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No topo do mundo, carne brasileira provoca reação de produtores, governos e concorrentes

O boi brasileiro ganhou o mundo. Nas mesas de Xangai, nos açougues de Paris ou nas churrasqueiras americanas, nunca se consumiu tanta carne produzida nos pastos do país. Em 2025, o Brasil superou os Estados Unidos e se tornou, ao mesmo tempo, o maior produtor e o maior exportador do planeta, coroando uma expansão que multiplicou por duas vezes e meia os embarques na última década e levou as vendas externas ao recorde de 3,5 milhões de toneladas. Por trás dessa conquista está uma combinação difícil de enfrentar: escala, eficiência e preço — a carne brasileira custa cerca de 20% menos que a dos principais concorrentes. O sucesso, porém, começa a incomodar. Quanto mais espaço o Brasil ocupa no comércio internacional, maior é a reação de produtores, governos e concorrentes dispostos a conter seu avanço.

A União Europeia e a China, dois destinos importantes para a pecuária nacional, passaram a erguer novas barreiras justamente quando o protecionismo volta a ganhar força no mundo. Depois de provar que sabe produzir e vender mais que ninguém, o Brasil enfrenta agora uma disputa mais complexa: defender o território conquistado, reduzir a dependência de poucos clientes e encontrar novas fronteiras antes que os mercados tradicionais fechem as porteiras.

A mais recente disputa foi aberta pela União Europeia, que suspendeu a entrada de produtos brasileiros de origem animal nos 27 países do bloco. Sob a presidência de Ursula von der Leyen, a Comissão Europeia deixou o Brasil fora da lista de países considerados em conformidade com as novas exigências para o controle de antimicrobianos, substâncias usadas no combate a microrganismos na produção animal. Na prática, frigoríficos brasileiros ficaram impedidos de emitir os certificados sanitários necessários para embarcar carne bovina, suína e de frango ao Velho Continente.

Em volume, o bloqueio atinge uma parcela pequena das exportações de carne bovina, já que a União Europeia responde por só 4% dos embarques. Em valor, porém, o mercado é relevante. Os cortes enviados à região estão entre os mais refinados, vendidos por mais de 40 000 reais a tonelada. Por isso, em 2025 as exportações brasileiras de carne bovina para a Europa chegaram a quase 1 bilhão de dólares, um recorde. Como a restrição também alcança frangos e suínos, o impacto se espalha por diferentes segmentos do agronegócio nacional. Diante do risco de perdas maiores, os exportadores pressionam o governo brasileiro a apresentar as comprovações exigidas e negociam com as autoridades europeias a retomada das vendas. “O Brasil tem toda a capacidade de comprovar os controles exigidos por Bruxelas”, afirma Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes.

Do outro lado do mundo, o principal mercado estrangeiro também se restringe. A China, destino de metade de nossas exportações de carne, começou a impor cotas de importação que podem reduzir o espaço do produto brasileiro. O governo de Xi Jinping fixou o limite anual em 1,1 milhão de toneladas, 33% abaixo do volume vendido pelo Brasil aos chineses em 2025. O que exceder a cota será submetido a uma tarifa adicional de 55%. Os frigoríficos brasileiros já quase esgotaram sua parcela em agosto, quatro meses antes do fim do ano. No mesmo mês, as vendas para o país asiático despencaram 88% em relação a agosto de 2025, contribuindo para uma queda de 22% nas exportações totais de carne bovina. A mudança faz parte da estratégia de Pequim para reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros. A política, ressalve-­se, não é dirigida exclusivamente ao Brasil. Também há cotas para países como a Austrália e os Estados Unidos. “A China não quer depender tanto de nós, e nós também não deveríamos depender tanto deles”, diz José Carlos de Lima Júnior, sócio da consultoria Markestrat. “Precisamos diversificar.”

O terceiro front dessa disputa está nos Estados Unidos, mas ali o movimento ocorre na direção oposta. Enquanto europeus e chineses erguem barreiras, Donald Trump quer ampliar a entrada de carne estrangeira para aumentar a oferta e conter a disparada do preço do bife, que acumula alta de 10% em doze meses. O presidente atribui parte desse encarecimento à concentração do mercado e acusou quatro grandes companhias de dominar o setor, entre elas as brasileiras JBS e MBRF, formada pela fusão entre Marfrig e BRF. Para o Brasil, a pressão sobre os preços americanos abre uma oportunidade. As exportações de carne bovina para os Estados Unidos cresceram quase 30% nos primeiros oito meses do ano. Ao defender o aumento das importações, Trump citou os fornecedores capazes de aliviar a pressão sobre o bolso dos consumidores. “Está vindo da Argentina, está vindo do Brasil e de alguns outros lugares”, afirmou. Depois, fez um elogio ao produto brasileiro: “O bife é muito bom”. Assim, enquanto Bruxelas e Pequim fecham as portas, Washington pode abrir um novo caminho para a carne brasileira.

A abertura do mercado americano oferece um alívio, mas ainda não compensa os efeitos das barreiras erguidas em outros destinos. A redução das compras chinesas já repercute dentro da cadeia produtiva brasileira, sobretudo na formação de preços e no ritmo dos abates. Com menos pedidos, frigoríficos diminuíram as operações, e a arroba do boi gordo passou a sofrer pressão, alterando o calendário de confinamento e as estratégias de negócios dos pecuaristas. Parte da carne que deixará de seguir para a China poderá ser redirecionada ao mercado nacional, ampliando a oferta e comprimindo as cotações no curto prazo. Isso, porém, não garante preços menores ao consumidor. O resultado dependerá do volume que permanecer no país, do comportamento da demanda e da capacidade do mercado interno de absorver a produção.

Para reduzir a vulnerabilidade às decisões de seus maiores compradores, o Brasil precisará diversificar os destinos da carne, abrindo mercados antes que cotas, tarifas ou mudanças regulatórias provoquem estragos duradouros no setor. “Não podemos ficar tão dependentes de grandes clientes”, afirma Patrícia Arantes, diretora executiva da Sociedade Rural Brasileira. “Os negócios com o Sudeste Asiático e o Oriente Médio têm espaço para crescer.” Essa expansão, porém, exige a obtenção de habilitações sanitárias, a adaptação às regras de cada país e investimentos em distribuição. Uma carteira mais diversificada de clientes reduziria a exposição dos frigoríficos a decisões tomadas por alguns e permitiria redirecionar os embarques com mais rapidez em momentos de crise. Também poderia elevar o valor das exportações, com a venda de cortes destinados a nichos específicos e a mercados dispostos a pagar mais. Após conquistar a liderança mundial, a pecuária brasileira enfrenta um novo desafio: encontrar mais compradores será tão importante quanto produzir mais.

Fonte: VEJA.

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