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Otimização da taxa de lotação em sistemas de produção animal em pastagens. Parte 3/3 -Otimização econômica e biológica

Luís Gustavo Barioni1

Quando visualizamos as curvas de resposta de produção por animal e por hectare com a taxa de lotação, tendemos, de “bate pronto”, utilizar uma lotação que maximize o ganho de peso. Entretanto, a taxa de lotação ótima, do ponto de vista econômico, é sempre menor que aquela na qual se obtém máximo desempenho biológico, dado que o desempenho individual dos animais tende a decrescer com a taxa de lotação (Hart et al., 1988). Isso ocorre porque existe um aumento dos custos variáveis com o aumento da lotação. Por exemplo, o aumento de lotação aumentam os gastos com sal mineral, vacinas, vermífugos, entre outros de modo que a margem bruta máxima seja produzida em lotações entre aquelas que maximizam o desempenho por animal (exemplo: ganho de peso por animal por dia) e o desempenho por hectare (exemplo: GDP/ha/ano). Além disso o aumento de lotação significa um aumento do capital “empatado” na atividade. Isso determina que a remuneração ao capital investido seja cada vez menor com o aumento das taxas de lotação.

TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS

De forma geral, dos anos 50 ao final dos anos 70 houve uma ênfase no desenvolvimento de modelos empíricos que relacionavam o desempenho animal à taxa de lotação diretamente, enquanto que nos anos 80 e anos 90, a ênfase foi na utilização de modelos dinâmicos que empregavam relações empíricas entre o estado da pastagem e crescimento da planta e o desempenho animal. Nesses modelos o desempenho do sistema é resultado da interação dinâmica entre o “estado” da planta e do animal.

Apesar dos modelos desenvolvidos nas últimas duas décadas apresentarem previsões satisfatórias em condições padrão de manejo de pastagem e suplementação, é preciso enfatizar que as relações entre massa total de forragem, oferta de forragem e altura da pastagem com o desempenho animal são instáveis. Essa instabilidade nas previsões é devida principalmente a mudanças no estado da pastagem em resposta ao manejo ou aos cenários climáticos que geram mudanças estruturais significativas na pastagem ao longo do ano. Alguns modelos como o neozelandês STOCKPOL ou o Australiano GRAZPLAN dividem a forragem em várias categorias qualitativas. O STOCKPOL divide a massa de forragem em três frações: folha, caule e material morto, enquanto o GRAZPLAN divide a massa de forragem em categorias de digestibilidade. Ambas as abordagens melhoram as predições em relação à utilização de apenas uma variável de estado para a massa de forragem da pastagem.

Maior robustez na predição dos efeitos da dinâmica da pastagem e do animal e do desempenho do sistema está sendo esperada para uma nova geração de sistemas de apoio à decisão que está hoje nos laboratórios de modelagem e simulação da maioria dos países desenvolvidos e chegando atualmente também ao Brasil. Os novos modelos de simulação via de regra tratam a ingestão de forragem no seu nível mínimo de agregação, o bocado. O bocado é também chamado o átomo do forrageamento, uma vez que é a menor unidade completa de interação entre a pastagem e o animal. A ingestão diária é calculada como o produto de massa de bocado, frequência de bocados durante o pastejo e tempo de pastejo. O crescimento da forragem irá ser estabelecido pelas taxas de elongação e aparecimento de folhas ao invés de massa total, embora fluxos de massa entre as frações folha, caule e material morto estejam ainda sendo utilizadas e devam persistir por algum tempo em sistemas de apoio à decisão. Alguns modelos incluem até mesmo dados de qualidade dentro de uma mesma folha.

A taxa de lotação também tem importante efeito na heterogeneidade espacial da pastagem, resultando em áreas de rejeição e superpastejo em baixas lotações, o que pode acelerar o processo de degradação. Tal efeito já tem sido incorporado em alguns modelos de pesquisa e certamente fará parte da próxima geração de sistemas de apoio à decisão para produção de bovinos a pasto.
Outro efeito importante que é praticamente desconsiderado nos modelos atuais é a variabilidade climática entre anos. Cacho e Bywater (1994), através de simulação de sistemas demontraram que a taxa de lotação que produz máxima produção por hectare é significativamente inferior quando considerando a variabilidade climática inter-anual que aquela considerando apenas a variabilidade estacional de produção de forragem. Variabilidade entre animais também será um ponto importante na determinação dos retornos econômicos de cada taxa de lotação.

A introdução dessas características em modelos de simulação irá, entretanto, aumentar vertiginosamente a demanda computacional. A introdução de todas as características citadas em combinação, pode gerar um número de cálculos necessários da ordem de 400 a 2000 vezes maior que aqueles utilizados hoje em dia, de forma que o aumento da velocidade dos processadores será por alguns anos, um dos entraves para utilização dessas tecnologias, de forma eficiente e amigável.

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1 Doutorando, Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

Fonte: Cacho, O. J. and Bywater, A. C. (1994). Use of a grazing model to study management and risk. Proceedings of the New Zealand Society of Animal Production, 54: 377-381

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