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Ocorrência de toxinas e esporos de Clostridium botulinum em cacimbas no Vale do Araguaia, Goiás

Aires Manoel de Souza1 e Iveraldo Dutra2

Com o objetivo de estudar a ocorrência e distribuição de esporos e toxinas de Clostridium botulinum tipos C e D em cacimbas utilizadas como bebedouro de bovinos em pastagens na Região do Vale do Araguaia, no Estado de Goiás, foi realizado um estudo em 300 cacimbas de 130 propriedades rurais localizadas em 12 municípios, nos anos de 1998 e 1999.

Figura 1 – Vale do Araguaia, Goiás. Localização das cacimbas estudadas no presente estudo

Figura 1

Figura 2 – Cacimba utilizada na dessedentação de bovino. Vale do Araguaia, Goiás

Figura 2

Foram analisadas amostras de sedimentos das cacimbas, do solo superficial e de fezes de bovinos, colhidas ao redor das cacimbas. Foram correlacionados ainda os valores obtidos das análises físico-química de amostras de solo e de sedimento de 150 cacimbas com a ocorrência de esporos e/ou toxinas da bactéria. Nas amostras de sedimento, a ocorrência de esporos e/ou toxinas foram correlacionadas ainda com as suas características orgalolépticas. A detecção de esporos e toxinas botulínicas foi realizada nos filtrados pelo bioensaio em camundongos da raça Swiss, linhagem Webster, da mesma forma que a soroneutralização para tipificação dos materiais positivos.

As amostras de fezes de bovinos analisadas foram as que apresentaram estatisticamente (a=0,05) maior positividade para C. botulinum, com 93/300 (31%), seguidas das do solo siperficial, com 57/300 (19%), e das provenientes dos sedimentos, com 30/300 (10%). A detecção de toxina botulínica tipo C, D, ou caracterizadas como pertencentes ao complexo CD, nos sedimentos das cacimbas foi possível em seis amostras, das 300 examinadas (2%).

Quanto aos valores físico-químicos médios das amostras de solo examinadas (Ca, Mg, Al, K, P, matéria orgânica, pH, Zn, Cu, Fe, Mn, argila, limo e areia), e correlacionados com a ocorrência de esporos, o ferro e o magnésio apresentaram valores estatisticamente inferiores (a=0,05) nas amostras de solo que continham esporos de C. botulinum.

Na análise físico-química das águas das cacimbas, os valores médios das amostras que continham esporos e/ou toxinas foram estatisticamente diferentes das amostras negativas, para a demanda bioquímica e química de oxigênio, matéria orgânica e pH. Os valores médios da temperatura e cor não diferiram estatisticamente.

A maioria das cacimbas estudadas (73,67%) tinha idade entre 15 e 25 anos. Segundo as análises estatísticas efetuadas, há um aumento proporcional de contaminação pelos esporos ou pelas toxinas de C. botulinum tipos C e D de 0,91% nas cacimbas, detectados nos sedimentos, para cada ano de idade. Isto posto, espera-se que, num prazo de 25 anos, 22,95% das cacimbas estejam contaminadas por toxinas ou esporos do microrganismo.

Em 100% das cacimbas o aspecto foi turvo, sendo que 15,33% apresentaram características objetáveis (pútrida) e 84,67% não objetáveis (sem cheiro). Das objetáveis, 34,78% apresentaram toxinas ou esporos de C. botulinum e 65,22% não apresentaram toxinas ou esporos no sedimento. Das não objetáveis, 7,87% apresentaram toxinas ou esporos de Clostridium botulinum e 92,13% não apresentaram toxinas ou esporos nos sedimentos, evidenciando que, água tem cheiro pútrido, há uma maior probabilidade de se encontrar toxinas ou esporos nos sedimentos.

Figura 3 – Cacimba circular com água esverdeada. As fezes de bovinos contaminam as cacimbas com esporos de C. botulinum

Figura 3

A detecção de toxinas e esporos de C. botulinum nas cacimbas do Vale do Araguaia, em Goiás, demonstra o risco potencial permanente e crescente para a ocorrência da intoxicação botulínica de origem hídrica nos bovinos, impondo a necessidade de mudanças no sistema de fornecimento de água para a dessedentação dos animais.
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1 Professor Adjunto, Escola de Veterinária, Universidade Federal de Goiás e Curso de Pós-graduação e Epidemiologia Experimental e Aplicada às Zoonoses, USP.
2 Professor Assistente Doutor, Unesp – Campus de Araçatuba, SP.

Comentário BeefPoint: Uma das questões de grande importância econômica e sanitária na produção de carne bovina é a água. É um dos itens mais negligenciados dentro dos sistemas de produção no País. A água, em quantidade e qualidade, é um fator de produção que deve ser considerado em qualquer propriedade. A pergunta mais freqüente que surge é: “qual seria a qualidade da água fornecida aos animais”?. Em princípio, deveria ser a mesma que nós bebemos. Os bebedouros em que os animais têm acesso direto, defecando e urinando dentro, devem ser substituídos gradativamente quando se quer diminuir os riscos de problemas sanitários. O trabalho comprova que as fezes dos bovinos se constituem na principal forma de contaminação das aguadas; neste caso sendo avaliado apenas a presença de um microrganismo e suas toxinas. Com a intensificação dos sistemas de produção e o aumento da população bovina, certamente estes problemas se agravarão e serão fatores limitantes na produção animal. Incluir o fornecimento de água de boa qualidade aos animais é uma questão sanitária de grande relevância e deve ser considerada no planejamento da propriedade.

Fonte: Souza, A.M. Ocorrência de esporos e toxinas de de Clostridium botulinm tipo C e D em cacimbas utilizadas como bebedouros de bovinos em pastagens no Vale do Araguaia, Goiás, Brasil. 2001, 166 f. Tese (doutorado em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

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