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9 de junho de 2026

Bicheira-do-Novo-Mundo volta aos EUA e coloca indústria da carne em estado de alerta

Depois de mais de 60 anos sem registros em território americano, a confirmação da presença da bicheira-do-Novo-Mundo (New World Screwworm – NWS) no sul do Texas marcou um dos acontecimentos sanitários mais relevantes para a pecuária de corte dos Estados Unidos nas últimas décadas. O primeiro caso foi identificado em uma lesão umbilical de um bezerro de três semanas próximo a La Pryor, Texas. Dias depois, um segundo caso foi confirmado em outro bezerro no condado de Zavala, reforçando que o desafio não se trata de um episódio isolado.

Embora autoridades federais, lideranças do setor pecuário e analistas de mercado enfatizem que não existe risco para a segurança da carne bovina, a chegada da praga representa uma ameaça significativa para a produção pecuária, podendo aumentar custos, dificultar o manejo e atrasar ainda mais a reconstrução do rebanho americano.

O retorno de uma ameaça erradicada há décadas

A indústria da carne dos Estados Unidos não enfrentava a bicheira-do-Novo-Mundo desde os anos 1960, quando um amplo programa de erradicação baseado na liberação de insetos estéreis conseguiu eliminar a praga do país. Desde então, o avanço gradual da mosca através da América Central e do México vinha sendo monitorado pelas autoridades sanitárias.

A confirmação do primeiro caso em território americano era considerada uma possibilidade cada vez mais provável pelo setor. Mesmo assim, o anúncio representou um marco importante para a pecuária nacional, justamente por encerrar mais de seis décadas sem registros da praga.

O que torna a bicheira tão perigosa para os bovinos?

Ao contrário de outras moscas associadas à matéria orgânica em decomposição, a fêmea da bicheira-do-Novo-Mundo deposita seus ovos em feridas de animais vivos. Cada postura pode conter entre 200 e 300 ovos. Em apenas 12 a 24 horas, as larvas emergem e começam a penetrar profundamente nos tecidos vivos, alimentando-se da carne do hospedeiro.

O processo é extremamente agressivo. As larvas utilizam estruturas semelhantes a ganchos para avançar pelos tecidos, ampliando rapidamente a lesão. Como consequência, surgem inflamações severas, infecções secundárias, dor intensa e necrose dos tecidos.

Sem tratamento, a infestação pode levar à morte dos animais em aproximadamente duas semanas.

Não é uma doença nem um problema para o consumidor

Uma das principais mensagens repetidas pelas lideranças da cadeia da carne é que a bicheira-do-Novo-Mundo não representa risco para quem consome carne bovina.

O presidente da Texas & Southwestern Cattle Raisers Association, Stephen Diebel, afirmou que o problema deve ser encarado como um desafio de controle de pragas, não como uma questão de segurança alimentar. Da mesma forma, o USDA destacou que a infestação não é contagiosa e não se transmite por meio da carne. A ocorrência depende exclusivamente da deposição de ovos pela mosca em feridas abertas.

As autoridades também reforçam que animais afetados seriam identificados durante os processos normais de inspeção sanitária.

O impacto econômico preocupa mais do que o impacto sanitário

Se o consumidor não corre riscos, o mesmo não pode ser dito sobre os produtores.

Analistas do mercado pecuário acreditam que a presença da bicheira pode aumentar custos de produção, demanda por mão de obra, gastos veterinários e necessidade de monitoramento constante dos animais.

Segundo Abby Greiman, consultora da Ever.Ag, a infestação tem potencial para atrasar ainda mais a recomposição do rebanho bovino americano.

A avaliação é que produtores de cria podem adiar investimentos em retenção de fêmeas diante das novas incertezas sanitárias. Além disso, qualquer aumento na mortalidade, nos problemas de saúde animal ou nas perdas de carcaça tende a pressionar ainda mais uma oferta de bovinos que já se encontra historicamente apertada nos Estados Unidos.

Por que o mercado reagiu de forma inesperada?

Curiosamente, a confirmação do primeiro caso não provocou uma queda prolongada nos mercados futuros de gado.

Antes da confirmação oficial, os contratos futuros haviam sofrido pressão devido aos rumores e à expectativa crescente de que a praga cruzaria a fronteira. Quando a confirmação finalmente aconteceu, o mercado reagiu com alta.

Segundo os analistas, boa parte das notícias negativas já estava incorporada aos preços. Além disso, a confirmação eliminou uma importante fonte de incerteza.

Na visão dos participantes do mercado, deixar de especular sobre “se” a praga chegaria aos EUA permitiu que o foco passasse para “como” ela será controlada.

O segundo caso aumenta a pressão sobre as autoridades

A situação ganhou novos contornos quando o USDA confirmou um segundo caso em um bezerro de um mês de idade no condado de Zavala, localizado a cerca de 9 quilômetros do primeiro foco.

Embora o novo caso tenha ocorrido dentro da zona já submetida a controles sanitários, a confirmação reforçou a necessidade de ampliar as ações de vigilância e erradicação.

As autoridades informaram que equipes de resposta já estão posicionadas na região, realizando monitoramento, coleta de amostras e ações de campo. Laboratórios móveis e estruturas de apoio também foram deslocados para acelerar diagnósticos e tratamentos.

A maior ofensiva sanitária em décadas

Em resposta aos focos identificados, o USDA e o governo do Texas lançaram uma ampla operação de combate à praga.

A secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, classificou a situação como séria, mas afirmou que o país se preparava para esse momento havia mais de um ano.

Entre as medidas anunciadas estão:

  • Ampliação da produção e liberação de moscas estéreis;
  • Mobilização de equipes federais e estaduais;
  • Treinamento acelerado de pecuaristas para inspeção de animais;
  • Ativação do centro de operações de emergência do Texas;
  • Reforço das ações de vigilância e rastreamento.

Segundo as autoridades, 4 milhões de moscas estéreis foram liberadas imediatamente após a confirmação do primeiro caso, e o objetivo é atingir uma escala de 500 milhões de moscas estéreis por semana, volume semelhante ao utilizado durante as campanhas históricas de erradicação.

Um dos destaques da estratégia é a utilização da chamada “Novo Fly”, uma nova linhagem de moscas estéreis desenvolvida no laboratório de Kerrville. A tecnologia produz apenas machos estéreis, o que dobra a eficiência da produção sem necessidade de expansão da infraestrutura existente.

O papel dos pecuaristas será decisivo

Apesar da mobilização governamental, as autoridades insistem que o sucesso da campanha dependerá principalmente dos produtores.

A recomendação é clara: observar os animais diariamente, relatar imediatamente qualquer suspeita e não esconder casos por receio de restrições sanitárias.

As lideranças do setor enfatizam cinco mensagens principais:

  1. Não há motivo para pânico;
  2. A carne continua segura;
  3. Animais tratados podem continuar sendo movimentados;
  4. A praga é altamente tratável quando identificada cedo;
  5. A erradicação já foi alcançada no passado e pode ser alcançada novamente.

O desafio para a pecuária de corte americana

A chegada da bicheira-do-Novo-Mundo ocorre em um momento delicado para a indústria da carne dos Estados Unidos, que já enfrenta um dos menores rebanhos bovinos das últimas décadas.

Por isso, embora os especialistas não enxerguem risco imediato para o abastecimento ou para a segurança dos alimentos, existe uma preocupação real com os impactos econômicos e produtivos da praga sobre os sistemas de cria e recria.

A resposta rápida das autoridades e a experiência acumulada na erradicação anterior alimentam o otimismo do setor. Ainda assim, a confirmação de dois casos em poucos dias mostra que a batalha contra a bicheira-do-Novo-Mundo voltou a ser uma realidade para a pecuária de corte americana.

Fonte: Drovers.

Breaking: New World Screwworm Confirmed in South Texas

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A Second Screwworm Case Confirmed in Zavala County, Texas

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