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Por que precisamos conservar forragens?

“Estacionalidade de produção das plantas forrageiras” é uma expressão utilizada quando queremos nos referir à decréscimo de produção das pastagens em períodos em que há redução da disponibilidade de luz (dias são mais curtos), a temperatura média é menor e a pluviosidade é drasticamente reduzida, ou seja, chove muito pouco. Esses três fatores juntos impedem que a pastagem cresça de uma forma uniforme durante o ano todo. Para o Estado de São Paulo, o período em que as pastagens crescem abundantemente inicia-se aproximadamente em outubro e termina em abril. Esse período é denominado de “verão” ou das “águas” e na verdade inclui parte da primavera, o verão e parte do outono. O período de “seca” também é denominado de “inverno”, apesar de incluir as estações de inverno e outono. Há uma variação entre anos, dependendo da frequência das chuvas e ou variações climáticas, o que significa que há anos de seca mais prolongada, outros de inverno mais úmido e assim por diante. A relação entre a produção do paríodo das águas e do período da seca é de aproximadamente 4:1, ou seja, do total de forragem produzida durante o ano, 80% está concentrado em aproximadamente 6 meses de verão, enquanto nos demais, apenas 20%.

Os efeitos desse fato sobre a pecuária de leite e corte são evidentes. Para a pecuária de corte há uma variação acentuada de ganho de peso, provocando um efeito “sanfona” sobre os animais, como denominam algumas pessoas, e um consequente atraso da idade de abate destes. Durante o inverno é comum que os animais percam peso, enquanto no verão têm ganhos acentuados. A reprodução e a produção de leite são afetadas, uma vez que os animais só entram em cio e produzem leite com disponibilidade de forragem, provocando assim a necessidade de concentrarmos a época de cobertura e parição das matrizes (estações de monta e parição), o que acabará também afetando o peso ao desmame dos bezerros. A lotação das pastagens sofre redução, já que a oferta de forragem é reduzida. O preço da arroba de carne oscila durante o ano devido aos períodos de alta e baixa disponibilidade de animais prontos para o abate, bezerros e bois magros. Na pecuária de leite os efeitos são similares para sistemas de produção à pasto, com períodos de excesso de produção e outros de escassez, ocasionando também variação anual nos preços do leite, animais de reposição e de descarte.

Para tentar solucionar ou pelo menos minimizar o problema, o pecuarista pode adotar inúmeras estratégias, cada uma mais apropriada às condições do sistema de produção que estiver sendo utilizado na propriedade. São exemplos resumidos dessa estratégia:

1. A vedação de pastagens: Essa técnica é uma das mais simples e se baseia na vedação (não deixar que os animais pastem nessa área) do pasto nos meses de fevereiro ou março para que haja disponibilidade de forragem durante o inverno. É também denominado de “feno em pé”. Haverá disponibilidade de forragem contudo será uma forragem de baixa qualidade, pois a mesma estará madura, ou seja, em estádio de maturação bastante adiantada, praticamente no final do ciclo de crescimento. Além disso corre-se o risco da ocorrência de geadas, o que acarretará a morte da planta e o início da sua deterioração. Na pecuária leiteira o uso dessa técnica é evidente pelo grande número de “capineiras de capim elefante” encontradas durante o período de inverno. Para a pecuária de corte essa técnica deve estar associada à uma suplementação protéica (uréia, suplementos minerais proteínados, etc.) visando uma melhora da fermentação ruminal e aumento do consumo de forragem pelos animais;

2. A cana-de-açúcar: A cana-de-açúcar, pelo fato de possuir alta produtividade e estar madura durante o período de inverno, pode ser uma excelente alternativa como recurso forrageiro, já que devido ao grande acúmulo de açúcar nos colmos não perde significativamente o seu valor nutritivo durante o período de seu uso na alimentação animal. Precisa ser obrigatoriamente suplementado com pelo menos uma fonte protéica pois o seu valor protéico é praticamente nulo. Pode ser armazenada na forma de silagem ou feno, com algumas restrições;

3. A ensilagem: É uma técnica que consiste em preservar forragens no verão através de uma fermentação anaeróbia obtida pela picagem, compactação e vedação da planta forrageira em silos (diversos formatos e tamanhos). O produto final dessa fermentação, denominado silagem, é obtida pela ação de bactérias lácticas sobre açúcares presentes nas plantas, abaixando-se o pH até valores próximos de 4,0. Usualmente são utilizados culturas de milho, sorgo, girassol, milheto e sobras de pastagens de gramíneas tropicais em sistemas de pastejo rotacionado;

4. A fenação: Diferente da conservação na forma de silagem, o processo de fenação é basicamente uma desidratação ou secagem das forrageiras durante o verão. O produto final, denominado feno, conserva-se bem pelo impedimento do crescimento de microrganismos indesejáveis devido a baixa umidade desse produto (pressão osmótica elevada). É uma técnica bastante flexível pois pode ser aplicada tanto em pequenas quanto em grandes áreas, bastando adequar os equipamentos utilizados. Também possibilita a comercialização em fardos. São adequados para serem fenadas plantas que possuírem folhas bem aderidas ao caule, como as gramíneas, além de caule fino para facilitar a secagem. Plantas dos gêneros Brachiaria (diversas espécies), Cynodon (coast-cross, tifton, estrela), além de espécies como capim de Rhodes e Jaraguá são bastante apropriados para conservação nesta forma;

5. Culturas de Inverno: Consiste no plantio de plantas que se adaptam à condições de temperatura e fotoperíodo reduzidos, semeados no final do período de verão (março / abril) para serem colhidos como forragem verde, fenados ou ensilados durante o inverno através de dois ou mais cortes, dependendo da planta utilizada. Há necessidade de um nível mínimo de chuvas ou do uso da irrigação para garantir crescimento satisfatório das mesmas. É relativamente comum nos estados da região Sul, normalmente utilizando-se de plantas como a aveia e o azevém;

6. Outras alternativas: Também há possibilidade de uso de palhadas ou restos de culturas de milho, soja, trigo, arroz, etc. Os animais podem ter acesso a essas áreas ou os resíduos serem colhidos e colocados à disposição dos animais. Resíduos agroindustriais, como o bagaço hidrolisado e polpa de frutas e legumes dependem da localização da propriedade em relação a indústria, já que na maioria das vezes o custo de transporte de alimentos com alta umidade inviabiliza o uso desses subprodutos em locais distantes. A decisão pelo uso dessa alternativa dependerá de uma análise de custos e da composição química, verificando-se primeiramente a ausência de resíduos tóxicos ou que inibam consumo, além da sua disponibilidade durante o período de sua utilização (inverno).

Conclusão: Independente da técnica adotada, ou de várias delas utilizadas simultâneamente, o mais importante é que o pecuarista esteja consciente da ocorrência da estacionalidade de produção das plantas forrageiras e as suas consequências danosas sobre a pecuária bovina de leite e corte, e que tome as devidas providências para que durante o inverno (seca)haja disponibilidade de forragens suficiente para solucionar ou minimizar adequadamente o problema em questão. É importante que a fazenda se torne uma empresa agrícola e planeje adequadamente suas atividades, com coleta de dados, emissão de relatórios e tomada de decisões baseadas nos dados gerados pelo próprio sistema de produção, com o objetivo de um aumento constante nos seus índices de lucratividade.

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