

A dieta carnívora, antes vista como uma moda alimentar extrema, evoluiu para um mercado de bem-estar em rápida expansão, cada vez mais moldado pela demanda por produtos de carne regenerativos, de origem ética e ambientalmente conscientes.
Impulsionado principalmente pelas redes sociais, podcasts e comunidades online voltadas ao bem-estar, o movimento, também chamado por muitos seguidores de “dieta ancestral”, construiu uma presença digital significativa nos últimos anos.
Segundo a plataforma de monitoramento de tendências Glimpse, que frequentemente trabalha com dados derivados de buscas do Google, o interesse pela dieta cresceu 94% entre 2024 e 2025, atingindo uma estimativa de 1,8 milhão de pesquisas mensais até fevereiro de 2025. No Instagram, a hashtag #carnivore aparece em aproximadamente 2,6 milhões de publicações.
À medida que o interesse aumentou, o ecossistema comercial ao redor também cresceu. Empresas que vendem suplementos de órgãos, snacks de carne liofilizada e caixas de assinatura de carnes informam uma forte demanda, com consumidores cada vez mais atraídos por marcas que destacam sustentabilidade, bem-estar animal, agricultura regenerativa e transparência na cadeia de suprimentos.
“À medida que consumidores procuram cada vez mais produtos ligados à agricultura regenerativa, bem-estar animal e transparência da cadeia de suprimentos, empresas do setor estão reposicionando suas marcas tanto em torno da origem ética quanto da nutrição”, afirma Chris Ricci, diretor executivo da Ancestral Supplements, empresa que vende cápsulas de carne de órgãos liofilizada provenientes de animais alimentados com pasto e criados por métodos regenerativos, acompanha essa mudança de perto.
Ricci liderou anteriormente a Eat Well Nashville, empresa de entrega de refeições posteriormente adquirida pela Vibrant Meals, atuou como sócio e chefe de operações da Ancient Nutrition e foi cofundador da Nellamoon, empresa de bens de consumo sustentáveis.
“Muitas empresas, incluindo a nossa, trabalham em estreita colaboração com fazendas regenerativas e promovem sistemas de criação de animais ao ar livre, práticas de alimentação natural e redução do uso de produtos químicos em toda a cadeia de suprimentos”, diz ele.
Essa mudança de mentalidade está reformulando o setor mais amplo da carne. Em meados de 2025, executivos da Sustainable Beef anunciaram uma parceria com a empresa de inteligência artificial Lumachain, sediada em Sydney, para implementar um sistema em tempo real de monitoramento do bem-estar animal por visão computacional em sua nova unidade de processamento em Nebraska, substituindo auditorias manuais aleatórias por monitoramento orientado por inteligência artificial desenvolvido para verificar eventos críticos ligados ao bem-estar animal.
À medida que a dieta carnívora evolui para uma indústria global lucrativa, muitas das marcas de crescimento mais acelerado e mais rentáveis estão construindo suas propostas de venda cada vez mais em torno da origem ética e de práticas agrícolas ambientalmente responsáveis.
Somente o mercado global de carne regenerativa deverá ultrapassar US$ 5,2 bilhões (R$ 29,3 bilhões na cotação atual) até 2034, segundo a Polaris Market Research, refletindo o crescente interesse de investidores e consumidores por carne produzida por sistemas mais sustentáveis.
Na pecuária bovina, práticas regenerativas frequentemente incluem pastejo rotativo, restauração da saúde das pastagens, melhoria da qualidade do solo e manejo do rebanho de formas planejadas para apoiar a biodiversidade e reduzir a degradação ambiental.
“Ao observar o setor, vejo que as empresas que registram o crescimento mais forte são aquelas que investem mais em origem ética, agricultura regenerativa e transparência da cadeia de suprimentos”, diz Ricci.
Empresas como a The Ethical Butcher, um negócio de comércio eletrônico que vende carne de origem ética proveniente de fazendas britânicas, atraíram investimentos significativos e construíram bases sólidas de clientes recorrentes ao aproveitar a crescente demanda por carne rastreável e de origem ética.
Farshad Kazemian, fundador e diretor executivo da The Ethical Butcher, afirma que o aumento da conscientização pública sobre os sistemas alimentares está ajudando a impulsionar essa demanda.
“Existe, sem dúvida, um apetite crescente por carne de origem ética”, disse Kazemian em uma entrevista recente. “Essa mudança é impulsionada por uma compreensão mais profunda sobre a origem dos alimentos, especialmente à medida que consumidores percebem a importância da saúde do solo e do bem-estar animal.”
Kazemian afirma que fundou a empresa para demonstrar que a produção regenerativa de carne pode apoiar a agricultura britânica, melhorar a transparência e ajudar na restauração de ecossistemas.
“Construímos uma marca e um negócio que colocam natureza, nutrição e transparência no centro”, diz Kazemian.
O crescente fascínio dos consumidores pela agricultura regenerativa e pelas tradições alimentares ancestrais está indo além dos cortes premium de carne e remodelando toda uma economia do bem-estar, na qual carnes de órgãos que antes eram descartadas ou ignoradas agora estão sendo reapresentadas como alguns dos produtos de saúde mais desejados do setor.
Parte do crescimento comercial mais forte nesse segmento está ocorrendo em suplementos à base de órgãos, incluindo produtos liofilizados de fígado bovino, coração, rins e medula óssea provenientes de fazendas regenerativas, com foco no bem-estar animal e comercializados como fontes concentradas de vitaminas e minerais.
“O que antes era um nicho para produtos animais ricos em nutrientes expandiu-se rapidamente para uma indústria global de bem-estar em crescimento acelerado, com grande espaço para expansão”, afirma Ricci.
A expansão dos suplementos de órgãos ocorreu paralelamente a um ressurgimento mais amplo da demanda por vísceras e carnes de órgãos, juntamente com a crescente popularidade do sebo bovino como alternativa aos óleos de sementes e com o surgimento do movimento “Make America Healthy Again”, liderado por Robert F. Kennedy Jr.
A Ancestral Supplements tornou-se uma das marcas dominantes dessa categoria. Sob a liderança de Ricci, a empresa expandiu, segundo relatos, de aproximadamente US$ 40 milhões (R$ 225,4 milhões na cotação atual) para mais de US$ 90 milhões (R$ 507,2 milhões na cotação atual) nos últimos três anos.
A Carnivore Snax foi lançada em 2020 após uma campanha bem-sucedida no Kickstarter conduzida pelos fundadores Mark Ritz e Sylwia Tabor.
Até abril de 2023, apenas três anos após o lançamento, a empresa estaria gerando aproximadamente US$ 850 mil por mês (R$ 4,8 milhões) em receitas mensais.
“Esses são snacks de carne produzidos com carne de melhor qualidade”, afirma a empresa.
Consumidores parecem dispostos a absorver preços excepcionalmente altos quando percebem qualidade e origem ética. Produtos da Carnivore Snax podem ser vendidos por cerca de US$ 30 por uma embalagem de cinco onças (141,7 gramas) (R$ 169,00 na cotação atual).
A disposição dos consumidores em pagar preços mais altos por carne de origem ética reflete uma mudança mais ampla na forma como esse produto é comercializado e percebido.
Para muitos seguidores da dieta carnívora, a carne deixou de ser vista apenas como uma commodity e passou a ser tratada como um produto funcional de bem-estar ligado à nutrição, à origem e à identidade de estilo de vida.
À medida que o mercado cresce, empresas estão diversificando rapidamente para um amplo ecossistema de produtos compatíveis com a dieta carnívora, comercializados como bens premium de estilo de vida.
Serviços de assinatura de carne também se transformaram em uma importante categoria de crescimento, beneficiando-se do aumento do ceticismo dos consumidores em relação às cadeias de abastecimento tradicionais dos supermercados e da demanda crescente por produtos cárneos rastreáveis e de maior qualidade.
O crescimento acelerado da economia ligada à dieta carnívora ocorre mesmo com a pecuária permanecendo como uma importante fonte de emissões de gases de efeito estufa na agricultura.
Ricci afirma que práticas como pastejo rotativo, restauração de pastagens, sistemas produtivos menos intensivos e melhoria da saúde geral dos animais podem ajudar a reduzir determinadas pressões ambientais, ao mesmo tempo em que apoiam a qualidade do solo, a biodiversidade e o bem-estar animal.
“Observamos consumidores muito mais conscientes não apenas sobre o que comem, mas também sobre como aquele animal foi criado e sobre o impacto que esse sistema causa no meio ambiente”, afirma Ricci.
“Existe uma compreensão crescente de que a agricultura regenerativa e animais mais saudáveis podem fazer parte de um sistema alimentar mais sustentável ao mesmo tempo em que produzem nutrição de maior qualidade.”
Fonte: Forbes.