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15 de dezembro de 2000
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1 de janeiro de 2001

Suplementação alimentar de novilhos Nelore em pastagens de braquiária decumbens

Marcelo de Queiroz Manella1 e Celso Boin2

O Brasil conta atualmente com o maior rebanho comercial de bovinos de corte do mundo. A pecuária nacional se caracteriza por ser basicamente de pasto, pois estima-se que 80% do rebanho esteja alojado em pastagens, sendo que as forrageiras predominantes são gramíneas do gênero Brachiaria spp. A estacionalidade de produção das plantas forrageiras (seca x águas) é refletida em oscilações no desempenho animal, gerando baixos índices zootécnicos. Animais a pasto no período seco apresentam baixos ganhos, e muitas vezes perda de peso, enquanto no período das águas os ganhos podem chegar a 800g/d. Porém a média anual de ganho inferior a 400g/d.

Nos últimos anos instituições de pesquisa, como a EMBRAPA e o Instituto de Zootecnia, vem estudando estratégias de suplementação que viabilizem a produção de animais a pasto, eliminando as fases negativas do crescimento, antecipando a idade de abate, promovendo melhor aproveitamento da terra, e consequentemente aumentando a rentabilidade do sistema.

Com o objetivo de estudar a eficiência da suplementação a pasto durante os períodos críticos como alternativas de redução da idade de abate de animais recriados em Brachiaria decumbens, Euclides et al. (1998) realizaram um elegante trabalho na EMBRAPA-CNPGC em Campo Grande-MS.

Sessenta bezerros Nelore recém desmamados pesando cerca de 170kg, foram distribuídos em piquetes de B. decumbens e receberam os seguintes tratamentos: A-Testemunha (sem suplementação); B- suplementação apenas no primeiro período seco; C- suplementação apenas no segundo período seco; D- suplementação durante os dois períodos de seca; e E- suplementação no primeiro período seco e confinados (100 dias) no segundo período seco. Os animais eram pesados a cada 28 dias, considerando-se o ponto de acabamento de 440kg.

O suplemento (18%PB; 72,5% digestibilidade in vitro) era composto de 75% de milho desintegrado com palha e sabugo e 25% de farelo de soja, e foi fornecido ao equivalente de 0,8% do peso vivo médio do lote. Os consumos no primeiro e no segundo períodos de seca foram de 1,5 e 2,9 kg/d, respectivamente. A dieta durante o confinamento foi de 60% de silagem e 40% de concentrado (73% grão de milho, 25% farelo de soja, 1% de uréia, 1% de bicarbonato de sódio). A qualidade da fração verde das pastagens é mostrada na tabela 1.

Tabela 1: Conteúdo médio de proteina bruta (PB), fibra detergente neutro (FDN) e digestibilidade in vitro da matéria orgânica (DIVMO) da fração verde da planta

Tabela 1

Adaptado de Euclides et al (1998).

No primeiro período seco, os animais suplementados tiveram maiores ganhos que os não suplementados (1030 x 320 g/d, P<0,01), sendo em média 50 kg mais pesados ao final do período (247 x 197kg, P<0,01). No segundo período seco os animais confinados apresentaram maiores ganhos de peso, seguido dos animais suplementados, enquanto que os animais que não receberam suplemento perderam peso (Tabela 2). No período chuvoso, nos dois anos, os animais que não foram suplementados apresentaram ganhos superiores aos tratamentos suplementados. Após um período de crescimento retardado por subnutrição, na "re-alimentação" os animais tendem a compensar com crescimento acelerado. Esta compensação foi apenas parcial, pois os animais não atingiram o mesmo peso dos animais suplementados. Outros exemplos de ganho compensatório foram mostrados em artigo anterior do Radar de Nutrição. Tabela 2: Desempenho de bovinos durante o período seco e chuvoso

Tabela 2

Adaptado de Euclides et al (1998).

Os autores relatam que com a suplementação foi possível aumentar a capacidade de suporte das pastagens em relação aos tratamentos que não foram suplementados (0,87x 0,73 UA/há, P<0,01). No gráfico 1 é possível notar que em relação aos animais não suplementados, a idade de abate foi reduzida em cinco meses para os animais suplementados na primeira seca, sete meses para os suplementados na segunda seca, de nove para os suplementados na primeira e segunda seca, e de 13 para os suplementados na primeira seca e confinados na segunda. Os autores concluíram que a suplementação foi capaz de reduzir a idade de abate dos animais, diminuir o custo fixo e permitir maior velocidade de giro de capital. Os autores ainda consideram que no caso do confinamento, além de ter liberação de pastos, é possível terminar os animais no período da entressafra .

Gráfico 1 – Ganho de peso de bovinos nelore submetidos a diferentes regimes alimentares

Gráfico 1

Adaptado de Euclides et al (1998).

Comentário BeefPoint: A suplementação a pasto é uma ferramenta valiosa para ser usada como estratégia no sistema de produção. A disponibilidade de pastagem deve ser adequada, principalmente quando o suplemento for protéico. Pastagens mal manejadas terão poucos benefícios. O mercado dispõe de diversos produtos comerciais para suplementação a pasto, o que torna necessário a consultoria especializada para definir qual o melhor produto para os objetivos e características de cada propriedade. Nos radares futuros, a suplementação a pasto continuará sendo discutida, apresentando dados de outros trabalhos, com diferentes estratégias.

Literatura consultada:

EUCLÍDES, V.P.B.; EUCLÍDES FILHO, K.; ARRUDA, Z. J.; FIGUEIREDO, G. R. Desempenho de novilhos em pastagens de Brachiaria decumbens submetidos a diferentes regimes alimentares. Revista da Sociedade Brasileira de Zootecnia. v.27, n. 2, p. 246-254. 1998.

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1. Doutorando, Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP
2. Eng. Agr., PhD, Prof. Convidado, ESALQ/USP, Consultor

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