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8 de setembro de 2000
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22 de setembro de 2000

O potencial do sorgo como cultura para produção de silagens – Parte 6/6. Características fermentativas das silagens

Sorgo sacarino ou sorgo doce são cultivares que têm níveis mais elevados de sacarose no suco. Os açúcares armazenados principalmente nos colmos, consistem principalmente de sacarose, frutose, glucose e pequenas quantidades de manose e galactose. Os sorgos “doce” apresentam teor de açúcar ao redor de 21% na MS, enquanto nos cultivares graníferos, não doces, este teor se situa ao redor de 5 a 6%. Outros autores apresentam médias de 11% de carboidratos solúveis na MS para sorgos graníferos e 18,3% para sorgos doces.

Diversos pesquisadores acreditam que alto conteúdo de açúcar seja desejável como substrato prontamente disponível para a fermentação e que desse modo contribua para a melhoria da qualidade da silagem. Entretanto, teores de açúcar ao redor de 6 a 8% têm sido suficientes para um adequado processo de fermentação. Alguns trabalhos tem determinado o conteúdo de açúcar na planta de sorgo antes de ensilar. No entanto, poucos são os que informam o conteúdo de açúcares residuais na silagem, variável esta importante para avaliar as exigências pelos microrganismos para uma fermentação rápida e eficiente.

Contrariamente, silagens feitas de sorgos de colmos doces ou com maior teor de açúcares solúveis têm apresentado maiores perdas de matéria seca durante a fermentação. Além disso, teor de açúcar foi altamente correlacionado (P< 0,01) com o incremento de FDN (r=0,89) e com o decréscimo na digestibilidade (r=-0,76) das silagens resultantes. Estas duas últimas características são, por sua vez, correlacionadas com menor consumo de matéria seca, comprometendo o desempenho animal. Parâmetros de avaliação da qualidade – Silagens láticas são caracterizadas por baixos valores de pH, normalmente entre 3,7 e 4,2, e altas concentrações de ácido lático, entre 8 e 12% na MS ou mais, dependendo dos teores de carboidratos solúveis da planta ao ser ensilada e do poder tampão da massa ensilada. O ácido butírico neste tipo de silagem é menor do que 0,1% na MS ou até ausente. Silagens típicas de milho apresentam valores de N-total variando de 1,31 a 1,82%, N-NH3 /N-total de 7 a 13% e teores de FDN, FDA e MM próximos de 41,3%, 21,9% e 5,5%, respectivamente. Silagens produzidas com diferentes tipos de sorgo e de milho em duferentes estágios de maturação apresentaram pH inferiores a 4,2 e nitrogênio amoniacal como porcentagem do nitrogênio total inferiores a 12%, exceto as silagens de milho nos estádios mais avançados de maturação, cujos valores foram maiores provavelmente pelas altas porcentagens de matéria seca.

Sorgos de duplo propósito em diferentes estádios de maturação apresentaram valores de pH, todos próximos de 4,0, mas os valores de N-total foram reduzidos de 1,81% na MS (grãos leitosos/92 dias de ciclo) para 1,41% (grãos duros/134 dias). Os valores de N-NH3/N-total também foram reduzidos de 13,3 para 6,4%, enquanto os teores de N-FDA/N-total aumentaram de 7,6 para 18,6% e os de matéria seca da planta inteira de 31,6 para 49,9%. A densidade da matéria verde obtida nos silos experimentais se reduziu de 515 para 415 Kg/m3, mas a de matéria seca aumentou de 163 para 207 Kg/m3 devido ao aumneto do teor de matéria seca e de grãos. Esses resultados indicaram que a partir do início do estádio de grãos farináceos a MS já ultrapassava 35%, o que comprometeu a fermentação e aumentou a atividade aeróbia no início do processo (maior quantidade de ar retida na massa ensilada).

PAIVA et al. (1978) em levantamento da qualidade de silagens da região metalúrgica de Minas Gerais verificaram que as silagens de milho tiveram o seu pH próximos de 4,0 (desvio de ± 0,2), assim como as de sorgo e de milho + sorgo (4,0 ± 0,1). Os teores médios de MS foram de 36,5% (± 7,7) para silagens de milho, 35,7% (± 6,6) para silagens de sorgo e 37,5% ( ± 4,7) para silagens mistas de milho e sorgo. Os teores médios dos ácidos orgânicos (% na MS) foram de 0,12, 0,51 e 0,07 para ácido butírico; 0,08, 0,09 e 0,14 para ácido propiônico; 0,87, 0,52 e 0,52 para ácido acético e 3,89, 3,66 e 3,60 para ácido lático, respectivamente para as silagens de milho, sorgo e milho + sorgo.

Valor nutritivo das silagens – Em estudo com o objetivo de avaliar a variabilidade de sorgo forrageiro comercial, foram comparados 80 cultivares em 1986 e 60 em 1987, para características agronômicas e forrageiras. A produção de matéria seca variou de 10,1 a 25,2 t/ha, a produção de grãos de 1,2 a 10,2 t/ha. A digestibilidade in vitro da MS variou de 44,6 a 62,1%, enquanto os teores na matéria variaram de 4,5 a 8,2% para proteína bruta, de 48,3 a 71,9% para FDN e de 27,1 a 49,4 para FDA. Estes dados comprovam mais uma vez a grande variabilidade genética existente dentro da espécie.

A digestibilidade das partes das plantas (colmo, folhas e panículas) tem marcada influência sobre a digestibilidade da planta total. Em quatro híbridos de sorgo avaliados com diferentes proporções de colmos, folhas e panículas, verificou-se que a digestibilidade das panículas é sempre maior que a das folhas e, que geralmente os colmos apresentam a menor digestibilidade. Entretanto, existe grande variabilidade da digestibilidade de cada fração entre os diferentes híbridos, o que sugere a possibilidade de melhoria no valor nutritivo através da seleção de genótipos com melhor equilíbrio colmo, folha e panícula, bem como, pela seleção e cruzamento das linhagens de maior digestibilidade para cada fração das plantas.

No levantamento feito na região metalúrgica de Minas Gerais mencionado anteriormente, as digestibilidades in vitro médias da matéria orgânica foram de próximas de 59,0% (desvio de ± 3,3) para silagens de milho, de 49,0% (± 2,9) para silagens de sorgo e de 60,0% (± 4,8) para silagens mistas de milho e sorgo. Os valores de PB e de MM foram, respectivamente, de 5,6% ( ± 0,8) e 5,0% (± 1,9) para silagens de milho, de 5,0% (± 0,9) e de 4,5% (± 1,5) para silagens de sorgo e de 5,6% (± 1,1) e 4,3% (± 0,6) para silagens mistas de milho e sorgo.

O valor energético (NDT, energia digestível) das silagens de sorgo produzidas têm apresentado valores bastante variáveis, principalmente devido às diferentes variedades (tipos) e estágios de maturação utilizados. Em média os valores são inferiores aos das silagens de milho, e um dos principais fatores é, provavelmente, a menor porcentagem de grãos nas silagens de sorgo em relação às de milho. Além disso, em estágios de maturação avançado, a perda de grãos nas fezes é maior para silagens de sorgo tipo granífero do que para silagens de milho.

Trabalhos comparando silagens de sorgo produzidas nos estágios de grãos pastoso e duro, mostraram que o processamento quebrando de 95% dos grãos, aumentou a digestibilidade das silagens produzidas com grãos duros. Os teores de proteína bruta das silagens de sorgo também tëm sido inferiores aos da silagem de milho.

Na maioria das silagens, considerando o nível protéico e a digestibilidade, se faz necessária uma suplementação, que pode ser realizada com uréia no processo de ensilagem ou no concentrado fornecido na dieta. Com a utilização de cultivares de sorgo com maiores porcentagens de grãos e cortes em estádios de maturação entre o leitoso e o farináceo, espera-se que a porcentagem de proteína bruta fique acima dos 8% e a digestibilidade seja elevada. Em híbridos de sorgo de porte médio ou baixo, normalmente os teores de proteína bruta têm se mostrado superiores aos de porte alto em função de uma maior participação das folhas, panículas e grãos na massa ensilada.

Comentário BeefPoint: Para avaliar a qualidade fermentativa de uma silagem é necessário identificar os valores de matéria seca, pH, nitrogênio amoniacal em relação ao nitrogênio total e nitrogênio na parede celular (N-FDN e N-FDA). Valores de densidade e tamanho das partículas também podem e devem ser usados para avaliar qualidade silagens. Coloração e cheiro, apesar de subjetivos, também podem ser ferramentas auxiliares importantes. O ideal é buscar silagens de sorgo com aproximadamente 65% de NDT, possível com híbridos de duplo propósito ou silageiros. Sorgos forrageiros produzem silagens com boa qualidade fermentativa, mas com menor concentração energética e consumo de matéria seca.

Fonte: DEMARCHI, J.J.A.A.; BOIN, C.; BRAUN, G. A cultura do sorgo (Sorghum bicolor L. Moench) para a produção de silagens de alta qualidade. Zootecnia, v. 33, n.3, p.111-136, 1995.

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