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Pecuária se defronta com rastreabilidade do animal

Em dezembro de 2024, os europeus colocarão em vigor o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que impede que commodities como a carne, desde o nascimento do bezerro, venham de áreas desflorestadas após 31 de dezembro de 2020. Apesar de não ser o principal importador do produto do Brasil – a China é o primeiro e os Estados Unidos, o segundo -, as regras podem influenciar todo o mercado na região e entorno.

O assunto traz à tona o tema do momento para os pecuaristas: a rastreabilidade individual obrigatória do animal, ideia que já está na mesa do Ministério da Agricultura desde junho de 2023, ainda sem conclusão, e que pode definir os rumos da sustentabilidade da pecuária como negócio. Com ela, todo o ciclo de vida do animal teria um número único, registrado em um sistema nacional, com provável custo para o produtor.

“Eu sou completamente a favor. Trabalho com rastreabilidade desde 2000 e não consigo fazer pecuária sem identificação animal”, diz Mauro Lúcio Costa, proprietário da fazenda Marupiara e que é considerado uma referência em boas práticas ambientais. Você passa a saber quem está produzindo, quem não está, quem está ganhando peso, quem não. Como ferramenta de gestão é fundamental.”

Para ele, falta conhecimento aos produtores, pois o custo do rastreamento é baixo, perto de R$ 15, somando dois brincos (geralmente um se perde ao longo da vida do animal), mais o chip que possibilita identificar o boi como num sensor de caixa de supermercado, com as informações indo direto para o computador e banco de dados da fazenda.

“Concordo que é ótimo”, diz André Bartocci, pecuarista do Mato Grosso do Sul, diretor da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil e presidente da Câmara Setorial da Carne Bovina. “Mas não quer dizer que não seja complexo implementar a rastreabilidade neste que é o maior rebanho do mundo. Não tem como obrigar milhões de produtores a fazer a rastreabilidade, não vai ter multa ou prisão que consiga isso.”

Entre os grandes produtores que não estão com pressa de adotar a prática está o pecuarista Maurício Fraga Filho, dono de fazendas no Pará, com cerca de 28 mil cabeças de gado: “Eu uso o brinco com mosquicida, para tratamento do animal, ele não identifica nada. Não uso o de rastreamento individual porque não existe essa exigência. Faço gestão de lote”. Ele conta que vende para frigoríficos que exportam para países como China e Oriente Médio “e a rastreabilidade, por enquanto, não me é exigida”.

O produtor reconhece a iniciativa do Pará em ser o primeiro Estado a ter um programa de rastreabilidade obrigatória, que será implementado no final de 2026. Fraga vê como problema o monitoramento dos produtores indiretos, aqueles por onde o animal passou até chegar no frigorífico, já que só esse último, por enquanto, é obrigado a informar de onde vem a carne.

“O índice de irregularidade ambiental no Pará é muito grande. Mais de 40% das propriedades têm algum passivo com o Estado. E regularizar isso é muito difícil, leva anos. Se de repente exigirem que ninguém compre animal de área que tenha alguma irregularidade, você causa um desmanche fundiário enorme. As pessoas têm de ter oportunidade de regularizar sua fazenda antes de ser excluída. Por exemplo: mais de 50% das propriedades de reforma agrária têm passivo. Você se esforça para fazer a reforma e aí exclui todo mundo?”, questiona Fraga.

Um argumento em favor da rastreabilidade muito discutido é o de que seria a salvação ambiental para o setor. “Eu tenho absoluta certeza de que não é. Ela contribui, mas não impede nada. Se o criminoso ambiental consegue burlar a lei para desmatar, não vai conseguir burlar uma lei para o brinco do animal?”, diz Bartocci. O brinco não faria diferença, segundo Costa. “Não é o boi que desmata, é o dono dele. Hoje, se você quiser saber quais são as áreas que foram desmatadas, basta olhar as imagens de satélite. Tendo a coordenada geográfica, o governo tem condição de multar quem quer que seja”, afirma.

Fonte: Valor Econômico.

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