Entendendo o florescimento dos capins
18 de maio de 2000
Perspectivas para o mercado mundial da carne no segundo semestre de 2000
2 de junho de 2000

Desempenho da pecuária de corte em 1999

Os resultados da pecuária de corte durante o ano de 1999 estiveram atrelados à evolução da taxa cambial, cujos valores estouraram em meados de janeiro.

A princípio, muito se especulou sobre os impactos que as novas taxas de câmbio poderiam proporcionar para a agropecuária em geral. No entanto, de imediato, para a maioria das atividades agropecuárias, a desvalorização do real causou desequilíbrio entre o valor do produto (nas mãos dos produtores) e os novos custos de produção.

Enquanto os produtos agropecuários continuaram sendo cotados em reais, os insumos, sendo ou não de origem estrangeira, passaram a acompanhar as cotações do dólar. Nitidamente, o produtor sentiu uma elevada diminuição em seu capital.

Os preços da arroba do boi gordo em 1999

Veja na figura 1, a evolução em dólares dos preços diários da arroba do boi gordo ( SP ).

Observe que no fim do ano, a elevação na cotação do boi e um sensível recuo na cotação do dólar permitiram que a arroba voltasse aos patamares históricos de US$20,00.

Em reais, o valor da arroba esteve praticamente em alta durante todo o ano de 99, exceção seja feita aos meses de abril, maio e parte de agosto.

A evolução do preço em reais da arroba do boi gordo em São Paulo pode ser observado na figura 2 para o mesmo período considerado na figura 1.

Observe a participação da queda nas cotações do dólar. Enquanto o pico de preços da arroba bovina, em reais, situa-se na primeira quinzena do mês de novembro, em dólares os valores da arroba do boi gordo de dezembro são 2,5% mais altos em relação à novembro.
Essa tendência de aumento dos preços médios tem ocorrido para a maioria dos produtos agropecuários.

Analisando em reais, tem-se a impressão que os produtores foram sendo mais bem remunerados ao longo do ano, porém, na verdade o que ocorre é uma recuperação dos preços que lentamente voltam aos seus patamares compatíveis com a realidade agrícola do país.

Na média geral, os produtores ainda não recuperaram integralmente as perdas líquidas, quando comparado com o custo de produção.

Gráfico 1

Gráfico 2

Custos de produção e valores da arroba bovina

Observe, na tabela 1, as variações de preços de alguns componentes de custos de produção e produtos entre dezembro de 99 e dezembro de 98.

Comparando pontualmente os valores, conclui-se que o ano de 1999, mesmo com os aumentos nos preços do insumos, foi bom para o pecuarista, pois apenas o aumento de preço do cimento supera o valor da arroba do boi gordo.

No entanto, os preços da arroba do boi em dezembro estão relacionados com a pouca oferta de animais para abate, situação que já vinha ocorrendo tendo em vista a desistência de muitos produtores em confinar até outubro, que acabaram desovando animais em agosto (observe tanto na figura 1 como na figura 2 a queda nos preços ocasionada pelo aumento de ofertas).

Na época, as incertezas quanto ao preço do boi gordo e os custos dos alimentos foram marcantes nas decisões de não continuar com o confinamento.

Quem confinou e vendeu em outubro, novembro e dezembro, acabou somando bons lucros.

Outro motivo para a baixa oferta de bois para abate foi o acontecimento de uma das piores secas dos últimos anos no país.

Muitos projetos de semi-confinamento e suplementação com sal proteinado acabaram não dando resultados em regiões onde normalmente se usa esta técnica.

As chuvas atrasaram e a expectativa é de que o volume de bois a pasto aumente apenas a partir de fevereiro/março de 2000.

Desta forma, analisando os aumentos médios no ano, chega-se a um resultado preocupante, pois a maior parte dos aumentos dos insumos ocorreram de imediato quando o valor do dólar estourou. O valor do boi só ganhou mais força nos três últimos meses do ano.

Em média, o valor da arroba do boi gordo em 1999 foi apenas 22,28% superior em relação ao valor de 1998.

Observe na tabela 2 o aumento nos custos de algumas operações em fazendas de pecuária.

Lembre-se que já na primeira campanha contra a febre aftosa no ano de 99, os preços já haviam subido.

A produção de volumosos deve ser contabilizada com os valores atuais, mesmo porque quando ocorreu o aumento na cotação do dólar, foram suspensas as vendas de grande parte dos insumos cujos valores são indexados em dólares. Apenas algumas revendas, principalmente cooperativas acabaram se desfazendo de parte dos estoques nos preços antigos.

Tabelas

Comparação com índices econômicos

Normalmente compara-se o resultado econômico da atividade produtiva com os ganhos que seriam obtidos em investimentos financeiros.

Muitas vezes, o retorno da atividade produtiva fica próximo ao da poupança, o que sugere que o agricultor ou pecuarista abandone a atividade e viva da renda de seu capital.

Parece claro. Por que colocar o capital em uma atividade produtiva, se o produtor pode obter o mesmo ganho sem esforço e sem depender das intempéries climáticas?

Muitos argumentos se contrapõem e, colocando-os na balança, mesmo que o retorno na produção agropecuária seja menor, é mais sábio continuar na atividade, pois além da necessidade de se levar em conta a vocação individual, o setor financeiro, principalmente no Brasil, é totalmente instável e sujeito a alterações muitas vezes enigmáticas a leigos no assunto. Como um pecuarista se sairia no ramo financeiro?

E, como qualquer agropecuarista mais velho sempre desafia: “Aponte um indivíduo que vendeu uma propriedade num dia e comprou outra igual no dia seguinte.”

Para efeito de comparação, a figura 3 ilustra o retorno do capital investido na engorda de bovinos para abate, comparada com alguns índices e rendimentos de aplicações financeiras durante o ano de 1999 (não entra dezembro de 98).

Para a elaboração do gráfico da figura 3, a área considerada no cálculo da atividade pecuária foi de 3.200 hectares, sendo que destes, 2.500 hectares destinados à produção animal.

Note que a engorda de bois situa-se, financeiramente, no patamar mais baixo dos investimentos. As atividades em sistemas com o uso racional de tecnologias, nível tecnológico 2 e 3, permitem ganhos próximos aos do rendimento da poupança.

Também observa-se que a pecuária extensiva para a engorda de bovinos é economicamente inviável, uma vez que se acompanhe corretamente os custos. A permanência dos pecuaristas nesta atividade vem das extensas áreas, baixo investimento, porém degradação incessante do solo e do patrimônio. Dificilmente enxerga-se e contabiliza-se estas perdas.

Há de se considerar também que o retorno do capital investido não atingiu aí o seu patamar máximo de lucratividade. Outras atividades, que não apenas a engorda por si só, permitiram retorno anual de capital investido em torno de 22%, alcançando a rentabilidade do FIF e o índice CDI-Cetip.

Maiores ganhos dependem de planejamento agrícola e pecuário, atividades que normalmente são envolvidas a outros fatores mais particulares de cada propriedade.

No caso, foi comparado apenas a engorda de bovinos, ou seja, a atividade onde, de um boi de 340 kg se obtém um boi para o abate com 495 kg, em média

Gráfico 3

Observação da figura 3: Para definir e comparar resultados nas atividades de pecuária de corte, a Scot Consultoria utiliza a subdivisão em três níveis:

– Pecuária de nível tecnológico 1 ou extensiva, praticada por grande parte dos pecuaristas brasileiros. Mínimo uso de tecnologias, pouco ou nenhum uso de insumos, falta de planejamento e lotações no máximo até 0,5 unidades animal (450 kg de peso vivo) por hectare, área média de pastos em torno de 80 a 100 hectares.
– Pecuária de nível tecnológico 2, geralmente praticada por produtores que possuem assistência técnica especializada. Maiores cuidados com as recomendações técnicas, implantação mais cautelosa das pastagens, correção anual de parte da área plantada (calcário, fósforo e potássio), conservação de forragem, confinamento de no máximo 10% do rebanho, lotações atingindo até 2,0 unidades animal por hectare, área média de pastos em torno de 30 a 50 hectares.
– Pecuária de nível tecnológico 3, caracterizada pela busca da intensificação no uso de forragens. Produção totalmente planejada e controlada, fertilização almejando elevadas produções e pastejo rotacionado, produção avaliada em kg/ha, altas lotações por hectare, área média de pastos em torno de 15 a 30 hectares, confinamento dos animais a serem abatidos, etc.

Os comentários estão encerrados.

plugins premium WordPress