Identificação animal
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Índices de produtividade da pecuária de corte no Brasil. Parte 2/3
7 de julho de 2000

Índices de produtividade da pecuária de corte no Brasil. Parte 1/3

Adriano Vecchiatti Lupinacci1 e Cauê Varesqui Zeferino2

Adriano Vecchiatti Lupinacci1 e Cauê Varesqui Zeferino2

A pecuária bovina é um dos segmentos mais importantes do setor agropecuário brasileiro, pois além de ser uma atividade econômica presente em todo o território nacional, é uma exploração tipicamente desbravadora que emprega mais de 7 milhões de pessoas.

O país possui o maior rebanho comercial de bovinos do mundo, com cerca de 153 milhões de animais, totalizando 15% dos bovinos do globo.

Grande parte desses animais é criada em pastagens, as quais ocupam cerca de 20% do território nacional ou o equivalente a 3 vezes a área cultivada atualmente pelas principais culturas agrícolas (café, laranja, soja, milho, arroz, algodão, etc.).

Neste contexto destaca-se a bovinocultura de corte em relação a exploração leiteira, sendo a primeira detentora de 121 milhões de animais ou 80% do rebanho nacional.

Assim, considerando a expressividade da pecuária nacional como atividade geradora de empregos e abrangência territorial e o reconhecido potencial de produção agropecuário do país, poder-se-ia intuitivamente esperar que o Brasil ocupasse um lugar de grande destaque internacional em termos de produção animal em sistemas pastoris.

Contrariamente, a análise dos dados relativos a produção de carne e dos índices de produtividade do rebanho nacional, permite concluir que a pecuária brasileira de corte é, na maioria das vezes, ineficiente quanto ao seu objetivo, ou seja, não é capaz de competir de forma lucrativa e, portanto satisfatória, com outras modalidades de exploração econômica da terra (milho, soja, laranja, café, etc.), indicando que em muitas situações a pecuária de corte não é a melhor atividade a ser explorada na propriedade.

É interessante enfatizar que os sistemas de produção animal a pasto são os de mais baixo custo e de maior lucratividade em todo o mundo, mas esta constatação é extremamente difícil de ser vislumbrada em nosso país. Será que na prática a teoria é outra?

Análise dos índices da pecuária de corte

O Brasil apresenta o maior rebanho de bovinos do planeta (153 milhões de cabeças) sendo seguido pela China (135 milhões de cabeças) e Estados Unidos (97 milhões de cabeças).

Todavia, apesar de o país apresentar um rebanho 60% maior em relação ao norte-americano, são esses os maiores produtores de carne bovina, sendo responsáveis por cerca de 22% de toda a carne comercializada e consumida atualmente no mundo.

Paradoxalmente, somente 10% do total de carne produzida é pertencente ao Brasil. Nesse ponto, surge uma questão destacadamente importante, qual seja, porquê o Brasil tem o maior rebanho comercial de bovinos, mas não é o principal produtor de carne do mundo?

Essa é uma pergunta muito simples que, entretanto, apresenta uma resposta bastante complexa e abrangente.

Inicialmente, é pertinente considerar que o rebanho brasileiro é pouco produtivo, fato que é facilmente constatado quando se analisa os índices de produtividade do rebanho nacional (Tabela 1).
Assim, se a maioria do rebanho é pouco produtiva, a atividade é também caracterizada como pouco produtiva, o que implica diretamente na baixa competitividade e lucratividade da pecuária, fato facilmente constatável atualmente.

Tal conjuntura infelizmente determina que os investimentos (manejo da fertilidade do solo, manejo das pastagens, alimentação do rebanho na seca, etc.) necessários para a manutenção ou implementação das áreas de produção sejam reduzidos ao máximo, ou até mesmo suprimidos.

Nesse contexto, é fundamental que pecuaristas, técnicos e governantes reflitam, pois a baixa produtividade do rebanho tem comportamento cíclico, ou seja, a falta de investimentos na atividade pode ser tão expressiva que o único resultado passível de obtenção na propriedade é a baixa produção animal e vice-versa, de tal sorte que a baixa lucratividade e baixa competitividade da pecuária como forma de exploração econômica da terra é uma conseqüência desse ciclo de improdutividade, que nos dias atuais podem ser caracterizadas como um caminho no rumo do fracasso da atividade.

A Tabela 1 mostra que a taxa média de natalidade do rebanho brasileiro está ao redor de 60%, ou seja, por ano nascem 60 bezerros para cada 100 fêmeas do rebanho.

Analogamente, é como se o pecuarista fosse o proprietário de um hotel com 100 hóspedes, mas somente 60 pagassem sua estadia ou, analisando de outra forma, cerca de 40% das fêmeas do rebanho nacional não produz um bezerro por ano e, portanto, não cumprem sua principal função. Na prática, para um rebanho de 100 fêmeas com esse índice de natalidade, mantidas em pastagens com um custo mínimo de R$160,00/fêmea/ano, tem-se um investimento anual de R$ 6.400,00 que não resulta em retorno para o pecuarista.

A melhoria do índice de natalidade para, por exemplo, 80% (80 bezerros produzidos por cada 100 vacas), resultaria numa redução de R$3.200,00 em relação ao investimento aplicado sobre animais “improdutivos”. Dessa forma, quanto maior a taxa de natalidade, maior o número de bezerros produzidos em relação ao número de matrizes da propriedade, indicando que um menor número de fêmeas é necessário para gerar uma mesma população de bezerros, ou ainda, seria necessária para a produção de um mesmo número de bezerros uma menor área. Desse modo, taxas de natalidade ao redor de 90% devem ser vistas como adequadas e, se tornarão cada vez melhores quanto mais próximas de 100%, apesar de na prática a obtenção desse índice ser impraticável, principalmente em rebanhos muito grandes.

Assim, cada vaca do rebanho deveria produzir 1 bezerro por ano, num intervalo entre partos de 13 a 14 meses, desmamar entre 0,83 e 0,90 bezerro por ano e, ao longo de sua vida útil, gerar oito crias, sendo descartada com aproximadamente 135 meses (11 anos).

Figura 1

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1engenheiro agrônomo e pós graduando em produção animal na esalq-usp
2aluno de graduação da esalq/usp

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