
Quando Donald Trump passou a se preocupar com a disparada dos preços da carne bovina nos Estados Unidos, recorreu à aliada Argentina para aumentar o fornecimento do produto. A tradicional potência pecuária não demorou a atender ao pedido e, neste ano, passou a exportar volumes recordes de cortes de carne para o mercado americano.
O episódio é um exemplo de como o presidente dos EUA consegue moldar o comércio em benefício próprio, mesmo dentro de um acordo bilateral mais amplo. A iniciativa teve como objetivo ajudar a conter a alta dos preços da carne antes das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.
Na Argentina, porém, onde os exportadores vêm priorizando clientes americanos, que pagam mais do que os chineses, o movimento intensifica uma tendência que dificilmente favorecerá o líder liberal Javier Milei em sua campanha pela reeleição no próximo ano.
Os açougues argentinos vêm reajustando os preços em um ritmo muito superior ao crescimento dos salários, derrubando o consumo de carne bovina. Em um país onde o tradicional churrasco semanal é considerado quase um direito de nascença, o consumo da proteína caiu para o menor nível da história.
— O acesso a um mercado de alta renda como o dos Estados Unidos aumenta a pressão, já que os preços internos começam imediatamente a convergir para os valores praticados nas exportações — afirmou o economista Emmanuel Álvarez Agis, diretor da consultoria PxQ, de Buenos Aires.
Segundo ele, o ciclo pecuário agrava ainda mais essa escassez, pois os produtores mantêm mais vacas para reprodução em vez de destiná-las ao abate.
Nos 12 meses encerrados em maio, o consumo médio de carne bovina na Argentina foi de 47,5 quilos por pessoa. Embora esse nível ainda coloque os argentinos entre os maiores consumidores de carne vermelha do mundo, ao lado dos vizinhos uruguaios, trata-se do menor patamar registrado em duas décadas, segundo a câmara setorial Ciccra.
Embora a mudança nos hábitos alimentares tenha contribuído para essa tendência de longo prazo, a Ciccra atribui a queda mais recente, de 6,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, ao fato de os preços da carne bovina terem avançado mais rapidamente do que o poder de compra da população.
Nos seis meses encerrados em março, a inflação acumulada da carne bovina chegou a 50%, enquanto os salários registraram ganho acumulado de apenas 15% no mesmo período.
Enquanto os argentinos enfrentam essas dificuldades, os benefícios do acordo comercial firmado entre Donald Trump e Javier Milei já começam a aparecer nos Estados Unidos. O entendimento elevou a cota anual de exportação de carne bovina argentina isenta de tarifas de 20 mil para 100 mil toneladas.
A mudança fez toda a diferença para Pablo Rivero, proprietário da mais famosa churrascaria da Argentina, a Don Julio. Ele está prestes a inaugurar seu primeiro bistrô no bairro de West Village, em Nova York, chamado Graciela, e a ampliação da cota consolidou seu acordo com um exportador para levar aos EUA cortes produzidos nos tradicionais pampas argentinos e que atendem aos seus elevados padrões gastronômicos.
—Todas as decisões que você toma quando se trata de um grande e importante negócio são formadas por vários pequenos sinais positivos — afirmou Rivero, cujo restaurante em Buenos Aires figura regularmente entre os melhores do mundo, em entrevista por telefone a partir de Nova York. —Um desses sinais foi justamente o aumento da cota, que garante que poderemos importar carne da nossa própria qualidade, fornecida pelo nosso parceiro.
Na Argentina, o gado é criado a pasto durante grande parte da vida, enquanto nos Estados Unidos os animais passam mais tempo confinados em sistemas de engorda à base de grãos. Os clientes do Graciela deverão perceber essa diferença no prato.
— A carne americana costuma ser um pouco mais adocicada, enquanto a nossa tem um sabor mais profundo e intenso, além de apresentar mais colágeno em cortes como ancho, costela e fraldinha — disse Rivero.
Mas a ampliação da cota também significa que as exportações argentinas para os Estados Unidos estão crescendo rapidamente para além dos cortes nobres, passando a incluir carnes de menor valor, utilizadas na produção de hambúrgueres e salsichas.
Era exatamente esse o objetivo de Trump. A medida faz parte de uma estratégia mais ampla para conter os preços da carne nos EUA, em um momento em que as famílias se preparam para os tradicionais churrascos de verão e a inflação ao consumidor atingiu o maior nível em três anos.
Para Milei, que contou com o apoio de Trump durante um período de turbulência econômica no ano passado, o acordo também representa o cumprimento da promessa de abrir novos mercados para os produtores rurais. Base importante de sustentação política do presidente argentino, os pecuaristas do país vinham destinando, por anos, a maior parte de suas exportações de carne à China.
As vendas de carne bovina argentina para os Estados Unidos cresceram 204% em abril na comparação com o mesmo mês do ano passado, alcançando um preço médio de US$ 8,25 por quilo, segundo a Ciccra. Já os embarques para a China, onde os importadores pagaram apenas US$ 6,24 por quilo, caíram 32%.
O governo Milei chegou a patrocinar, no início deste ano, uma missão comercial para que os principais frigoríficos argentinos divulgassem seus produtos em Los Angeles, Chicago e Filadélfia. Intencionalmente ou não, a seleção argentina que disputa a Copa do Mundo também ajudou na promoção ao realizar grandes churrascos — os tradicionais ‘asados‘ — com cortes generosos de carne, queijo provolone grelhado e linguiça chorizo.
Executivos do Grupo Lequio, que possui várias unidades voltadas tanto ao mercado argentino quanto ao externo, participaram da missão organizada pelo governo aos Estados Unidos. No ano passado, quando a cota de exportação isenta de tarifas para os EUA era muito menor, o Lequio embarcou cerca de três mil toneladas de carne, metade dentro da cota e metade sujeita a uma tarifa de 26%. Apenas nos quatro primeiros meses deste ano, a empresa já igualou esse volume.
— Quando a cota é limitada, você a reserva para os produtos de maior valor agregado, a fim de maximizar a rentabilidade — afirmou Santiago Escales, gerente de exportações do Lequio. — Mas, quando ela aumenta tanto, você deixa de se preocupar se vai utilizá-la para um corte específico ou outro, é possível exportar tudo. Isso abre muito mais oportunidades.
Apesar dos esforços de Trump, porém, esses embarques ainda não são suficientes para compensar a escassez provocada pelo rebanho bovino dos Estados Unidos, que está no menor nível em 75 anos. Como consequência, os preços da carne moída no mercado americano atingiram um novo recorde em maio.
Para Milei, no entanto, a imagem de novos negócios para os exportadores argentinos, ao mesmo tempo em que os consumidores enfrentam preços cada vez mais difíceis de pagar no mercado interno — uma tendência que também se espalhou para o setor de energia — pode não cair bem entre milhões de eleitores da classe trabalhadora.
Acostumados há décadas ao ritual de encher a churrasqueira com grandes cortes de carne bovina, os argentinos hoje conseguem comprar, pelo mesmo valor, o dobro de carne suína ou quatro vezes mais carne de frango, segundo a Bolsa de Comércio de Rosário.
— A Argentina sempre foi uma exceção quando se tratava dos preços da carne bovina e do consumo interno, havia um enorme abismo entre nós e o resto do mundo — afirmou Escales. — Hoje, a situação está se tornando mais racional, embora isso, evidentemente, traga novos desafios.
Fonte: O Globo.