

Foto: Diogo Bianchi/Divulgação
Em fazendas do Pantanal, do Cerrado e do interior paulista, um novo tipo de bovino começa a chamar atenção de produtores que buscam carne premium sem abrir mão da rusticidade. O Senangus, cruzamento entre as raças Senepol e Angus, promete reunir a maciez e o marmoreio do Angus britânico com a tolerância ao calor e a resistência a parasitas do Senepol caribenho. A aposta ganha força no país que possui o maior rebanho comercial bovino do mundo.
A raça composta Senangus tem origem nos Estados Unidos, onde foi desenvolvida inicialmente pela Sacramento Farms Senepol. Resultado do cruzamento entre Senepol e Red Angus, foi criado para reunir “o melhor dos dois mundos”: a adaptação ao clima quente, oferecida pelo Senepol, originário das Ilhas Virgens, no Caribe e de pelagem curtíssima, que favorece a termorregulação em climas quentes; e a excelente conversão alimentar e qualidade premium do Angus.
“Sem cruzamento, o Angus puro não conseguiria se adaptar aos trópicos, em razão das limitações climáticas. O cruzamento com Senepol tem se mostrado muito promissor para produção de carne premium em localidades antes inimagináveis, como o Nordeste, por exemplo”, diz o criador Diogo Bianchi, de Luiziana (PR).
Criador de Senepol, Bianchi começou a estudar a viabilidade da criação de Senangus em 2018 e colocou a ideia em prática em 2019. O projeto ganhou corpo após o abate dos primeiros animais, que comprovaram a qualidade da carne produzida.
Para o produtor, o Senangus oferece um conjunto de atributos que dificilmente se encontra em uma única raça. “O animal herda a maciez característica do Senepol e o marmoreio do Angus, as duas propriedades mais valorizadas pelo mercado consumidor e pelos frigoríficos exportadores”, afirma.
No campo do desempenho produtivo, os números impressionam. Em testes realizados no Brasil, animais cruzados com Senepol ganharam em média 1,55 quilo de peso por dia, 55% acima da meta inicial de 1 quilo segundo a Associação Brasileira de Criadores de Senepol (ABCD Senepol).
“A docilidade excepcional das duas raças soma-se ao perfil do Senangus. Animais mais tranquilos reduzem o estresse no manejo, melhoram a conversão alimentar e minimizam perdas durante o transporte, fatores que se traduzem diretamente em rentabilidade para o produtor”, defende Bianchi.
Em entrevista recente à Globo Rural, o cantor e compositor Almir Sater, já conhecido pela criação de Senepol, revelou estar investindo na criação de Senangus.
“Eu gosto dessas misturas. Pesquisei bastante sobre o cruzamento de Senepol e Bonsmara e também Senepol e Angus. Agora mesmo vou transferir 320 embriões de Senangus, um animal que trabalha a campo. A gente faz IATF (inseminação artificial em tempo fixo) no Pantanal, mas eu prefiro touro a campo. A IATF é boa porque você corre com a genética, vai mais longe. Eu gosto dessas misturas. E sempre gostei dos taurinos, mas a nossa base é de vacas nelore”, afirmou à reportagem.
No contexto da pecuária brasileira, onde o Nelore domina o rebanho, o produtor Diogo Bianchi explica que o Senangus tem uma função estratégica precisa: ser usado como touro para cruzamento industrial, aproveitando ao máximo o fenômeno da heterose, o vigor híbrido resultante do cruzamento entre raças geneticamente distantes.
Segundo o criador, como o Senangus é 100% Bos taurus, seu cruzamento com a Nelore (Bos indicus) gera heterose máxima, com filhos que superam em desempenho a média das raças parentais. O resultado são animais que combinam a resistência e adaptação tropical do Nelore com a qualidade de carne e precocidade do Senangus — um trunfo para o produtor que busca rentabilidade sem depender de confinamento intensivo.
Leonardo Lima Keller Gonçalves, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Senepol (ABCD Senepol) conta que, desde 2018, quando o Ministério da Agricultura, Precuária e Abastecimento (Mapa) delegou à ABCD Senepol o registro da raça Senangus, o cenário da pecuária nacional passou a acompanhar com mais atenção e o desenvolvimento da raça.
A ABCD Senepol obteve homologação junto ao Mapa para a raça Senangus em 2020. Inicialmente, estão registrados animais 50% Senepol/50% Angus (SA1, apenas fêmeas) e animais 75% Senepol/25% Angus (SA2, ambos os sexos).
Segundo Diogo Bianchi, há interesse dos produtores no registro de SA1 para ambos os sexos. A discussão está atualmente em análise na ABCD Senepol.
Inicialmente, o interesse por essa produção foi tímido, mas nos últimos anos o cruzamento ganhou espaço entre criadores das diferentes regiões do país, afirma Keller. “No Sul, por exemplo, cresce a procura por animais de pelagem preta, como a do Senangus. Uma preferência que, embora careça de comprovação científica, está vinculada à imagem de qualidade de carne associada aos Aberdeen Angus. Pesa muito nessas decisões a tradição e a percepção do consumidor”, comenta.
“O Angus possui um reconhecimento histórico pela excelência de sua carne, facilitando aceitação de mercado. O Senepol por sua vez, apesar de também oferecer carne de alta qualidade, ainda luta por maior visibilidade e escala. Nesse cenário, o Senangus surge como alternativa estratégica”, avalia.