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A cadeia agroindustrial da carne

A cadeia agroindustrial da carne é composta desde o produtor de insumos até o consumidor final, passando por todos os processos de produção e manuseio industrial da carne.

Todos os elos da cadeia ganham na medida em que se aumenta a demanda pelos produtos e subprodutos de origem.

Em termos pecuários, o principal interesse é o aumento do consumo de carne, que é o principal produto da pecuária bovina e da indústria por trás dela.

A proteína animal

Constantemente somos “atacados” por depoimentos e artigos em que o consumo de proteína animal é maléfica, aumenta riscos à saúde etc.

Artistas da música e da dramaturgia, geralmente vistos como padrões de beleza, qualidade de vida e saúde, sempre acabam colocando a ausência de carne vermelha na sua dieta como receita para boa forma.

Este tipo de cultura é um “tiro” em toda a cadeia agroindustrial, pois associa o consumo deste alimento com a má alimentação.

Má alimentação, aliás, que é a verdadeira causa de problemas nutricionais. Uma dieta pobre em carne vermelha pode se consistir em alimentação inadequada.

Na verdade, contrariando a afirmação mais comum e propagada, não se comprovou cientificamente que a ausência de carne na dieta aumenta o tempo de vida do consumidor.

Porém, consumo não pode ser confundido com exagero. Nenhum alimento em exagero pode fazer bem a saúde, nem mesmo água.

O consumo de proteína animal

Com base em estimativas e dados preliminares do ano 2000, o consumo entre as principais proteínas no Brasil se distribui nas seguintes proporções:

Figura 1

Como o enfoque é do ponto de vista de produção, o leite é dado em litros e a carne bovina em equivalente carcaça.

A importância da produção animal

A pecuária representa 41% do valor total da produção agropecuária.

Na figura 2 estão as participações dos produtos pecuários na soma total do valor de produção no ano de 2000, que ficou em R$ 86 bilhões.

Figura 2

De acordo com dados do CNA/CEPEA/USP, o agronegócio brasileiro movimentou R$306,9 bilhões em 2000, sendo a produção primária 28% deste montante.

Observe que a pecuária de corte responde por mais da metade do valor de produção na pecuária.

O mercado e os elos da cadeia

O produtor aprendeu e se sensibilizou da necessidade de olhar adiante na cadeia agroindustrial da carne.

Gradualmente, a consciência de que o mercado do pecuarista não começa e nem termina nos ganchos dos frigoríficos vem aumentando.

Certamente, a importância do entendimento do mercado é tão ou mais importante que a eficiência técnica da propriedade. A administração engloba o conceito de mercado e agronegócio em geral.

Espaços na mídia, antes reservado apenas a assuntos técnicos e curiosidades, têm sido abertos a questões de hábitos de consumo, qualidade de carcaça, sanidade, mercado internacional etc.

E por estranho que pareça, atender os anseios do mercado, promove aumento de eficiência.

Veja o problema da sanidade do rebanho. Em exemplo grosseiro, pode-se dizer que ninguém quer comer carne com canjiquinha. O frigorífico pune o pecuarista que envia animais com Cisticercose ao abate. Este se vê obrigado a vermifugar o rebanho, promovendo por tabela, maior eficiência de ganho de peso vivo.

O investimento em qualidade está mais relacionado com redução de custos do que com aumento dos mesmos.

Entre os fatores de formação de preços, a interação entre os elos ganhou um gigante que são as enormes redes varejistas que cada vez mais abocanham maiores fatias de distribuição.

Observe na tabela 1, a involução dos açougues na comercialização de carnes nas últimas décadas.

Tabela 1: Participação dos açougues nas vendas de carne

Tabela 1

O ganho de espaço pelos supermercados tem sido possibilitado pela alteração dos hábitos do consumidor, que buscam, qualidade, conforto, fácil acesso e facilidade nas compras.

Em um supermercado, encontra-se tudo que se precisa, há locais para divertimento de crianças, e ainda há a possibilidade de conciliar as compras com o divertimento em um shopping.

O impacto das redes varejistas

Não se pode condenar a atuação das redes, que buscam maximizar as vendas e têm sido eficientes em ganhar mercado. Lembre-se que o consumidor procura aquilo que lhe interessa, facilita, economiza tempo e dinheiro.

Em grande parte dos casos, a atuação das redes facilita o aumento do consumo dos produtos, tendo em vista o acesso e a disponibilidade de produtos, que dificilmente seriam vistos pelos consumidores em outros locais. Resumindo, as redes também facilitaram a introdução de novas marcas.

Por isso, as prateleiras das redes tem sido praticamente alugadas aos fornecedores, cabendo à rede, apenas administrar as vendas.

Então, com tantos benefícios, por que tanto se culpa as redes varejistas pelos problemas enfrentados no segmento produtivo?

Não só para os produtos pecuários e agrícolas, mas também para todos os demais setores, a atuação destas redes é muito agressiva no ponto de vista de negociações, redução de custos de estoques, pressões de mercado, etc.. Por isso obtiveram resultados recordes no ano 2000.

Porém, para maximizar resultados, devem vender mais (maior giro de mercadoria). Para tal, a maior parte de suas margens são garantidas em detrimento das margens da indústria e não pelo aumento dos preços ao consumidor.

Além de tudo, a indústria arca com os custos de estoques, transportes e outros, aumentando ainda mais a competitividade da rede.

Em resumo, as redes estão na frente do ouro (consumidor) e para chegar até ele, a indústria tem que passar por ela.

Sem dúvida toda a pressão ficará nas costas do produtor, uma vez que a indústria tem a quem repassar.

Margens do pecuarista

Hoje a margem de um produtor, baseado numa produção racional, adotando tecnologias que permitam ganhos dentro da sua realidade, trabalha com uma margem líquida em torno de 18% a 20%.

A grande maioria dos produtores, sem muita tecnologia na pecuária, trabalha com margens menores, muitas vezes até no prejuízo que não é identificado, tendo em vista a não contabilização das depreciações, remunerações e alguns custos fixos.

Em resumo, estão dilacerando, involuntariamente, seu patrimônio. Com produção em escala, melhor eficiência administrativa e técnica e boa habilidade comercial, algumas fazendas registram lucratividade anual em torno de 25 a 30%, um índice muito bom para as atuais condições pecuárias.

Em termos de retorno anual sobre capital investido, os produtores tem obtido de 3 a 10% ao ano com a pecuária de corte, considerando as fazendas com resultados positivos.

Fazendas com maior índice de lotação (nada acima de 2,0 U.A./ha) e melhor desempenho chegaram a obter 17 a 18% de retorno de capital no ano de 2000.

Margens dos frigoríficos

A preços atuais de mercado, os frigoríficos obtêm margens brutas de 16,7% quando negociam carcaças e 33,6% quando produzem carne desossada.

Vale lembrar que, apesar da comum argumentação de que o produtor não recebe pelo couro e demais subprodutos, a carcaça representa cerca de 75% da receita dos frigoríficos.

Observe na figura 3 a evolução dos preços da arroba do boi gordo e do equivalente físico no atacado.

Figura 3

O deságio entre a arroba equivalente no mercado atacado e o mercado físico, na média dos últimos 5 anos, é de cerca de 5%. A partir de 2000, o deságio médio passou para 11% e hoje chega a 13%.

Juntamente com a falta de bois para abate nos últimos meses, que mantém os preços firmes no mercado, o aumento no mercado de couro é um dos fatores que garantem que os preços ao produtor não recuem nas mesmas proporções que tem recuado o mercado de carne.

Além de consumo e oferta, outros fatores também compõem a formação de preços, como exportações, sanidade do rebanho, câmbio, reposição, clima etc.

Os preços médios do couro no mercado de abril e maio de 2001 estão cerca de 113% acima da média dos últimos 3 anos.

Comparando margens, tem-se a impressão que a margem do produtor é bem melhor que a do frigorífico, pois, líquida, atinge cerca de 20%, enquanto as margens brutas dos frigoríficos atingem 16% a 30%.

No entanto, ainda há o fator escala, uma vez que normalmente o que um frigorífico abate por dia, montaria uma escala anual de abate satisfatória para a grande maioria das propriedades.

Margens do varejo

Nas operações com compras de carcaças, sendo o manuseio da carne para venda responsável pelo varejista, as margens brutas obtidas a preços atuais estão em torno de 58,8%.

Para operações com peças desossadas ainda nos frigoríficos, o varejo obtém margens brutas de 33,26%.

No caso do varejo, além do giro da mercadoria que proporciona ganhos em escala, as margens brutas são altas.

Considerando ainda que os custos tendem a ser o menor de toda a cadeia, uma vez que o compromisso de produção, transporte do animal vivo, abate, manuseio, transporte de carne, etc. já ficaram para trás, as margens líquidas do varejo são as maiores de todos os demais elos da cadeia.

Comparações

Da mesma maneira que costumeiramente usa-se o índice equivalente carcaça em arrobas para comparar os preços no atacado, na tabela 2 estão apresentados os valores da arroba do boi no mercado físico em comparação com os valores do atacado (carcaça e desossado) e no varejo.

Tabela 2: Comparações de preços entre os elos da cadeia agroindustrial da carne na forma de equivalente físico em arrobas

Tabela 2

Veja que os valores comparativos da arroba no varejo são 35% superiores aos preços de venda do produtor.

Considerações finais

Não só a pecuária, mas todas as cadeias agroindustriais, estão se ajustando aos tempos modernos.

No caso da pecuária de corte, os reflexos da atuação agressiva do varejo se dão de maneira mais lenta, tanto é que ainda se sobrevive com abaixa tecnologia de produção. Este privilégio não ocorre em outras atividades agrícolas, em que a ausência de tecnologia expulsa gradualmente os produtores do campo.

Para o produtor, esta tendência deve ser vista como um sinal de que o futuro exige investimentos em tecnologias e administração.

Tão logo as propriedades adotem planos de melhoria na produção, menor será o problema lá na frente, problema que tem sido responsável por horas de insônia para o produtor de leite, que hoje começa a ter duas opções: ou anda para trás ou abandona a atividade, a não ser que tenha capital para investir.

Figura 4

Maurício

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