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A importância do tamanho das partículas na produção de silagens de alta qualidade

Atualmente, muito se tem discutido sobre a importância do tamanho das partículas na alimentação, inclusive com vários artigos na seção técnica de Nutrição Animal, todos escritos pelo Dr. José Roberto Peres, no MilkPoint (Fibra efetiva em dietas de vacas leiteiras – parte 1: avaliação teórica e parte 2: avaliação prática; Novos usos da peneira para determinação do teor de fibra das dietas). Com o objetivo de colocar mais alguns pontos a serem considerados nessa discussão, principalmente do lado da produção de silagens, gostaria de comentar sobre a importância do tamanho das partículas sobre o processo fermentativo e da qualidade operacional das máquinas colhedoras de forragens disponíveis no mercado.

Com relação ao tamanho das partículas para obtenção de uma silagem de boa qualidade fermentativa, logicamente que quanto menor o tamanho destas, maior a facilidade de compactação, mais rápida se instala a anaerobiose, e portanto, menores perdas por respiração da planta e crescimento de microrganismos aeróbios, principalmente fungos e leveduras. Contudo, quanto menor o tamanho da partícula obtida, maior o dispêndio de energia gasto pela colhedora de forragens se ela for capaz de executar tal serviço com a eficiência citada. O teor de matéria seca da forragem ensilada afeta diretamente essa eficiência, sendo que teores elevados (acima de 35%) requerem mais das colhedoras.

A recomendação tradicional é de obtermos tamanho médio de partículas de 1 a 2 cm. Na prática muito pouco têm sido obtido com relação a mensuração desse dado, e portanto, pouco podemos afirmar sobre a realidade das silagens obtidas nas mais diferentes propriedades. As peneiras da Penn State University estão aí para serem usadas para que essa realidade se altere num curto espaço de tempo.

Do ponto de vista do animal, no momento do balanceamento da dieta, não só devemos identificar o teor de fibra, mas a sua efetividade em produzir ruminação, salivação e movimentação peristáltica do rúmen, ou seja, a fibra efetiva. Nos trabalhos acima citados, verificamos que ainda se faz necessário uma maior definição dos métodos a serem utilizados, porém já há um rumo a ser tomado. Nesse caso, tamanhos de partículas muito reduzidos diminuem a digestibilidade da ração e consequentemente o desempenho animal. Isso ocorre devido a acidez das silagens e pela dificuldade do animal compensar esse fato ruminando mais, produzindo mais saliva e finalmente tamponando o rúmen, ou seja, mantendo o seu pH entre 6 e 7. Na verdade, não é o tamanho médio de partícula que nos interessa mais, mas sim a distribuição do tamanho destas. Em outras palavras, podemos obter duas silagens com o mesmo tamanho médio de partículas, mas com diferentes desempenhos animais, dependendo do desvio médio das partículas. A recomendação é que se a silagem não for a única forragem, deve-se ter 2 a 4% > 19 mm, 40 a 50% entre 8 e 19 mm e 40 a 50% < 8 mm. Se a silagem for o único volumoso, aumentar para 10 a 15% na peneira > 19 mm. Uma variação muito grande no tamanho das partículas provocará maior seletividade por parte das vacas e, portanto, alteração no balanceamento das rações.

Milton Luiz Moreira Lima, pesquisador da Universidade de Goiás, em Goiânia, realizou amostragens de diversos híbridos de milho em vários locais. O primeiro estudo foi feito com o híbrido BR201, com 84 e 93 dias depois do plantio. As amostras foram retiradas a cada três horas, durante quatro dias, em triplicata – carreta no início, no meio e no final do descarregamento. Em 14 amostras, foram encontrados 10 a 15% de partículas maiores que 19 milímetros no início da colheita, aumentando à medida que as facas foram se desgastando; ao serem amoladas, caiu novamente essa porcentagem. Lima explicou que houve variação inversa entre oito e 19 milímetros e pouca variação em partículas menores que oito milímetros. Segundo o autor, em nenhum momento, a porcentagem de partículas maiores que 19 milímetros recomendada foi alcançada com o uso do equipamento, nem foi atingido o padrão das menores que oito milímetros.

Numa segunda avaliação de silagens em fazendas comerciais foram utilizados três tipos de equipamentos diferentes, com duas regulagens de corte – cinco ou oito milímetros. A pesquisa foi realizada em quatro fazendas – em Vianópolis, Abadiânia, Edealina e Bela Vista – de abril a novembro de 1998 -, com amostras retiradas de silos de trincheira. Os resultados, em oito amostras, revelaram só uma que se encaixou no padrão de partículas maiores que 19 milímetros; sete ficaram entre oito e 19 milímetros; em relação ao padrão das menores, os valores apresentaram-se sempre abaixo.

Concordando com os resultados obtidos por LIMA (1999), DEMARCHI (2001) avaliou 96 amostras de um silo trincheira com silagem de milho com 26% de matéria seca (desvio de +- 2,3), obtendo-se valores de 26,5% (desvio de +-5,8) para a peneira de 19 mm, 49,8% (desvio de +-5,8) para peneira de 8 mm e 21,6% (desvio de +-4,5) para a bandeja de fundo. Em outro silo trincheira, avaliando 280 amostras, os resultados para uma silagem de milho com 24,3% de matéria seca com desvio de +- 1,9% foram, respectivamente, 27,1% (desvio de +-5,6), 53,3% (desvio de +-7,3) e 18,2% (desvio de +-9,0) para bandejas de 19 mm, 8 mm e fundo. Nota-se que os resultados estão bastante diferentes dos recomendados para silagens de milho.

Comentário BeefPoint: Precisamos primariamente de um número maior de dados sobre os tamanhos das partículas obtidas nas silagens produzidas em condições de campo e experimentais. Precisamos, em parceria com as empresas que comercializam e ou produzem colhedoras de forragens e órgãos estatais, criar um método de avaliação dos equipamentos disponíveis, tanto na sua eficiência quanto na sua manutenção, inclusive no condicionamento das facas, na escolha do jogo de engrenagens, etc. Sugerimos até a criação de um selo de qualidade, a exemplo de inúmeros outros produtos no mercado. Isso com certeza melhora significativamente a qualidade das silagens produzidas.

Referências bibliográficas:

LIMA, M. L. M. Tamanho de partículas precisa ser padronizado. In: Agropecuária Hoje, Ano V, n. 25, p. 2, maio-junho-1999 (Anais do I WORKSHOP sobre milho para silagem).

DEMARCHI, J. J. A. A. Detecção de fungos em silagens de milho (Zea mays) armazenadas em silos tipo trincheira, visando avaliar suas características físicas e fermentativas. Tese de Doutorado, 2001.

0 Comments

  1. Claus Janzen Lander disse:

    Que tamanho máximo que o sabugo do milho de silagem poderá ficar, para nao haver rejeicao pelos animais?

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