

A reunião entre Lula e Ursula von der Leyen, marcada para esta terça-feira (16), vai muito além de uma disputa sanitária sobre carne. O encontro expõe uma tensão antiga entre duas forças que convivem de forma desconfortável nas relações entre Brasil e União Europeia: de um lado, o interesse europeu em impor padrões cada vez mais rigorosos de produção; de outro, a competitividade do agronegócio brasileiro, que se tornou um dos maiores exportadores de alimentos do mundo.
Oficialmente, sim. A Comissão Europeia sustenta que as restrições decorrem de exigências sanitárias e de rastreabilidade. Bruxelas afirma que o Brasil teve tempo para se adequar às novas regras e que as medidas buscam proteger os consumidores europeus.
Mas é difícil ignorar o contexto político. A agricultura europeia é um dos setores mais protegidos do continente. Nos últimos anos, produtores rurais de vários países da UE protestaram contra a concorrência internacional, especialmente contra produtos vindos do Mercosul. Muitos agricultores argumentam que são obrigados a seguir regras ambientais e sanitárias mais rígidas, o que aumenta seus custos de produção.
Nesse cenário, qualquer barreira regulatória acaba sendo vista com desconfiança pelos exportadores brasileiros.
À primeira vista, a União Europeia não é o principal comprador de carne brasileira. A China ocupa esse posto com ampla vantagem. Então por que tanta preocupação?
Porque a Europa compra produtos de maior valor agregado. Não se trata apenas de quantidade, mas de rentabilidade. Além disso, o mercado europeu funciona como uma espécie de selo de qualidade. Quando um produto consegue atender às exigências da UE, isso costuma facilitar sua entrada em outros mercados exigentes.
O momento da disputa não poderia ser mais delicado. Após décadas de negociações, o acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente avançou. O tratado é visto como uma oportunidade para ampliar investimentos, reduzir tarifas e aproximar duas regiões que representam centenas de milhões de consumidores.
Por isso, nenhum dos lados parece interessado em transformar a questão da carne em uma crise diplomática. O Brasil quer evitar que o tema contamine o acordo. A Europa quer demonstrar que continua aberta ao comércio, desde que suas regras sejam respeitadas.
Provavelmente não uma reversão imediata do embargo. Esse seria um resultado politicamente difícil para Ursula von der Leyen, que precisaria justificar a mudança perante governos nacionais, órgãos reguladores e produtores rurais europeus. O objetivo mais realista é abrir uma mesa técnica de negociação; obter um cronograma de adequação; impedir que novas restrições sejam anunciadas e preservar o ambiente político do acordo Mercosul-UE.
O cenário mais provável é uma solução gradual. A Comissão Europeia dificilmente abandonará suas exigências. Ao mesmo tempo, a UE também não tem interesse em romper com um fornecedor estratégico de alimentos e com a maior economia da América do Sul. Por isso, a tendência é que as próximas semanas sejam marcadas por negociações técnicas, auditorias, ajustes regulatórios e tentativas de construção de confiança entre as partes.
Fonte: CNN Brasil.