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25 de agosto de 2026

Ralph Lauren tem um rancho de 6.800 hectares e produz uma das carnes mais exclusivas dos EUA

Foto: Richard Phibbs para Elle Decor - https://www.elledecor.com/celebrity-style/celebrity-homes/a23602115/ralph-lauren-double-rl-colorado-ranch-cover-story/

Quando se fala em Ralph Lauren, é muito mais provável pensar em camisas polo, moda de luxo e no imaginário do Oeste americano do que em criação de gado.

Mas existe uma conexão bastante concreta entre esses dois mundos.

Nas montanhas do Colorado, Ralph Lauren mantém o Double RL Ranch, uma propriedade de aproximadamente 17 mil acres — cerca de 6.880 hectares — onde a pecuária não funciona apenas como cenário para campanhas publicitárias.

É um rancho de gado em operação.

E a história fica ainda mais interessante quando se observa o destino da produção.

Ao longo das últimas décadas, diferentes fontes documentaram que a carne produzida ali não é comercializada normalmente no varejo. Em vez disso, uma quantidade limitada foi destinada aos restaurantes de Ralph Lauren e, em determinados períodos, enviada como presente para uma lista bastante restrita de pessoas.

A pecuária acabou, assim, integrada a um universo maior de marca, gastronomia e experiência construído pelo estilista.

Um rancho de quase 7 mil hectares no Colorado

Ralph e Ricky Lauren compraram o Double RL Ranch em 1982.

A própria Ralph Lauren registra a aquisição em sua cronologia oficial e informa que, ao longo dos anos, a propriedade de 17 mil acres se transformou simultaneamente em retiro familiar, rancho de gado, área de preservação de vida selvagem e fonte de inspiração para a marca.

O tamanho da propriedade não aparece apenas nos materiais promocionais da empresa.

Um documento relacionado a direitos de uso da água do Colorado Water Conservation Board descreve o Double RL Ranch como uma operação com aproximadamente 17 mil acres de terras agrícolas no condado de Ouray, Colorado.

São aproximadamente 6.880 hectares.

O rancho está localizado próximo a Ridgway, no sudoeste do Colorado, tendo as montanhas San Juan como cenário.

Mas o local já tinha uma história muito antes da chegada da família Lauren.

Um de seus símbolos é o Vance Barn, celeiro construído em 1905 por Thomas Vance. Décadas mais tarde, a construção chegou a aparecer em comerciais da Marlboro. Foi justamente o celeiro que chamou a atenção de Ralph Lauren quando ele conheceu a propriedade em 1982.

O nome Double RL, por sua vez, é uma referência a Ralph e Ricky Lauren.

Foto: https://www.ralphlauren.global/br/en/rlmag/western-wonder.html

Não é apenas uma fazenda de celebridade

Talvez essa seja a parte mais interessante da história para quem trabalha com pecuária.

O Double RL não foi mantido simplesmente como uma propriedade de lazer com alguns animais compondo a paisagem.

Já em 1987, apenas cinco anos depois da compra, uma reportagem do Washington Post descrevia o local como um rancho “real”, produtivo, inovador e eficiente.

Naquela época, a operação possuía cerca de 1.000 matrizes. Durante o verão, aproximadamente 900 animais eram manejados nas pastagens mais altas da propriedade.

O capataz Bob Barnes resumiu à reportagem a filosofia existente por trás da operação: aquilo era administrado como um rancho de gado, não como um brinquedo de um estilista famoso.

Quase três décadas depois, a situação permanecia semelhante.

Em 2015, a revista Bon Appétit visitou a propriedade e encontrou aproximadamente 800 bovinos Angus e South Devon. Segundo a reportagem, os animais eram conduzidos entre diferentes pastagens por uma equipe de cowboys a cavalo.

A publicação também relatou que os animais nasciam na primavera e eram destinados ao abate aproximadamente 18 meses depois.

Portanto, números como “800” ou “900 cabeças” não devem ser entendidos como tamanho fixo do rebanho.

São fotografias da operação em momentos diferentes.

Em 1987, 2015 e 2017, diferentes reportagens encontraram números distintos, como seria esperado em uma atividade pecuária cujo estoque de animais varia ao longo do ciclo produtivo.

Angus × South Devon: a genética por trás da carne

Outro ponto frequentemente simplificado quando a história do rancho circula nas redes sociais é a genética.

O Double RL não trabalha apenas com “gado Angus”.

A Forbes informou em 2017 que os bovinos utilizados na produção de carne eram resultado do cruzamento entre South Devon e Black Angus.

Uma publicação da North American South Devon Association fornece ainda mais detalhes sobre essa estratégia.

Segundo o material, o então gerente Tom Harrington administrava um rebanho próximo de 900 animais no Double RL. A maior parte dos bezerros era resultado justamente do cruzamento entre Angus e South Devon.

Na avaliação do gerente citada pela associação, o South Devon contribuía tanto com características maternas importantes para o rebanho quanto com desempenho dos bezerros e características de carcaça.

O documento relata ainda que, em determinado ano, aproximadamente 500 bezerros foram colocados em terminação, sendo sua produção destinada ao restaurante ou aos tradicionais presentes de carne enviados durante as festas de fim de ano.

É um detalhe importante porque muda a interpretação da história.

O Double RL não é simplesmente um lugar onde Ralph Lauren “tem alguns bois”.

Há registros de decisões de genética, reprodução, manejo, terminação e qualidade da carne dentro de uma operação pecuária propriamente dita.

Uma carne que praticamente não chega ao mercado

Aqui aparece a característica que tornou a carne do Double RL particularmente curiosa.

Ela não foi desenvolvida como uma marca convencional de carne premium disponível em supermercados ou açougues.

Em 2017, a Forbes descreveu o rebanho como pequeno, com aproximadamente 900 animais, e afirmou que a carne não era vendida comercialmente.

A produção limitada tinha como destino prioritário os restaurantes ligados a Ralph Lauren.

Naquele momento, a publicação mencionava Ralph’s, em Paris; The Polo Bar, em Nova York; e RL Restaurant, em Chicago. A disponibilidade era tão restrita que a carne poderia aparecer como especial apenas uma vez por ano, dependendo da oferta.

É importante, entretanto, colocar essa informação no tempo.

A reportagem da Forbes é de 2017 e não significa necessariamente que, atualmente, exatamente os mesmos três restaurantes recebam a carne nas mesmas condições.

Material publicado pela própria Ralph Lauren atualmente descreve o Double RL como fornecedor de carne para seus restaurantes de Nova York e Chicago.

Há também registros anteriores específicos sobre Nova York.

Quando o The Polo Bar começou a servir ribeye proveniente do Double RL, em 2015, Ralph Lauren descreveu o produto como carne Angus criada em pastagem no rancho familiar.

A Architectural Digest, ao apresentar o Polo Bar, também informou que os steaks poderiam ser provenientes do Double RL Ranch quando houvesse disponibilidade.

Essa última expressão talvez seja uma das melhores pistas para compreender a estratégia: disponibilidade limitada.

Wet aging de até 40 dias

O tratamento dado à carne depois do abate também recebeu atenção.

Em sua reportagem de 2017, a Forbes descreveu um ribeye produzido a partir do cruzamento South Devon × Black Angus e submetido a wet aging entre 35 e 40 dias.

Na ocasião, o RL Restaurant de Chicago oferecia duas apresentações.

Um ribeye com osso de 22 onças — aproximadamente 624 gramas — custava US$ 70.

Outra opção chegava a 44 onças, aproximadamente 1,25 kg, acompanhada de diferentes guarnições e destinada a duas pessoas. O preço era US$ 200.

Novamente, são preços registrados em 2017, e não valores atuais.

Mas eles ajudam a compreender o posicionamento dado à produção.

Não se tratava simplesmente de colocar “carne da fazenda do Ralph Lauren” no cardápio.

O produto era apresentado dentro de uma experiência gastronômica premium, em quantidade restrita e com uma história de origem extremamente forte.

Existe até uma “Beef List”

E nem toda a carne tinha como destino os restaurantes.

A Bon Appétit relatou em 2015 a existência de uma espécie de lista privada da família conhecida como Beef List. Algumas pessoas que faziam parte dela recebiam carne do Double RL como presente de Natal.

A publicação da North American South Devon Association traz um registro ainda mais específico.

Segundo o material, durante o período das festas de fim de ano, aproximadamente 200 caixas especialmente preparadas com steaks South Devon eram enviadas para pessoas selecionadas por Ralph Lauren.

O gerente do rancho relatava receber pedidos de pessoas interessadas em comprar mais daquela carne, mas a produção não havia sido estruturada como um negócio convencional de venda de carne ao consumidor.

Isso ajuda a explicar por que a carne do Double RL se tornou tão difícil de encontrar.

A escassez não é apenas uma frase de marketing. A escala da produção é realmente pequena quando comparada a uma operação comercial criada para abastecer regularmente um mercado consumidor amplo.

Do rancho ao restaurante

Existe uma lógica interessante por trás de tudo isso.

Ralph Lauren construiu durante décadas uma marca baseada não apenas em roupas, mas em um determinado estilo de vida.

O cavalo, o cowboy, as montanhas, as casas de madeira, o couro e o imaginário do Oeste americano aparecem repetidamente nas coleções, lojas, campanhas e restaurantes da companhia.

No Double RL, parte desse imaginário deixa de ser apenas representação.

Existe terra.

Existe gado.

Existem cowboys.

Existe produção de carne.

E essa carne chega — em quantidades limitadas — à mesa de restaurantes que carregam a mesma marca.

O resultado é uma integração incomum entre produção agropecuária, produto, gastronomia e branding.

Ralph Lauren não criou uma grande marca de carne — e isso é justamente o interessante

Talvez fosse possível imaginar que alguém com o alcance comercial de Ralph Lauren transformaria o Double RL Beef em uma marca premium de carne, distribuída para restaurantes e consumidores de alto poder aquisitivo.

Mas não foi esse o caminho documentado ao longo da história da propriedade.

Uma das fontes ligadas à raça South Devon chega a dizer explicitamente que Lauren não estava interessado em construir um grande negócio de carne. Ainda assim, a produção do Double RL desempenhava um papel dentro de seus outros negócios.

É uma distinção importante.

A carne não precisava necessariamente gerar seu maior valor através do volume vendido.

Ela ajudava a entregar algo mais difícil de mensurar: autenticidade, origem, experiência e exclusividade.

O que o caso Ralph Lauren pode ensinar à pecuária?

É evidente que a realidade de um bilionário com uma das marcas de moda mais conhecidas do mundo não pode ser simplesmente transportada para uma fazenda brasileira.

Mas o Double RL Ranch apresenta uma provocação interessante para a cadeia da carne.

Durante muito tempo, boa parte da pecuária concentrou sua atenção principalmente no produto físico: peso, rendimento, acabamento, marmoreio, maciez e eficiência produtiva.

Todos continuam sendo fundamentais.

Mas, para o consumidor final, o valor de um alimento também pode ser construído por elementos que existem ao redor dele.

De onde veio essa carne?

Quem produziu?

Como os animais foram criados?

Qual é a história da propriedade?

Existe consistência entre aquilo que a marca promete e aquilo que efetivamente produz?

Ralph Lauren conseguiu reunir vários desses elementos em um único ecossistema.

No Double RL, a fazenda tem uma história. O sistema produtivo tem uma identidade. A genética tem uma finalidade. A carne tem origem conhecida. A disponibilidade é limitada. E o produto chega ao consumidor dentro de uma experiência coerente com a marca.

O curioso é que, nesse caso, o luxo não começa no restaurante. Começa no rancho.

Fontes

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