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Princípios básicos de cruzamentos em gado de corte

José Bento S. Ferraz

A palavra de ordem em qualquer atividade econômica dos dias atuais é competitividade, resultado da conjunção da maximização da qualidade e produtividade e minimização dos custos. Estamos num mundo onde apenas os que apresentarem altas produtividades permanecerão no mercado, seja qual for a atividade. Com a pecuária de corte não será diferente e os produtores que não atingirem níveis adequados de qualidade e produtividade serão marginalizados do processo produtivo, podendo até sair do ramo de atividade.
O cruzamento, sistema de acasalamento em que animais de raças diferentes são utilizados para se obter uma maior produtividade na habilidade de produzir-se carne (ou outra característica de interesse), tem-se apresentado como uma das maneiras de aumentar rapidamente a produção pecuária, pois utiliza-se de fenômenos como a heterose e a complementaridade de raças.

O vigor híbrido ou heterose é um fenômeno genético que expressa a superioridade de indivíduos cruzados em relação à média dos desempenhos de seus pais, de raças puras. Tal fenômeno é decorrente do aumento da heterozigose, ou seja os genes de um determinado locus são de origens diferentes e portanto as ações gênicas não aditivas se expressam de maneira mais evidente. A heterose ocorre em várias características de importância econômica, particularmente naquelas onde a ação gênica aditiva, cuja importância em relação ao fenótipo é medida pela herdabilidade, é de pequena monta. Assim, a maioria das características reprodutivas e aquelas ligadas à adaptação dos animais ao meio ambiente são muito beneficiadas quando animais cruzados são utilizados e comparados com animais de raças puras. Como as características reprodutivas são beneficiadas, um dos usos mais importantes do cruzamento em bovinocultura de corte é a produção de fêmeas cruzadas, que são, em geral, sexualmente mais precoces, férteis, prolíficas, com melhor habilidade materna, enfim melhores produtoras de bezerros que fêmeas puras. As observações de campo têm comprovado que os resultados dos cruzamentos na produtividade das fêmeas são excelentes.

A complementariedade de raças é um outro fenômeno onde se consegue reunir em um animal cruzado características das duas raças, transformando o animal cruzado num “mix” de alto valor adaptativo e produtivo. Ele é baseado no conceito de que algumas raças se combinam de melhor maneira de que outras e que ainda algumas raças são melhores como “raças paternas” e outras melhores como “raças maternas”. Assim, se uma raça, como a Nelore, é altamente resistente às condições adversas de clima e qualidade de pastagens do Brasil Central e outra raça, como por exemplo a Red Angus têm alta capacidade leiteira (para bovinos de corte), maior precocidade sexual e melhor ganho de peso, os bezerros cruzados reunirão a rusticidade do Nelore com a habilidade materna do e ganho de peso do Red Angus.

Os resultados de qualquer sistema de cruzamento, no entanto, somente serão otimizados se animais geneticamente superiores forem utilizados. Apesar da heterose e da complementariedade das raças, fenômenos ligados à ação não aditiva dos genes, a produção ótima somente será atingida se os animais com os melhores genes de ação aditiva forem utilizados. O cruzamento dos animais domésticos é o melhor exemplo de como as ações gênicas aditiva e não aditiva se complementam. Programas que se utilizam de cruzamentos entre animais podem ter grandes diferenças de produtividade apenas porque os rebanhos fundadores tinham diferenças de mérito genético aditivo e a avaliação genética correta dos animais a serem cruzados é essencial.

O uso de cruzamentos para aumentar a produtividade de nossa pecuária de corte deve considerar que nossos animais são criados, em sua maioria, em ambiente tropical. Para isto, raças adaptadas a tais ambientes devem ser cruzadas a raças de alta produtividade e precocidade, tanto sexual quando de crescimento. Como raças adaptadas, podem ser citadas as raças Nelore, Guzerá, Gir, Indubrasil, Brahman, muito conhecidos, além de Tuli e Bosmara (Bos indicus da África), o Romo-Sinuano (Bos taurus da Colômbia), o Boran (Bos taurus da África), e o Caracu (Bos taurus adaptado no Brasil), além de raças sintéticas como Belmont Red, Senepol e Senangus. Tais raças “adaptadas” devem ser cruzadas às raças altamente produtivas, como Simental, Angus, Red Angus, South Devon, Gelbvieh, Pardo-Suíço, Hereford, Limousin, Marchigiana e outras raças italianas, Charolês e outras raças francesas, etc. Do acasalamento bem direcionado entre animais destas raças, resultam os bovinos compostos, que têm genes de duas ou mais raças. Alguns desses compostos passaram a ser considerados como raças, a exemplo do Santa Gertrudis, do Brangus, Braford, Range Maker e Range Master, etc.

2 Comments

  1. Marcelo Henrique Giordano Nunes disse:

    Concordo plenamente com o Dr. José Bento S. Ferras, o cruzamento em gado de corte é uma grande ferramenta para o pecuarista aumentar sua produtividade bem como a qualidade do seu produto, lembrando que não existe a raça completa, ou o cruzamento ideal, as raças se complementam, e antes de se iniciar um trabalho de cruzamento, deve-se analizar, as condições ambientais nas quais a propriedade se encontra, como tambem que tipo de mercado queremos atingir, podendo assim escolher as raças bases. Animais mestiços sempre serão superiores aos pais de raça pura, ao meu ver não tem como melhorarmos a qualidade e a produção da pecuaria, sem falarmos em cruzamentos.

  2. Mauricio Omizzolo disse:

    Dentro deste assunto, tenho uma dúvida em relação ao cruzamento entre raças européias. Possuo matrizes Angus e Devon, e gostaria de saber qual seria o melhor cruzamento. Posso realizar cruzamento com raças maiores, como p.ex., charolês, simental…? Obrigado

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