendas, havendo desperdícios de minerais nas secas e falta nas águas.

A adoção oficial de uma Tabela Nutricional Tropical – TNT, viria servir de base para uma série de medidas mais econômicas no nosso sistema produtivo, evitando-se a exploração comercial sem respaldo científico verdadeiro.

Instituições e pesquisadores de qualidade, temos de sobra, basta organizarmos o trabalho e encontrarmos as soluções.

Mãos à obra!
______________________________
1Paulo Roberto Silva é Fiscal Federal Agropecuário do Ministério da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento, sediado em Votuporanga/SP

0 Comments

  1. Marcelo Manella disse:

    Caro Paulo,

    Suas considerações são pertinentes, porém um pouco desatualizadas.

    O CNCPS (Cornell Net Carbohydrate and Protein System) deste a versão de 2000, a partir de trabalho de um brasileiro, Dr. Luis Orlindo Tedeschi, criou a biblioteca tropical de alimentos, com base em trabalhos, na maioria teses realizados no Brasil, além de também conter dados do México e Am. Central.

    As informações de exigências para animais zebuinos já existem e são frutos de mais de 20 anos de pesquisa do Instituto de Zootecnia em Nova Odessa.

    Informações estas também inseridas no CNCPS e no RLM (Ração de Lucro Máximo) desenvolvidos na ESALQ-USP pelo Prof. Dante e Celso Boin. Programa este que contém muitas informações e adaptações para animais zebuínos, sendo também fruto da pesquisa e experiência de campo.

    As instiuições e as universidades tem feito seu papel, e muito bem por sinal, adequando, desenvolvendo e aprimorando cada vez mais a “tabela nutricional tropical”.

  2. claudio kiryla disse:

    Muito bom o artigo do Paulo, deve ser levado adiante a sugestäo da TNT.Parabéns.

  3. Rafael Camargo do Amaral disse:

    De fato, o autor expressou em seu artigo a plena realidade que ocorre em nosso país. Pois vivemos em um ambiente totalmente fora dos padrões de um clima temperado, e com toda certeza devemos nós do “mundo tropical” nos enquadrarmos na realidade que possuimos.

    Temos espaço territorial, temos clima favorável, temos muita capacidade, o que nos falta é melhorarmos nossa eficiência de produção e como o autor citou: “…devemos nos organizar…”

  4. Eduardo Penteado Cardoso disse:

    Concordo com Paulo Roberto, pois não podemos nos esquecer que o principal tipo de gado utilizado nos trópicos – o zebú – até pouco tempo atrás pertencia a outra espécie e hoje é considerada uma sub-espécie. Por que devemos considerar que suas necessidades alimentares são semelhantes às dos taurinos, se sua evolução como ser vivo se deu num ambiente completamente diferente?

    Eduardo Penteado Cardoso
    Selecionador de Nelore.
    Uberaba/MG

  5. Paulo Roberto Silva disse:

    Gostaria de acrescentar, principalmente após as considerações do Dr. Marcelo Manella, que os principais pesquisadores do assunto, como os citados: Prof. Dante, Prof. Dr. Raul Franzolin da USP e o pesquisador Dr.José Luis Bellini do CNPGL- EMBRAPA, concordam com meu ponto de vista, envolvendo a maioria dos pesquisadores da área, que pretendem reunir e discutir este assunto em breve, a ser coordenado pela EMBRAPA.

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