
O mercado de carne bovina dos Estados Unidos entra no último trimestre de 2026 enfrentando uma combinação de desafios: seca persistente, dificuldades para recompor o rebanho, mudanças na capacidade de abate dos frigoríficos e novas medidas para ampliar as importações.
Apesar dos anúncios de maior entrada de carne estrangeira, o impacto sobre a oferta e os preços ao consumidor pode ser bem menor do que o esperado.
Essa é a avaliação de Dave Weaber, analista sênior de proteína animal da Terrain, apresentada em relatório sobre as perspectivas do mercado bovino americano para o quarto trimestre, divulgado pela publicação Drovers em 8 de outubro.
Uma das principais mudanças recentes no mercado americano foi a decisão do governo de suspender, por 90 dias, as tarifas aplicadas a determinadas importações de carne bovina acima das cotas estabelecidas.
A medida, anunciada em agosto, permite a entrada de até 300 mil toneladas de carne bovina destinada principalmente à produção de carne moída, com limite de 100 mil toneladas por mês.
Entretanto, Weaber avalia que esse volume dificilmente será totalmente utilizado.
A expectativa de participantes do setor é de que aproximadamente 150 mil toneladas sejam importadas por meio da medida. Desse total, cerca de 100 mil toneladas já tinham como destino o mercado americano, independentemente da mudança tarifária.
Ou seja, uma parte significativa das importações previstas não representa necessariamente um aumento adicional na oferta de carne.
Segundo o analista, a disponibilidade limitada de produto no mercado internacional e as dificuldades logísticas devem restringir o volume efetivamente importado.
Na prática, a estimativa é de que a medida aumente a disponibilidade de carne moída nos Estados Unidos em apenas 2% a 3%.
Para ilustrar a dimensão desse aumento, Weaber calcula que o volume adicional corresponderia a aproximadamente 45 a 68 gramas de carne por pessoa ao mês, o equivalente a cerca de um hambúrguer do McDonald’s.
Mesmo que todo o volume autorizado fosse importado, o acréscimo equivaleria a aproximadamente dois hambúrgueres de 113 gramas por pessoa ao mês.
Apesar do impacto limitado sobre a disponibilidade de carne, o analista observa que a oferta adicional ainda pode exercer pressão sobre os preços.
Suas estimativas apontam para uma redução de US$ 0,33 a US$ 0,44 por kg no valor da carne bovina em caixa (boxed beef cutout) e de US$ 0,20 a US$ 0,26 por kg no preço do boi terminado, em comparação com o mesmo período do ano anterior, considerando o final do terceiro trimestre e o início do quarto.
Enquanto o governo busca ampliar as importações, os pecuaristas americanos enfrentam dificuldades para aumentar a produção doméstica.
Segundo Weaber, 2026 foi um ano excepcionalmente seco em grande parte das regiões central e oeste dos Estados Unidos.
No final do verão americano, mais de 80% do rebanho bovino do país estava localizado em áreas classificadas com condições anormalmente secas ou mais severas.
A escassez de chuvas também pressionou os custos de alimentação.
Nas regiões central e norte das Grandes Planícies, os preços do feno aumentaram entre US$ 150 e US$ 200 por tonelada em aproximadamente 60 dias.
Esse encarecimento dificulta a decisão dos produtores de reter matrizes e investir na recomposição do rebanho.
Para Weaber, as intervenções governamentais no mercado, especialmente as relacionadas às importações, acrescentam outro elemento de incerteza ao planejamento dos pecuaristas.
Com custos elevados e dúvidas sobre o comportamento futuro dos preços, os produtores encontram menos incentivos para ampliar seus plantéis.
Outro fator que deve influenciar o mercado americano nos próximos meses é a reorganização da capacidade de abate.
Em agosto, a Tyson fechou sua unidade em Joslin, Illinois, mas retomou um segundo turno de produção em Amarillo, Texas. A empresa também buscou um comprador para sua instalação em Pasco, Washington.
Enquanto isso, a Cargill retomou as operações de sua unidade em Fort Morgan, Colorado, em setembro, após a ratificação de um acordo trabalhista.
Segundo os cálculos da Terrain, a capacidade de abate de bovinos terminados aumentou em relação aos níveis mais baixos registrados durante o verão.
Apesar da recuperação, permanece aproximadamente 7.800 cabeças por dia abaixo da capacidade observada no ano anterior.
Weaber avalia que a reativação de capacidade industrial, diante da disponibilidade limitada de bovinos terminados, tende a aumentar a competição entre frigoríficos pelos animais.
Isso pode fortalecer o poder de negociação dos confinadores em relação à indústria no início do quarto trimestre.
Mesmo com a oferta restrita de animais, o cenário de preços permanece desafiador.
De acordo com Weaber, os valores da carne bovina da categoria Choice se estabilizaram entre US$ 827 e US$ 838 por 100 kg.
Alguns cortes, como ribeye e contrafilé, vêm sendo negociados em níveis recordes desde o início de agosto, enquanto os preços do filé-mignon permanecem próximos aos registrados um ano antes.
Para o quarto trimestre de 2026, o analista projeta que o preço médio dos novilhos terminados nas cinco principais regiões de comercialização dos Estados Unidos fique entre US$ 507 e US$ 518 por 100 kg de peso vivo.
Nesse cenário, os confinadores que não realizaram proteção de preços podem registrar pequenos prejuízos ou resultados próximos do equilíbrio financeiro.
A situação representa uma melhora em relação ao terceiro trimestre, quando as perdas estimadas para operações sem proteção de preços ficaram entre US$ 200 e US$ 250 por cabeça.
Já os preços do gado de reposição devem apresentar relativa estabilidade, com média projetada entre US$ 772 e US$ 816 por 100 kg no último trimestre.
Para bezerros machos de aproximadamente 204 kg comercializados em Oklahoma City, a previsão é de preços médios entre US$ 1.025 e US$ 1.058 por 100 kg, considerando o terceiro e o quarto trimestres.
Weaber ressalta que suas projeções atuais estão significativamente abaixo das expectativas anteriores e próximas dos valores observados no ano passado.
As perspectivas para o mercado americano merecem atenção dos pecuaristas e frigoríficos brasileiros, especialmente pela importância dos Estados Unidos no comércio internacional de carne bovina.
A combinação de rebanho reduzido, dificuldades para recuperar a produção doméstica e custos elevados de alimentação ajuda a explicar o interesse americano em ampliar as importações.
Entretanto, a análise da Terrain mostra que autorizar volumes maiores de importação não significa necessariamente que toda essa carne chegará ao mercado.
A disponibilidade de produto nos países exportadores, as condições comerciais e os desafios logísticos também determinam o volume efetivo dos embarques.
Para o Brasil, esse cenário reforça a importância de acompanhar não apenas as medidas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos, mas também seus efeitos reais sobre os fluxos internacionais de carne bovina.
A reportagem original não detalha quanto das importações adicionais poderia vir do Brasil, portanto ainda não é possível quantificar as oportunidades específicas para os exportadores brasileiros a partir dessas projeções.
Por enquanto, o mercado americano caminha para encerrar 2026 com um cenário de oferta doméstica restrita, margens pressionadas para os confinadores e elevada sensibilidade às notícias sobre comércio internacional e capacidade de processamento.
Fonte: Drovers.