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Crescimento compensatório em bovinos de corte

Paulo Roberto Leme1

Em condições normais de produção de bovinos de corte no Brasil, geralmente o crescimento dos animais não é linear devido às variações sazonais na quantidade e na qualidade da forragem disponível. Essas variações tem conseqüências importantes no crescimento dos bovinos que dependem quase que exclusivamente da oferta de forragens para crescimento. Quando um animal passa por um período de crescimento limitado pela quantidade ou qualidade da forragem, e depois recebe uma dieta de alta qualidade à vontade, freqüentemente responde com aumento na taxa de crescimento e na eficiência alimentar, ou seja, após o período de restrição os animais apresentam um crescimento mais rápido que aqueles que não passaram pela restrição alimentar (ALLEN, 1990). Esse mecanismo homeostático, chamado crescimento compensatório, causa mudanças nos padrões de crescimento dos bovinos e permite que o animal alcance um tamanho similar ao do animal cujo crescimento foi contínuo. Esse fenômeno já é conhecido há muitos anos e procurar-se-á nessa apresentação esclarecer os principais aspectos que interferem na resposta do bovino pós-restrição, baseado principalmente em revisão de RYAN, 1990.

Crescimento compensatório

Segundo RYAN, 1990, basicamente existem três formas de reposta do bovino após um período de restrição alimentar: compensação completa, parcial ou sem compensação. Isso pode ser verificado pela inclinação do segmento da curva de crescimento do animal após a restrição de animais que passaram e que não passaram por um período de restrição alimentar. Na compensação completa esse ângulo é maior o suficiente para que o peso e idade de abate dos animais com ou sem restrição não seja modificado. Na restrição parcial, o ângulo é maior mas não o suficiente para que o mesmo peso e idade de abate sejam atingidos. Quando o ângulo é igual ou menor ao dos animais que não sofreram restrição e o peso de abate só será atingido em idade mais avançada não há compensação. Exemplo de compensação parcial pode ser observado no Quadro 1, sobre trabalho de MANELLA, LOURENÇO, LEME, 2000, com novilhos nelore em pastagem de B. brizantha, e suplementados o ano todo, somente na seca, com acesso a banco de proteína (leucaena) ou não suplementados, tratamentos denominados, respectivamente, ano, seca, banco e testemunha.

Quadro 1

Os animais dos tratamentos Banco e Testemunha, com ganhos mais baixos durante a seca exibiram alguma compensação no período das águas, mas os animais do tratamento Seca, com ganhos relativamente maiores no período da seca, não tiveram a mesma resposta.

Fatores que afetam o crescimento compensatório

Os fatores mais importantes que afetam o crescimento compensatório do bovino são a idade em que ocorre a restrição, a severidade e a duração da da mesma.
Bovinos que sofrem restrição alimentar logo após o nascimento tendem a não apresentar crescimento compensatório, podendo ou não atingir o mesmo peso à maturidade que animais que não sofreram restrição alimentar. Entretanto, segundo LAWRENCE e FOWLER, 1997, a evidência para essa conclusão de que quanto mais novo ou quanto mais distante do seu peso adulto no início da restrição, menor a capacidade do animal de exibir crescimento compensatório, não é conclusiva. Na fase pós-desmama, estudo de WADSWORTH, 1988, mostra que animais de 10 meses apresentaram compensação completa, ao passo que animais de cerca de 20 meses de idade apresentaram compensação parcial. Nesse trabalho os animais foram submetidos a dois tipos de suplementação durante a seca (suplemento a base de melaço fornecido no pasto ou uma dieta a base de cana-de-açúcar fornecida em confinamento) ou não suplementados, e a resposta à suplementação foi melhor nos animais mais velhos. Entretanto, no período de chuvas o crescimento compensatório dos mais novos foi maior. Resultados semelhantes foram observados por Nardon et al., citado por BOIN e TEDESCHI, 1996, em que animais foram suplementados durante duas secas e mostraram compensação completa apenas na primeira .

Segundo RYAN, 1990, a severidade da restrição parece estar relacionada com o tempo de permanência em crescimento compensatório do que com a taxa de ganho compensatório. Já a extensão da restrição, segundo o mesmo autor, parece estar relacionada com a taxa de ganho, pois a medida que aumenta a duração da restrição aumenta a taxa de ganho após o final da mesma. Segundo KLOPFENSTEIN et al., 1999, o crescimento compensatório é variável, difícil de estimar, pode ser explicado pelo consumo de energia líquida de ganho acima da mantença e pode ser reduzido por longos períodos de restrição. Esses autores chegaram a estas conclusões após um estudo de dois anos. Em um dos ensaios novilhos tiveram 3 níveis de ganho no inverno e em seguida seu desempenho em pastagem de verão foi medido. Os resultados se encontram no Quadro 2.

Quadro 2

Em relação aos animais que apresentaram maior ganho no inverno, os animais que tiveram menor ganho recuperaram 88% do peso que deixaram de obter durante o inverno. Também foi estudado o efeito do grupo genético (Britânico ou Continental) não sendo observadas diferenças na compensação, que foi ao redor de 53%.

Além desses fatores, o tipo de restrição também afeta a resposta do animal, sendo que maior resposta em crescimento compensatório foi observada em animais que passaram por restrição energética em relação à protéica.

Alterações no animal durante o crescimento compensatório

O crescimento compensatório tem curta duração, mas verifica-se diversas mudanças no animal durante sua ocorrência. A ingestão de alimentos nas três ou quatro semanas após a restrição alimentar é variável, sendo modificada pelo tamanho do trato gastrintestinal (TGI), pela capacidade de absorção do seu epitélio e pela capacidade do fígado de metabolizar os nutrientes. Segundo o NRC, 1996, o maior componente do crescimento compensatório após um período de restrição é o aumento no consumo de alimentos. O tempo para os órgãos internos atingirem pesos e tamanhos normais após a cessação da restrição pode ser de 70 a 90 dias, segundo RYAN, 1990. Esses órgãos (fígado, rins, coração e TGI) tem seu crescimento durante a restrição mais afetado que o do animal como um todo, mas no período pós-restrição ocorre o contrário. A exigência de energia metabolizável para mantença é reduzida para animais em compensação em até 20%, segundo o NRC, 1996, resultando em maior disponibilidade de energia para produção, em uma mesma ingestão de alimentos. Essa exigência menor está ligada ao menor tamanho dos órgãos internos devido à restrição alimentar. A energia líquida para crescimento também é reduzida em até 18% (CARSTENS et al., 1991), indicando uma melhor eficiência de utilização de energia dos animais compensando. Os mesmos pesquisadores, CARSTENS et al., 1991, mostraram que o ganho compensatório pode ser atribuído em grande parte ao aumento do enchimento do TGI e do peso do tecido do TGI e outros órgãos internos.

Mudanças endócrinas no hormônio de crescimento (GH), no IGF-I (insulin-like growth factor), na insulina e tiroxinas T3 e T4, também ocorrem, bem como mudanças na composição corporal e do ganho de peso. Aumento na deposição de proteína foi verificado por alguns pesquisadores no início da compensação devido ao aumento no TGI e no fígado. A composição corporal a um mesmo peso, de animais que exibiram crescimento compensatório pode diferir ou não da composição de animais geneticamente idênticos que não sofreram restrição alimentar, dependendo do nível nutricional após a restrição e do efeito da restrição no tamanho do animal à maturidade.

Resumo e conclusões

Após um período de restrição alimentar bastante comum devido á estacionalidade da produção de forragens, o bovino pode apresentar um crescimento mais rápido e eficiente denominado crescimento compensatório. Essa reposta à re-alimentação é variável em magnitude e é afetada por vários fatores como a idade do animal durante a restrição e a severidade e duração da mesma. Redução no requerimento de mantença, aumento na eficiência de crescimento, redução da energia do tecido depositado e aumento do consumo de alimentos, são mecanismos que contribuem para o ganho compensatório. A participação de cada um destes mecanismos, ou a interação entre eles, durante o crescimento compensatório depende da severidade e duração da restrição alimentar e da qualidade do alimento na fase após a restrição. A variação na resposta dificulta o manejo nutricional dos bovinos de corte, mas pode melhorar de maneira considerável o desempenho quando tem livre acesso a uma dieta de alta qualidade após um período de restrição alimentar.

Bibliografia citada

ALLEN, D. Planned beef production and marketing. Londres: St. Edmundsbury Press, 1990. 232 p.
BOIN, C., TEDESCHI, L.O. Sistemas intensivos de produção de carne bovina. II. Crescimento e acabamento. In: PEIXOTO, A.M., MOURA, J.C., FARIA, V.P. ed. Produção do novilho de corte. Piracicaba: FEALQ, 1997. p.205-227.
CARSTENS, G.E., JOHNSON, D.E., ELLENBERGER, M.A., TATUM, J.D. Physical and chemical components of the empty body during compensatory growth in beef steers. J. Anim. Sci., 69:3251-3264, 1991.
KLOPFENSTEIN, T., JORDON, D.J., RUSH, I., MILTON, T. Predicting amount of compensatory gain. University of Nebraska Cooperative Extension MP 71, 1999. 7p.
LAWRENCE, T.L.J., FOWLER, V.R. Growth of farm animals. Londres: CAB International, 1997. p.219-245.
MANELLA, M.Q., LOURENÇO, A.J., LEME, P.R. Bovinos nelore em pastos de Brachiaria brizantha com suplementação protéica ou com acesso a banco de proteína de Leucaena leucocephala. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 37, Viçosa, 2000. Anais… Viçosa:SBZ, 2000. CD poster 693.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL, Nutrient requirements of beef cattle, 7. ed. Washington: National Academy Press, 1996. 242 p.
RYAN, W.J. Compensatory growth in cattle and sheep. Nutr. Abstr. Reviews, Series B, 60:653-664, 1990.
WADSWORTH, J.A. A note on the effect of dry season feeding treatment on the subsequent growth at apasture during wet season of Brahman steers. Animal production, 47:501-504, 1988.

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1 Prof. Dr. FZEA/USP

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