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O Potencial do sorgo como cultura para produção de silagens – Parte 4/6 – Tipos de sorgo para produção de silagem

O milho, em função da maior produtividade de alguns híbridos comerciais, ainda seria a melhor alternativa, pois, conservado na forma de silagem apresenta potencial para produzir, em países de clima temperado, a maior quantidade de energia por unidade de área, tanto expressa em nutrientes digestíveis totais como em energia digestível. Em países de clima tropical e subtropical, principalmente, a concentração de energia aproveitável por unidade de matéria seca ingerida, a ingestão de nutrientes e possivelmente a maior eficiência de utilização da energia ingerida, fazem com que a silagem de milho, desde que adequadamente suplementada, constitua no volumoso de grande potencial de produção por unidade de matéria seca. Contudo, a maior produção de matéria seca de determinados sorgos, pelas suas características particulares, podem compensar e até mesmo superar sua menor digestibilidade em relação ao milho. Além disso o sorgo conserva-se verde e com maior umidade por mais tempo, não cessando o acúmulo de açúcares solúveis mesmo após a sua maturação fisiológica. Isso permite aumentar o período de colheita sem afetar drasticamente a qualidade da silagem produzida, facilitando a picagem e a compactação da massa ensilada.

As variedades normalmente usadas para produção de silagem são as forrageiras, mas tanto as sacarinas como as de duplo propósito (forrageiro/granífero) e até os graníferos têm também grande potencial como recurso forrageiro. Características como relação colmo/folha/panícula e/ou porcentagem de grãos, suculência do colmo (seco ou suculento), teor de açúcar (sorgo doce ou não doce) e cerosidade (presença ou não de cera) devem ser consideradas na escolha do tipo de sorgo para silagem, pois podem estar relacionadas com a digestibilidade, consumo da forragem e desempenho animal. É preferível a escolha de variedades ou híbridos com baixos teores de tanino. A cerosidade, apesar de se constituir num artifício para reduzir a perda de água pela planta, pode reduzir a digestibilidade in vitro da MS das plantas em função da maior dificuldade de penetração dos microrganismos do rúmen nas partes das plantas cobertas por cera. O conteúdo de grãos numa silagem é frequentemente utilizado como critério e a qualidade e isto parece lógico visto que o conteúdo de grãos tanto no sorgo como no milho é considerado sinônimo de alta concentração de energia, muito maior que no resto da planta (Tabela 1).

Tabela

Levantamentos de vários trabalhos científicos mostram que as variedades de sorgo com maiores porcentagens de espigas/panículas e menores de hastes estiveram associadas às maiores digestibilidades e consumos de silagem e maiores ganhos de peso de animais experimentais, sugerindo que variedades tipo “grão” sejam as mais apropriadas para silagem. Apesar disto, existe considerável evidência de que a relação entre o conteúdo de grãos e a qualidade (em termos de produção animal) não é consistente a partir de uma determinada porcentagem, aproximadamente 40%. Da mesma forma, vários estudos demostram que a participação percentual de grãos na matéria seca total, não só constitui um indicador de melhor valor nutritivo, mas principalmente condiciona um maior teor de matéria seca à silagem produzida, fato esse que é o real responsável pelo maior consumo de silagem com teor de matéria seca mais elevado.

A importância da qualidade da haste versus o conteúdo de grãos na determinação da digestibilidade da planta inteira pode depender do estádio de desenvolvimento dos híbridos, pois com o avanço da maturidade do milho ou sorgo, a porcentagem de grãos aumenta enquanto a de hastes diminui em porcentagem e em qualidade. O importante seria obter uma planta com máxima produção de grãos sem que a qualidade da haste e das folhas sofresse grande redução na qualidade. A diferença dos híbridos na taxa e extensão de translocação de carboidratos solúveis da haste para o grão durante o enchimento dos mesmos influencia substancialmente a importância da relação porcentagem de grãos versus qualidade da haste, e consequentemente a mais alta digestibilidade das hastes compensa uma menor porcentagem de espigas, fazendo com que as variações das proporções dos componentes das plantas não afetem de modo muito marcante a digestibilidade da planta inteira.

Vacas alimentadas com sorgo de duplo propósito (AG-2005-E/ 9,3kg leite/vaca/dia) mostraram maior produção de leite em relação ao tratamento de silagem de sorgo de porte alto (AG-2002/8,3kg/dia) e não houve diferença (P>0,05) em relação às vacas alimentadas com silagem de sorgo de porte médio (AG-2004-E/8,9kg/dia) e silagem de milho (AG-405/9,2kg/dia). Para gado de corte, o volumoso utilizado nas dietas do animais em fase de acabamento em confinamento tem o objetivo quase exclusivo de fornecer fibra para manter o funcionamento normal do rúmen, na proporção de 10 a 20% da dieta total, e por isso uma silagem de sorgo forrageiro ou sacarino, com baixa porcentagem de grãos, talvez fosse o mais recomendado pela sua maior produtividade por área, e consequentemente menores custos. Essas variações no desempenho animal podem ser devidas às diferenças nas exigências de nutrientes para produção de leite e ganho de peso. Porém, poder-se-ia pensar que a diferença poderia estar no conteúdo de matéria seca das silagens produzidas e seu efeito no consumo das mesmas, além de variações na qualidade da silagem e das perdas que ocorrem no processo de fermentação. Silagens obtidas de sorgos com baixas porcentagens de grãos normalmente são colhidas em estádios de maturação mais tardios (grãos duros), quando atingem teor de matéria seca suficiente para uma boa fermentação, enquanto que sorgos com maiores porcentagens de grãos atingem esses mesmos teores mais cedo. Essa característica é importante para sistemas de produção que utilizem mais de uma cultura na mesma área, já que o tempo de permanência da mesma é menor.

Comentário BeefPoint: Se o objetivo é produzir silagens similares às produzidas com milho, o sorgo de duplo propósito ou silageiro é o mais indicado, mas se a porcentagem de grãos não é um fator limitante, sorgos forrageiros de porte mais alto têm alto potencial de produção e custos menores por tonelada produzida, enquanto o inverso acontece com os graníferos. É fundamental que se avalie adequadamente as exigências nutricionais da categoria animal que receberá a silagem e as características da ração a ser balanceada, já que a silagem é apenas um ingrediente desta. Já existem no mercado softwares que avaliam o lucro máximo que a ração poderá proporcionar, e não apenas o custo mínimo da mesma. Esse software pode servir como suporte na tomada de decisões. Mais importante do que preconizar a melhor planta para ensilar, é definir quais espécies e híbridos associados darão um maior rendimento para o sistema de produção de silagens da propriedade, procurando-se com isso explorar as características positivas de cada uma, seja milho, sorgo, girassol ou qualquer outra gramínea forrageira .

Fonte: DEMARCHI, J.J.A.A.; BOIN, C.; BRAUN, G. A cultura do sorgo (Sorghum bicolor L. Moench) para a produção de silagens de alta qualidade. Zootecnia, v. 33, n.3, p.111-136, 1995.

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