Com aposta no ‘food service’, Friboi quer vender a carne e pensar o cardápio
29 de julho de 2026
Uruguai intensifica promoção da carne bovina na Europa e aposta em rastreabilidade para ampliar mercado
29 de julho de 2026

Nem o boi mexicano resolve: por que os EUA ainda precisam da carne do Brasil

A reabertura gradual da fronteira entre Estados Unidos e México para a importação de gado reacendeu o debate sobre os impactos da medida para os grandes exportadores de carne bovina.

Embora o retorno dos embarques mexicanos represente um alívio para a indústria americana, especialistas ouvidos pela EXAME avaliam que a decisão não reduz o espaço conquistado pelo Brasil no mercado americano.

A expectativa é de que o Brasil siga entre os principais fornecedores de carne bovina aos Estados Unidos nos próximos meses, em um momento em que o menor rebanho bovino em mais de sete décadas limita a produção doméstica americana.

“Não vejo os Estados Unidos reduzindo significativamente o volume de compra do Brasil. Até porque eles precisam muito da carne brasileira agora em função da posição de rebanho deles”, diz Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado.

De janeiro a junho deste ano, os EUA compraram 205 mil toneladas de carne bovina do Brasil, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2025.

No ano passado, mesmo com a tarifa do presidente Donald Trump sobre a carne bovina brasileira, os EUA foram o segundo principal destino das exportações do produto, com 272 mil toneladas embarcadas, alta de 18% sobre 2024, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

Segundo relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), a reabertura da fronteira melhora a disponibilidade de gado para os frigoríficos americanos, mas está longe de resolver o desequilíbrio estrutural entre a oferta de animais e a capacidade de abate nos EUA.

Para os analistas do banco, Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, a medida representa um catalisador positivo para a indústria, mas está longe de solucionar o principal problema enfrentado pelos frigoríficos dos EUA: a escassez estrutural de gado para abate.

“A forma como vemos, o mercado está precificando uma narrativa de fundo do poço, ou o primeiro catalisador positivo em uma história de baixa que já dura 18 meses. Isso é uma boa notícia, mas não é uma panaceia”, afirmam.

Mesmo em um cenário otimista, no qual o México exporte 1,4 milhão de cabeças de gado em 2027, o impacto seria insuficiente para normalizar as margens da indústria.

Para Iglesias, a decisão de reabrir a fronteira evidencia justamente a dificuldade do país em abastecer seu mercado interno apenas com produção doméstica.

“O que eles estão fazendo é basicamente mostrando para o mundo como eles estão precisando de gado para abate, de carne bovina neste momento. Eles não podem abrir mão de nenhuma fonte, de nenhum país que possa fornecer para eles em qualquer escala”, diz.

O mercado americano vive um dos momentos mais delicados de seu ciclo pecuário. Desde 2019, o rebanho de gado de corte dos Estados Unidos caiu 13%, para 27,9 milhões de cabeças. Já o rebanho bovino total atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A seca prolongada em importantes regiões produtoras elevou os custos com alimentação animal e reduziu a disponibilidade de pastagens, levando muitos pecuaristas a reduzir seus rebanhos.

Como consequência, a produção americana de carne bovina caiu 4% em 2025, para 11,8 milhões de toneladas, permitindo que o Brasil assumisse a liderança mundial na produção da proteína.

Segundo o BTG, a principal dificuldade dos frigoríficos americanos hoje não é a falta de capacidade industrial, mas a escassez de animais para ocupar essas plantas. Os analistas do banco dizem que a utilização da capacidade continua sendo o principal fator para a recuperação das margens do setor.

Para Iglesias, mesmo com a volta gradual das importações mexicanas, a necessidade americana de comprar carne bovina continuará elevada. O analista lembra que os EUA já ampliaram fornecedores, como a Argentina, em outras ocasiões, sem reduzir significativamente as compras do Brasil.

“Os Estados Unidos estão longe dessa autossuficiência. Têm muitas dificuldades operacionais na produção de carne e devem continuar demandando muito produto brasileiro nos próximos meses”, diz.

O USDA anunciou que a retomada das importações ocorrerá de forma escalonada após meses de suspensão provocada pela identificação de casos da mosca-varejeira (New World screwworm) no México.

Inicialmente, apenas o posto de Douglas, no Arizona, foi autorizado a receber animais mexicanos. Segundo o BTG, esse corredor representava cerca de 16% das entradas de gado mexicano antes do fechamento da fronteira.

A expectativa é que outros pontos sejam reabertos gradualmente, conforme as autoridades americanas avaliem as condições sanitárias.

Apesar desse avanço, o BTG avalia que o cenário para os frigoríficos americanos continuará desafiador no curto prazo.

O ciclo ruim da pecuária

Na análise do BTG, o ciclo ruim da pecuária nos Estados Unidos deve pesar sobre os resultados dos frigoríficos no segundo trimestre de 2026.

Segundo o banco, os mercados de carne bovina, frango e suínos passaram a enfrentar dificuldades ao mesmo tempo, tornando o período um ponto de inflexão para frigoríficos como JBS, MBRF, Tyson Foods, Pilgrim’s Pride e Minerva, com pressão sobre as margens em praticamente todas as principais operações.

Para a JBS, o BTG estima queda anual de 22,1% no EBITDA e de 60,5% no lucro líquido ajustado. A Pilgrim’s Pride deve registrar retração de 50,4% no EBITDA e de 66,5% no lucro. Já a Minerva deve manter crescimento modesto de receita, mas ainda com queda de 3,3% no EBITDA.

Por outro lado, a Tyson Foods deve reportar um segundo trimestre com resultados praticamente estáveis em relação ao mesmo período do ano passado.

O banco estima receita de US$ 13,9 bilhões, alta de 0,3%, EBITDA ajustado de US$ 812 milhões, queda de 2,3%, e lucro líquido ajustado de US$ 311 milhões, avanço de 1,7% na comparação anual.

O BTG aponta que o mercado americano de carne bovina continua sendo o principal foco de preocupação para o setor.

A análise ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos EUA, com aumento de custos e margens apertadas.

Fonte: Exame.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *